Fugas - Viagens

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Janela aberta para um mundo azul

Por Sousa Ribeiro (texto e fotos)

À descoberta dos encantos do Golfo de Fethyie, na Turquia, entre a lagoa Azul e a praia de Ölüdeniz ou passeios a pé até à solitária Kabak e ao Vale das Borboletas. Além de nos deixarmos ir ao sabor da corrente nas águas cristalinas do Mediterrâneo, ficamos a saber mais sobre o Pai Natal na ilha de São Nicolau e vamos ao encontro da História na aldeia perdida de Kayaköy.

O homem, dominado por um frémito de energia, fervia de vida e entusiasmo e devia sentir-se orgulhoso daquele bigode já grisalho e do ventre volumoso como um tambor quando, de repente, iluminado contra o incipiente crepúsculo, começou a gritar e a esbracejar dentro da piscina. O filho, apanhado de surpresa, parecia não reagir, assumindo, na sua ingenuidade, que aquele momento também fazia parte das brincadeiras do pai.

Mas um dos empregados do hotel, vendo desenhados os traços do medo no rosto do homem, mergulhou e resgatou o corpo que ameaçava afundar-se e deixar de lhe pertencer. As lágrimas batiam-lhe à porta e, impelido por forte emoção, ainda com a voz trémula e um ar de infinita fadiga, como se os seus olhos tivessem enfrentado uma tempestade, abraçou-se à mulher e ao filho, ao mesmo tempo que olhava de lado, como os papagaios, para a piscina agora mergulhada num silencioso remanso.

Para muitos turcos, com vidas de tantas provações e de tão poucos prazeres, uns dias de férias em Ölüdeniz, nas águas cristalinas do Mar Mediterrâneo ou simplesmente num hotel, representam a materialização de uma fantasia que, para aquele homem, de bigode farfalhudo e barriga proeminente, agora com a alma apaziguada e um corpo presente, quase significava a desvinculação do reino dos vivos.

Sob um céu pardacento e uma luz vacilante, deixo o hotel e embrenho-me nas ruas cheias de turistas ingleses, de lojas e restaurantes e, ansioso de solidão e grávido de silêncio, caminho na direcção do mar, que surge diante dos meus olhos como uma janela escancarada para o crepúsculo. Sentado na praia mordida pelo mar, com um copo na mão, observo, recolhido na minha quietude e numa indolência tão doce, aquela gota de ouro candente que não tardará a ser engolida pelas águas e os pequenos barcos que recortam a paisagem, até que a luz se escoe e a escuridão desça sobre a areia húmida.

Aos primeiros alvores do dia seguinte, quando a vida ainda flutua em silêncio, regresso à praia agora deserta e, protegido pela imponência do Monte Baba, que projecta a sua sombra sobre as águas, não resisto à tentação de um passeio a pé junto ao mar.

Uma língua de areia (mais seixos do que areia) estende-se e conduz-me, não sem uma excitação febril, até à lagoa Azul, zona protegida integrada no parque natural onde, de quando em vez, se avistam tartarugas que se passeiam tranquilamente nas águas que contrastam com aquele emaranhado de árvores que decoram as montanhas. Um cenário belo, uma explosão silenciosa a merecer um olhar penetrante antes da chegada dos turistas que a esta hora ainda dormem e curam ressacas da noite anterior.

A meio da manhã, as cadeiras brancas de plástico começam a ser ocupadas, turcos e estrangeiros convivem em admirável comunhão e as crianças podem brincar nas águas tranquilas sem que se justifique uma vigilância apertada. No interior da lagoa Azul, quase fechada pela extensa língua de areia, pequenos barcos a pedal não retiram serenidade ao local e o céu límpido passa agora a ser decorado com as asas multicolores dos parapentes que gozam de uma vista privilegiada quando se lançam do Baba Dag, a quase dois mil metros de altitude.

-Não quer fazer um cruzeiro no Golfo de Fethyie?

