Deixou há muito a casa paroquial de Vilar de Perdizes. Mora numa típica casa de lavrador, daquelas com alvenaria de granito. Pela mesma porta entravam pessoas e vacas. Subindo até ao primeiro andar, a varanda na qual agora lê um exemplar de Don Quixote de la Mancha, de Cervantes.
António Lourenço Fontes instalou-se ali desde que decidiu reformar-se, ia nos 65 anos. Está com 72, luta contra a doença de Parkinson, mas ainda responde por quatro paróquias, o que o força a celebrar quatro missas ao domingo de manhã. Não há leigo que lhe alivie a carga. "Às vezes, ninguém quer ler. Umas pessoas não sabem, outras têm medo de se enganar. Têm pouca prática."
Pudesse ele livrar-se do serviço religioso e ocupava-se mais dos documentos e dos livros que armazenou no antigo lagar. "Quando perder a voz, quero deixar qualquer coisa..." Os forasteiros seguiam-no. Detinham-se a fotografar a lenha seca, rachada, arrumada nas traseiras, no chamado cabanal, e outros detalhes da vida rural, como as maçãs bravas, que lhe perfumavam a cozinha. "São biológicas. São da minha horta. Podem morder à vontade. O Adão também mordeu."
Vieram de diversas cidades. Foram cativados por um programa preparado por Manuela Matos Monteiro para a Fotoadrenalina, que incluía fotografar tradições do Natal barrosão na companhia do controverso sacerdote. Pontos altos: assistir a uma liturgia com cantadores ao desafio e ao desmanchar de um porco.
A antiga professora de Psicologia conheceu o pároco na década de 1980. Nos últimos 15 anos, tornou-se numa visita assídua. Aparece com o marido, João Lafuente. Não dão descanso às câmaras fotográficas, tal o encanto com vezeiras de cabras e ovelhas a sair para o pasto a meio da manhã ou a regressar ao pôr do sol; confrontos entre bois; mulheres a fazer a massa, a acender o forno do povo, a meter e a tirar o pão com orações; convívio entre curandeiros e exorcistas, padres e bruxas.
"No Barroso, o sagrado e o profano misturam-se", observava Manuela. "Chega a ser chocante como estes dois mundos, tão próximos e tão distantes, estão tão contagiados." Teve vontade de partilhar este gosto.
Formou-se um primeiro grupo para a sexta-feira 13 de Abril. Formou-se outro para a sexta-feira 13 de Julho. E Vítor Costa, coordenador da Fotoadrenalina, até ficou espantado com a qualidade do espectáculo. Lembrou-se logo do grupo de teatro catalão Fura dels Baus. Agora, novo pretexto.
O padre Fontes passa o Natal com a irmã, Maria, ou com o irmão, Joaquim. Na mesa, bacalhau e polvo, batata e couve, água e vinho, rabanadas e filhoses. Na lareira, o tição de Natal: "Corta-se da árvore a 24 de Dezembro e põe-se ao lume nessa noite. No fim da Consoada, apaga-se e guarda-se para quando há trovoada. Onde estiver o tição, não haverá raio que entre", explicou ele.
Cozido e Facebook
Explicou tudo junto à ladeira da irmã, enquanto, lá fora, o grupo registava cada pormenor da desmancha do porco. "A matança começa ao vir a primeira geada. Uns matam em Novembro, outros em Dezembro. Geralmente, matam no sábado, no domingo ou no dia santo para convidar a família." A anfitriã tem de servir porco do ano anterior, prova de que "governou bem a casa".
Morto o bicho, os homens livram-no de pelo; as mulheres tratam de cozer o sangue, de o cortar aos quadrados e de o temperar com azeite e alho. Limpo o bicho, os homens abrem-no, tiram-lhe o que tem dentro, penduram-no. Findo o almoço, as mulheres vão lavar as tripas. O porco fica pendurado um ou dois dias para que o sangue escorra e a carne arrefeça. Só depois o cortam e salgam.
Maria tem um fumeiro a sério. E quatro presuntos pendurados no breu dos arrumos da sua morada - uma daquelas casas acasteladas com seteiras de protecção. Mudou-se para a aldeia de Tourém em 1963 com o irmão padre, que, para escapar aos excessos do Inverno, chegava a dar aulas de moral por walkie-talkie. Pensava viver sempre com ele, mas encantou-se com um contrabandista de gado.
Não aparenta os seus 77 anos. Surpreendeu quem se sentou à sua mesa naquele dia para saborear um opulento cozido à moda do Barroso - que leva orelheira, focinho, pernil, chouriço de abóbora, sangueira, batata e couve da horta - ao mostrar o seu iPad. Usa Facebook e FaceTime.
Ana Pais, 40 anos de vida, todos passados em Lisboa, ficou deliciada com os utensílios rurais que Maria e o marido coleccionaram. Interessavam-na mais do que o desmanchar do porco, coisa que vira uma vez, enquanto aluna de Antropologia, por ordem do professor de Etnografia. As concertinas é que a tinham atraído para ali. "Adoro concertinas. Adorava aprender a dançar o vira."
Quem gosta de fotografar, como os companheiros de viagem de Ana, encontra motivos para lá da grandeza da paisagem, da estranheza do rural. A porta desgastada fotografada por Hélder António, por exemplo, fora parar à exposição que a Fotoadrenalina organizou com trabalhos dos participantes para o Ecomuseu do Barroso. Não vale por ser diferente, mas por revelar o efeito do tempo.
Promoção do território
Manuela marcou a diferença destas incursões, que comportam os ensinamentos de Vítor Costa, professor do Instituto Português de Fotografia: "Este não é um grupo turístico tradicional, mas um grupo motivado para conhecer através da fotografia. Isto não é para fotógrafos profissionais. É para quem quer ou pode começar a conhecer uma realidade através da fotografia."