A luz fulgurava no negro daqueles olhos providos de expressão que se pousavam em mim. Por momentos desviei o olhar, na direcção dos barcos, depois dirigi-o para os estrangeiros que se preparavam para entrar e voltei a afogá-lo na mulher de tez morena e com um cabelo da cor do carvão. No início, mostrei relutância mas, depois de passear nas brumas da dúvida, aceitei a proposta, na certeza de que, mesmo não me identificando com aquele tipo de passeio, seria sempre a opção mais barata para navegar nas águas calmas do Mediterrâneo. A mulher sorriu, um sorriso que parecia mecânico, e disse:

-Vai ver que não se arrepende.

Vale das Borboletas, dar tempo ao tempo

Sob aquele sol inclemente, as águas projectavam um resplendor de metal. Os barcos não se mexiam e ostentavam, de forma bem visível, o nome das agências para quem trabalhavam Pegas, Easy Riders, Galaxy, Focus, Eftelya e Relax. Se estivessem em terra firme e não ancorados naquelas águas transparentes poderiam muito bem ser casas de alterne. A areia, por onde caminhavam agora dezenas de turistas, na direcção do pontão que permitia o acesso às embarcações, ardia sob os pés. Numa tabuleta em madeira, debaixo de uma palmeira que se debruça sobre a praia, as autoridades locais, pensando nas gerações vindouras, pedem para proteger Ölüdeniz. Não há lixo pelo chão.

O mar rebrilhava quando, finalmente, os motores foram ligados e o barco se começou a afastar, lentamente, da costa, deslizando de forma dócil sobre as águas azuis. O ar torna-se subitamente mais macio e os céus enchem-se de adeptos do parapente. No convés, dezenas de colchões foram de imediato cobertos de toalhas, onde algumas mulheres, inatingíveis rainhas de beleza, se deitam para adormecer em segundos.

-Bebidas frescas, bebidas frescas, anuncia um dos elementos da tripulação.

Um homem com mais tatuagens do que cabelos, com uma barriga que se assemelha a um barril, pede duas cervejas de imediato. E o dia ainda mal começou. Um menino loiro, cheio de caracóis, com uma camisola da Turquia vestida, cujo vermelho sobressai contra aquele céu e aquele mar, olha o inglês com uns olhos despidos de humor.

-Gelados, gelados, apregoa outro elemento, quase todos eles jovens.

Três raparigas ainda com vestígios das batalhas hormonais, com a pele muito branca, estendem-se ao sol, à procura de outra tonalidade. Um casal de namorados beija-se demoradamente sob aquele disco cada vez mais abrasador. Para eles, o mundo acaba hoje. O mar perde-se no horizonte e as montanhas retalham parte da paisagem.

O Easy Riders navega durante meia hora antes da primeira paragem. Com alguma dificuldade, atraca no Vale das Borboletas, onde irá permanecer durante os próximos 60 minutos. Por amor de Deus, o cenário vale mais de uma hora. Aqui, os relógios deveriam ser proibidos; aqui é preciso dar tempo ao tempo. Na praia, onde abundam os seixos e escasseia a areia, dezenas de tendas dão vida a um lugar encantador, concorrendo com borboletas (mais de 80 espécies) de múltiplas cores que transformam o espaço num verdadeiro museu ao ar livre. Os barcos, cheios de turistas, vão chegando e acotovelam-se uns ao lado dos outros. Novos e velhos, uns mais excitados, outros mais discretos, saltam do convés para a água onde os cardumes se passeiam, quase indiferentes àquele brusco romper do silêncio. Duas jovens orientais fazem poses estranhas para a objectiva e um casal, com a pele da cor de uma lagosta, cobre-se de areia. Há turistas a quem umas asas assentariam na perfeição, para voarem para longe, ao contrário das borboletas, que as queremos bem perto de nós.

No Galaxy, atracado ao lado do Easy Riders, já se prepara o almoço. O cheiro a peixe impregna o ar. Ao largo, uma bonita escuna, com as suas velas azuis e a madeira dourada pelo reflexo do sol, parece pedir uma moldura para o cenário ser perfeito. Descoberto nos anos 70 por mochileiros, o Vale das Borboletas, com acesso por mar ou por um trilho exuberante de vegetação que conduz até à aldeia de Faralya, no alto da colina, está inundado de cheiros - dependendo da altura do ano, aqui pode encontrar menta, jasmim, orégãos, anémonas, mimosas e até árvores de grande porte, como ulmeiros.

À hora certa, o barco deixa para trás o Vale das Borboletas, que ganha agora uma expressão ainda mais bela, com os seus campos verdes no final da garganta que se abre ao mar, com a sua faixa amarelada de seixos e areia que beija as águas ora verdes ora azuis. Erguidas aos céus, as montanhas, integradas, desde 1995, numa área protegida onde é totalmente proibida a construção, provocam temores pela sua imponência e exercem, ao mesmo tempo, um forte magnetismo em quem nelas deposita um olhar.

No interior do Easy Riders, uma senhora turca, com um olhar sem expressão, provavelmente cansada da indiferença dos turistas, prepara panquecas que exalam um odor ao qual se torna difícil resistir. Sentada à volta de uma mesa, à espera do almoço que não há-de tardar, uma família ri-se muito com os gritos de uma criança.

-Gelados, gelados, oferece um loiro oxigenado com uma espessa corrente prateada ao pescoço logo que os passageiros retomam os seus lugares, a maior parte deles sobre as toalhas que recebem os fortes raios da bola amarela que recorta o azul do céu. Um fotógrafo, com barba de dois dias e uma t'shirt vermelha à volta da cabeça para o proteger do calor, procura convencer os turistas a ficarem com um registo daquele dia capaz de produzir sentimentos, sensações e emoções tão díspares.

Ilha de São Nicolau, a do Pai Natal

O cheiro a peixe inunda o ar e os passageiros começam a ocupar as mesas para o almoço que será servido daí a instantes, antes de o barco se deter, por mais uma hora, numa pequena praia cuja água, de tão azul, parece unir-se ao céu numa perfeita harmonia. A refeição, regada com algumas cervejas, provoca natural sonolência nos turistas, deitados agora ao sol como se aquele fosse o único prazer da vida. Ao largo, começa a avistar-se a Ilha de São Nicolau, assomando, como que por encanto, entre pinheiros e alecrim, os vestígios de uma distinta cidade bizantina e a sua igreja de grandes dimensões, parte dela intacta. Em tempos de antanho, a ilha foi um importante porto de escala para embarcações comerciais e de passageiros provenientes da Europa, bem como um importante lugar de peregrinação.

-Sabes que foi aqui que teve origem o nome do Pai Natal?

O jovem, de cabelos claros, de sorriso expressivo, interroga-me e deixa-me, por breves segundos, sem palavras, enquanto o pensamento voga pelas paisagens da Lapónia, onde as renas puxam um trenó que conduz aquela figura simpática de longas barbas brancas.

-Não. Não sabia.

A lenda, a ser verdadeira, confirma a versão do rapaz que agora me vira as costas antes de mergulhar naquelas águas cristalinas. Nascido em Pátara no ano 300 d.C., São Nicolau foi bispo de Mira, actual Demre, próxima da cidade de Antália. A ele foram atribuídos alguns milagres mas foi a sua grande generosidade para com as crianças que lhe trouxe popularidade. Alguns turistas sobem ao topo da colina, passam fugazmente pela igreja e perdem-se pelas ruas outrora cheias de vida, precisamente no momento em que uma leve brisa atormenta as árvores. A partir de São Nicolau, é difícil, por mais insensível que seja ao contacto com a natureza, não se sentir absorto com a vista que se espraia até à linha do horizonte, aquele mar de cores mágicas, de águas tranquilas e aquelas montanhas, de um lado e do outro, que inspiram respeito. Na sua maioria, os excursionistas revelam desprezo pela história de um povo com história. Junto ao cais da ilha, onde agora o barco está atracado, as actividades de lazer ganham mais adeptos. Puxados por uma pequena embarcação a motor, devidamente sentados em insufláveis para dois e três lugares que desenham imagens bizarras na água, os turistas continuam a gozar dos prazeres de um passeio que, para muitos, ficará como uma das recordações mais gratas de uma viagem à Turquia, colada, como uma lapa, na alameda das suas memórias.