O padre Fontes enriquecia o que cada um ia captando com a ajuda das lentes de alcance variável. A qualquer instante podia começar a contar uma história, como fez quando conduziu o grupo à igreja de São Miguel de Vilar de Perdizes, que terá sido erguida por um dos sete filhos de Maria Mantela.
Maria Mantela desdenhou de uma mulher que vira a pedir esmola com duas crianças ao colo. Desconfiou da sua honestidade. Parecia-lhe impossível que "mulher de um só homem pudesse gerar mais do que um filho de uma vez". Ora, talvez por castigo, não tardou a dar à luz sete crianças.
Lembrando-se do que dissera sobre a mulher, Maria Matela não teve coragem de apresentar os filhos ao marido. Tomada pelo desespero, pediu a uma empregada que atirasse seis ao rio. O marido descobriu-a a tempo de impedir o infanticídio e distribuiu as seis crianças por seis amas de seis aldeias. Só as mostrou à mulher, atenuando-lhe o sofrimento, quando tinham já dez anos. Reza a lenda que os sete rapazes deram sete padres e que cada um deu origem a uma igreja. Uma delas era aquela, onde o padre Fontes fora mostrar ao grupo uma divindade celta.
A escultura de relevo foi descoberta numa parede da igreja quando se substituiu o chão de madeira. Representará o deus Sucelo. Tem uns olhos enormes e um pénis ainda mais desproporcional. Teria grande capacidade fertilizadora, pelo que lhes pediam grandes proles, grandes colheitas.
Quem quis fotografar a divindade teve de se deitar no chão, o que deu risota. Qualquer um deles podia pegar num carro e conduzir até ao Barroso, sozinho, como o pintor de aguarela Jaime Fernandes Silva, de 66 anos, faz com a mulher, sobretudo desde que ela se reformou, mas não seria igual.
O padre Fontes parece estar sempre a reinventar formas de atrair gente. Foi com esse espírito que experimentou fazer missas só com concertinas e cantadores ao desafio.
Na tradição da sua terra, antes do casamento, o noivo vai pedir a noiva. Nas casas típicas de Trás-os-Montes, no rés-do-chão ficam estábulos, arrumos, adega; no piso superior, quartos. O noivo sobe os degraus exteriores de granito. No cimo, está a noiva. Ela despede-se da família, encontra-o na escada e segue com ele. Todos estes passos são narrados pelos cantares ao desafio, que os acompanham até à igreja. Aí, os músicos pousam as concertinas e os cantadores calam-se. "O que eu fiz foi deixar entrar as concertinas e os cantadores", lembra o padre.
Isso foi há 30 anos. Há 25, experimentou fazer o mesmo no Natal. E fá-lo até hoje. Não é bem uma missa. É uma celebração da palavra de Deus. Na época, o bispo de Vila Real preferiu assim. "Por não ser tradicional, por não ser muito respeitoso, por poder ser estranho para quem nunca viu, por ser alegre de mais talvez", recorda. Cada ano, acontece numa igreja diferente.
A igreja da Livração não encheu no último sábado à noite. Talvez por ser a primeira vez que se fazia em Boticas algo até agora confinado ao concelho de Montalegre. Lúcia Melo, professora de Português, belíssima nos seus 62 anos, até subiu ao altar para melhor fotografar os artistas, compenetrados no seu número:
- "Silêncio por uns momentos/ eu convosco cantarei./Estes são os dez mandamentos/escritos nas tábuas da lei.
- Primeiro, amar e adorar Deus/ e o próximo como irmão./Só quem ama o irmão/obtém a salvação.
- Terceiro manda guardar/sempre os dias de preceito/ir à missa e comungar/trazer Jesus no seu peito."
O padre quis "ajudar a criar um ambiente de irmandade, de descoberta, de proximidade". E chamar gente numa época baixa. Também foi para chamar gente que começou a usar as sextas-feiras 13 para "espantar azares", "exorcizar a fome e a sede". Já não organiza mas ainda preside à "abracadabrante" celebração: "Com esta colher levantarei labaredas deste lume, que se parece com o inferno."
Para trás parece ter ficado o tempo da incompreensão. A Câmara de Montalegre reconhece-lhe valor. O Ecomuseu do Barroso dedicou-lhe uma área no edifício sede: o Espaço Padre Fontes. Há uma semana, na inauguração da exposição de fotografia No Barroso, o presidente da autarquia, Fernando Rodrigues, tornou a destacar o papel do sacerdote na promoção do território.
Montalegre tem um ciclo anual muito feito das "maluqueiras que saíram da cabeça do padre Fontes", admitiu o autarca. Há o auto de Santa Bárbara, em Agosto, o Congresso de Medicina Popular, em Setembro, o Dia das Bruxas, a cada sexta-feira 13, o Encontro de Cantadores ao Desafio, em Dezembro. Contributos para o desenvolvimento do Barroso, mas também para a auto-estima de quem o habita, que sente valorizado o que tem de autêntico. O padre Fontes afastou-se para não o ouvir. Não gosta de elogios feitos à sua frente. Prefere que elogiem o seu Barroso, como fazem muitos dos que o visitam.
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Onde ficar
Hotel Rural Senhora dos Remédios
Rua da Fonte da Vila, 5470-311, Mourilhe
Tel.: 276 510 260
Onde comer
Restaurante Pote Barrosão
Rua do Outeiro, 8
Montalegre
5470-237 Montalegre
A Fugas esteve no Barroso a convite da Fotoadrenalina
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