O sol oblíqua e derrama uma tonalidade dourada no momento em que se começa a avistar a baía de Ölüdeniz. Ao longe, vê-se a língua de areia que seduz a lagoa Azul, agora órfã na sua solidão (o acesso é vedado a partir das seis horas da tarde) e a presença humana na praia reduz-se a algumas dezenas que perscrutam o céu à espera da despedida daquele sol que vai ficando cada vez mais laranja. Do alto do Monte Baba, homens e mulheres continuam a lançar-se no vazio, sob aquele manto ainda azul e como que enfeitiçados com a magnificência que têm a seus pés. Na rua que parte da praia, onde os restaurantes e os bares começam a encher, a mulher dos olhos negros reconhece-me:

-Então, ficou arrependido?

Limito-me a sorrir e continuo a caminhar até à esplanada onde, tenho a certeza, uma cerveja fresca estará à minha espera, acompanhada de uma música cheia de sentimentos que me irá provocar uma nostalgia tão agradável.

Kabak, num sono profundo

As ruas estão desertas àquela hora da manhã e a luz ainda é opaca.

Ölüdeniz dorme envolta nos ecos do dia anterior quando inicio a subida da estrada que rasga a montanha. Aqui e acolá ouço o murmúrio da água que corre a poucos metros. Correspondendo ao meu sinal, o camião do lixo detém-se e o motorista convida-me a subir. Não articula uma palavra em inglês mas todo ele emana simpatia e uma enorme disponibilidade para comunicar. Ao fim de três quilómetros sigo o meu caminho, novamente entregue à solidão, passo por uma mesquita com um minarete branco que fura o céu e observo um pássaro que, por sua vez, deixa resvalar o olhar para uns cachos de uva ainda à espera de amadurecer. Quando chego a Faralya, já com uma luz diáfana, faço uma pausa para um café num pacato jardim de uma humilde guesthouse, com o sugestivo nome de Jardim das Oliveiras.

-Então por que casaste com ela?

Uma americana, indiferente à minha presença, interroga um homem mais novo do que ela quando este lhe confessa que a mulher, àquela hora remetida aos prazeres matinais da cama, não vê qualquer interesse em efectuar caminhadas, por mais idílicos que se mostrem os lugares.

Como aquele que, da mesa onde me encontro, onde repousa uma chávena de café negro, avisto ao fundo, a praia de Kabak, parcialmente escondida por entre os pinheiros, como se se sentisse envergonhada ou pouco disponível para se dar a conhecer. Prossigo a minha caminhada, encosta abaixo, ora passando por parques de campismo que respeitam a natureza, ora por espaços que são convites à reflexão. Buganvílias despontam aqui e acolá por entre os pinheiros e sente-se também o intenso fragor aos roseirais. Um campo de milho por onde entra o azul do mar, tão límpido que é capaz de ferir o olhar, anuncia que o percurso a pé chegara ao fim. À minha frente tenho agora uma praia solitária e, uma vez mais, o céu e a água parecem gémeos que não passam um sem o outro. Solitária? De repente, desvio os meus olhos para a direita, até um estrado em madeira suspenso em quatro barrotes, e vejo um homem envolto numa espécie de mortalha. Por momentos hesito, deixo que a angústia me invada e interrogo-me se estarei, pela primeira vez na minha vida, a dividir o paraíso com um morto.

-Sozinho? Eu e um morto?

Aproximo-me vagarosamente e ouço a sua respiração. A minha alma fi ca em paz quando percebo que afinal divido o paraíso com um vivo que dorme um sono profundo. Mergulho com prazer naquela água antes do regresso, horas depois, a pé e à boleia, a Ölüdeniz, que agora recupera a sua agitação.

Kayaköy, o melhor para o fim

As camponesas, com os seus vestidos típicos e as suas calças bizarras, misturam-se com as mulheres urbanas trajadas de forma elegante e com os turistas semidespidos ou mesmo despidos de valores. Os legumes e as frutas, muito frescos, rivalizam com as especiarias, com o artesanato local, com as roupas. Uns compram, outros vendem, outros simplesmente passeiam entre aquela multiplicidade. Hoje é terça-feira, dia do grande mercado de Fethyie, cidade cujas origens remontam ao tempo em que os lícios aqui construíram Telmessos, há mais de 3000 anos. Fethyie, que presta homenagem a Fethi Bey, piloto (o primeiro na Turquia) local e herói de guerra que morreu quando o seu avião se despenhou, foi arrasada por dois terramotos, em 1856 e em 1957, mas ainda restam vestígios de um passado glorioso, como alguns túmulos rupestres situados na montanha rochosa que vigia a cidade. Amintas, que data de 350 a.C., de estilo dórico, é o mais bem conservado e ali se pode chegar depois de pagar uma modesta contribuição, verdadeiramente insignificante quando se olha, escavada na pedra, aquela fachada que reproduz um templo grego.

De volta à cidade, deambulo uma vez mais pelo mercado, ainda e sempre colorido e ébrio de vida, espreito o museu local, percorro o caminho até ao porto, onde barcos de todos os tipos e portes balançam nas águas e, a escassos metros, as ruínas de um antigo teatro, onde aceito, com alguma tristeza, a ideia de que aquela viagem está prestes a chegar ao fim. Nas esplanadas, um pouco por todo o lado, há turistas ingleses (há mais de sete mil a viver permanentemente na cidade) que bebem cerveja e se limitam a ver o mundo passar à frente dos olhos. A partir daqui, dirijo-me para norte, até ao lugar que, antes de chegar, olhando apenas para as imagens que promovem esta zona, mais me seduziu. E, por essa mesma razão, para o viver mais intensamente, de preferência ao final da tarde, o deixei para último, para que aquele derradeiro suspiro perdurasse eternamente na memória feliz de um tempo feliz.

"Quando a vila estava viva, as paredes das casas eram feitas de argamassa e pintadas alegremente em tons de rosa escuro. As suas ruas eram mais vielas, de tão estreitas, mas não havia qualquer sensação opressiva de clausura, pois os edifícios agrupavam-se na encosta de um vale para que cada habitação recebesse luz e ar. Na verdade, a vila parecia ter sido maravilhosamente concebida por algum génio cujo nome se tinha perdido, e não havia, provavelmente, nenhum outro lugar como aquele em toda a Lydia, em toda a Caria ou em toda a Lícia."

É assim, desta forma, que Louis de Bernières descreve Kayaköy em Pássaros Sem Asas (Edições ASA), uma história épica e trágica que fala de amor e de uma guerra que separou gregos e turcos que durante anos e anos viveram em sintonia. No livro, o lugar surge sob a designação de Eskibahçe mas foi na vila que me olha da encosta, com todas as suas casas ou o que resta delas viradas ao sol, que o escritor inglês encontrou inspiração e se baseou para narrar, com grande sentido de humor, o estilo de vida de uma população que no início do século passado contabilizava duas mil almas. Ao longo daquelas ruas estreitas, por onde as cabras, os lagartos e, às vezes, as tartarugas se deixam contemplar, permito que a minha mente vagueie ao encontro da história, tentando imaginar como era a vida de Kayaköy (em grego Karmylassos) há menos de cem anos, antes da guerra entre os dois países que ainda hoje vivem de costas voltadas. Até 1923, enquanto foi conhecida como Levissi, era habitada, na sua maioria, por cristãos ortodoxos gregos. Estes falavam turco e escreviam com o alfabeto grego mas os turcos, que naturalmente falavam turco, também escreviam com o alfabeto grego. Eram os dias da paz, da cumplicidade e até de casamentos entre diferentes comunidades. Com o eclodir da guerra, gregos e turcos assinaram um acordo que conduziu à permuta de povos. Não ficou um único cristão para contar a história e até mesmo os ossos dos antepassados cujos restos mortais ali estavam depositados foram transportados para a Grécia. Os gregos instalaram-se nos arredores de Atenas e baptizaram a sua cidade de Nova Levissi. Quando os turcos chegaram a Kayaköy e viram, pela primeira vez, as casas que não fazem sombra umas às outras entregues à sua solidão, ficaram convencidos de que os gregos ali haviam deixado uma maldição, preferindo construir as suas habitações no sopé da encosta.

-Está a gostar de Kayaköy?

A menina, com o lenço a cobrir-lhe a cabeça, regista na sua câmara aquele lugar que parece esquecido. Ao fundo, no vale, um homem trata com carinho o camelo que tanto o pode ajudar no cultivo dos campos como a levar turistas a passear pelo meio daquelas vielas impregnadas de história, mais triste do que alegre.

-Sim, muito. É o ponto alto de umas férias inesquecíveis. Mas é do povo, tão hospitaleiro, que levo as melhores recordações.

Ela ouve-me com atenção, sorri de felicidade, orgulhosa do seu país e da sua história que entra pela câmara como se desejasse ter presente e não apenas passado. Ao longe, uma bandeira da Turquia deixa que o vento lhe indique o rumo.

Desço até à Basílica Panayia Piryiotissa, perco-me a olhar para os murais, para os mosaicos no chão e para o mármore no altar. E imagino aquele espaço repleto de crentes num tempo de paz. Logo à saída da igreja, há um pequeno edifício que contém ossos humanos. Levanto a cabeça e vejo de novo aquelas cinco centenas de casas (protegidas pelo governo turco) onde o sol reluz, roubo um figo de uma figueira, peço perdão numa outra igreja pelo gesto menos bonito e subo uma vez mais para contemplar, do alto da encosta, de onde se avista o mar sempre azul, aquele quadro tão belo que confirmara as minhas expectativas. Construída no século XVIII, Kayaköy (kaya significa pedra e köy quer dizer vila) foi parcialmente renovada em 1856, quando um terramoto devastou Fethyie - mais tarde, em 1885, também vítima de um incêndio de grandes proporções. Hoje não é mais do que um museu que nos contempla com melancolia. É com pena que abandono a vila abandonada mas antes ainda me cruzo com a rapariga de lenço colorido na cabeça:

-Espero que volte um dia.

Eu não digo que sim mas tenho a certeza de que irei rever aquelas vielas, aqueles lagartos, aquelas cabras, aquelas tartarugas e aquelas casas que recebem o sol como quem recebe um amigo na sua casa. E talvez até me encontre com ela, já mais velha mas com o mesmo sorriso tão genuíno, tão doce. E, por breves segundos, recordo as palavras de Louis de Bernières quando fala daquele lugar mágico. "Continua a dormir o sono da morte, sem um epitáfio e sem ninguém para a recordar." Ninguém, não. Eu encarregar-me-ei de a lembrar, de a fazer correr nas cada vez mais estreitas avenidas da minha memória.

O sol já se havia retirado quando regressei ao hotel, em Ölüdeniz, ainda a tempo de um mergulho na piscina. A uns metros de distância, o homem de bigode e barriga maternal, agora com a alma domiciliada na serenidade, joga uma partida de bilhar com o filho e olha com um olímpico desdém para as águas que se agitam com as minhas braçadas.

Quando ir

A melhor época do ano para visitar Fethyie é no Verão mas na Primavera e no Outono são opções a considerar. O clima é agradável e o número de turistas sofre uma redução drástica.

Como ir

A Turkish Airlines efectua voos diários entre Lisboa e Istambul, com preços a rondar os 250 euros (valor que pode chegar aos 600 no Verão). A partir da capital turca, são várias as ligações a Antália. Um bilhete de ida e volta pode ser adquirido por menos de 90 euros.

O que fazer

Além dos lugares mencionados, esta zona da Riviera da Turquia, situada na província de Mugla, oferece inúmeras atracções a quem desejar permanecer por um período mais longo. Se Mármaris é a capital do hedonismo, com os seus bares, restaurantes e hotéis no passeio marítimo junto ao porto, Dalyan proporciona momentos mais tranquilos e a possibilidade de efectuar, de barco, uma visita às ruínas de Kaunos, conjunto de grande interesse arqueológico. Pátara é outra das alternativas, com as suas belas praias e vestígios do passado disseminados por uma extensa zona. O caminho lício, um percurso com um total de 500 quilómetros, entre Fethyie e Antália, grande parte junto à costa, é um apelo para aqueles que são milionários do tempo e apreciam o contacto com a natureza. Escolhido pelo Sunday Times como um dos dez melhores percursos do mundo, o passeio pedestre permite ao viajante ver ruínas, aldeias isoladas na montanha, antigas cidades, florestas de cedro e de pinheiros e vistas de cortar a respiração. Se o tempo não lhe permitir, pode sempre optar por não ir além do trajecto entre Fethyie e Faralya. Seguramente não dará por mal empregue o tempo despendido.

Onde comer

O Beyaz Yunus Lokantsi, na estrada que conduz a Faralya mas apenas a um quilómetro do centro de Ölüdeniz, é um dos melhores restaurantes na zona, onde poderá encontrar sempre peixe e marisco fresco. Em Kayakoy, vale a pena experimentar o Levissi Garden e o Kaya Wine House, ambos a funcionar em bonitas casas de pedra - no primeiro, em tempos um estábulo mas também residência, continua-se a cozinhar num forno de pedra (vale a pena provar a perna de borrego marinada em vinho tinto, alho e especiarias). Alguns dos restaurantes estão abertos apenas durante a época alta, que termina oficialmente a meio de Outubro. Não deixe de provar o kahve - café turco -, o raki - aguardente com sabor a anis - e o ayran - iogurte líquido.

Onde dormir

Há opções para todas as carteiras e para todos os gostos. O Paradise Garden, situado numa colina logo à entrada de Ölüdeniz, cobra à volta de 100 euros por noite, oferecendo uma vista soberba sobre a baía, três piscinas no meio de um jardim bem tratado, um restaurante e quartos decorados com artesanato autêntico. Outra alternativa, mais próxima da praia, é o Magic Tulip Beach Hotel, que funciona em dois complexos separados por escassos metros, ambos com piscina e com restaurantes. No Verão, o melhor é reservar com alguma antecedência face à enorme afluência de turistas.

Informações

Um euro equivale a 2,5 novas liras turcas (moeda que entrou em vigor em Janeiro de 2005). Para entrar na Turquia, o cidadão português necessita de um passaporte com o mínimo de seis meses de validade e de um visto que pode ser obtido à chegada, no aeroporto, por 15 euros. Poderá ser igualmente requerido na Embaixada da Turquia, na Avenida das Descobertas, o que não é aconselhável face ao preço (60 euros) e à burocracia (formulário e uma fotografia a cores). Se optar por permanecer uns dias em Istambul, é preferível negociar no hotel onde fica instalado o preço de um táxi entre a cidade e o aeroporto. A má reputação dos taxistas, que alteram a tarifa sem que, na maior parte das vezes, o cliente se aperceba, aconselha algum cuidado.

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