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Fomos à Tapada atrás das hastes e descobrimos a Primavera

Por Carla Ribeiro

Natureza, aventura e pistas para seguir. Foi com estas três ideias em mente que pegámos nos miúdos e abraçámos a missão de detectives numa Caça às Hastes pela Tapada Nacional de Mafra.

"Então e as renas?", reclama Gonçalo, quatro anos, instalado num dos dois comboios de ferro verdes da Tapada Nacional de Mafra depois de uma manhã de Caça às Hastes para celebrar a "época de desmoque", designação dada à queda das hastes dos veados e dos gamos que ocorre no início da Primavera para logo, logo se dar início ao crescimento de novas (e maiores) hastes.

"É tal e qual a queda dos dentes de leite para os meninos", explica Sara, a nossa guia nesta "caça ao tesouro", uma estreia na Tapada que atraiu mais de uma centena de participantes "Eles [os gamos e veados] estão a comer e lá se vai uma haste". Sim! Não se conte encontrar duas juntinhas. O mais certo é que não caiam aos pares, por isso não é de admirar avistar-se um veado de apenas uma haste e meio torto, fruto do peso da cabeça em desequilíbrio, a galgar uma das encostas pelos trilhos já formados pelos próprios.

Mas isso agora não interessa nada. O que importa é mesmo partir e vestir a pele de um detective. "Preparados para serem como o Geronimo Stilton?", ouve-se nos altifalantes do comboio, enquanto nos embrenhamos pela mata. A lembrança do personagem, um rato-jornalista que dirige O Diário dos Roedores da Ratázia e que até já recebeu o Prémio Rat(Pul)itzer, arranca de imediato sorrisos à pequenada mais sapiente.

Os escuteiros que compõem o grupo que segue na terceira carruagem são os primeiros a serem deixados à aventura. E as pistas devem ter sido de tal modo empolgantes que no regresso haveríamos ainda de deixá-los à sua sorte. Absortos que estariam a seguir pegadas e rastos, a observarem plantas e a recolherem as provas das suas conquistas, acabaram por faltar ao ponto de encontro à hora previamente marcada (o comboio voltaria mais tarde para os apanhar).

À medida que o pequeno comboio avança paralelamente à ribeira do Safarujo, que atravessa toda a Tapada, o caminho torna-se mais e mais irregular e a mata, nestes pontos circundantes à água, cheia de amieiros, choupos, freixos, plátanos e salgueiros, vai-se adensando. Aqui e ali, avistam-se curiosos veados que espreitam entre a vegetação. Não durante muito tempo. Não tarda que desapareçam. Afinal, desta vez o comboio não traz comida mas gentes barulhentas. Porém, nem todos se escapulem assim que vêm pessoas. No destino da carruagem 2, ou seja, no nosso, "há uma surpresa", anuncia o altifalante.

À nossa espera está uma sorridente Sara rodeada por javalis adultos, outros jovens e ainda por dezenas de "pijaminhas", i.e., javalis bebés, cuja pelagem listada faz lembrar precisamente um pijama. A criançada bem salta do comboio com vontade de os agarrar e afagar. Mas Sara consegue travar-lhes o ímpeto. Afinal, a javalina-mãe está ali de sentinela. E se há coisa que não se quer é chatear uma javalina de guarda aos seus filhotes.

De qualquer modo, a aproximação, que às crianças até parece natural, causa estranheza aos adultos. O milho espalhado pelo chão explica o porquê destes javalis estarem tão pertinho de nós sem revelarem nem agressividade nem medo. "Costumamos chamá-los com a colocação de comida e estão tão habituados a nós que não estranham assim tanto as pessoas." Entre os javalis, um imponente veado vai-se afastando lentamente. Também não corre ao ver-nos. Mas não revela grande desejo de proximidade. Respeitamos e avançamos com o nosso objectivo para esta manhã: caçar hastes.

Armados em detectives

É difícil dizer quem parece estar mais entusiasmado nesta (re)descoberta de caminhos outrora palmilhados por reis e nobres. Se as crianças — cujas idades neste grupo variam entre o um ano e os oito — se os pais, tios, amigos que as acompanham. Assim que é dado o tiro de partida depressa os olhos são postos no chão e as pernas a caminho pelas encostas acima. "Não tão para cima", avisa a Sara. É que se há sítio onde se podem encontrar as famosas hastes é onde os animais costumam comer. "Lá está, é como os dentes de leite: estamos a comer muito descansados e lá cai um", recorda.

Os miúdos mais novos correm e saltam, caem e levantam-se. Se calhar até encontraram alguma haste. Mas estão mais interessados nos paus e nas pedras do que nos tesouros ósseos. Os mais velhos levam a missão mais a sério: "E isto, é?", pergunta Margarida, oito aninhos. Azar, está apenas a empunhar um comum pau com que as hastes de veado tanto se assemelham. Margarida há-de repetir a operação várias (dezenas de) vezes, mas sempre sem acerto. Mais sorte teria um pai que nos salvaria o orgulho de grupo: um fémur e uma haste resgatados aos caminhos da Tapada.

Mas, mesmo após as descobertas, ninguém baixa os braços. Segue-se caminho oposto e anda-se junto à linha de água onde abundam os fetos. Vamos afastando a sua farta roupagem para procurar sob a mesma. Encontramos pegadas. Mais à frente, uma abertura pela vegetação alinhada com uma entrada semelhante do outro lado da ribeira comprova que por ali andaram há pouco tempo uns quantos gamos (curiosidade: a fêmea dá pelo nome de gamela).

Continuamos em busca mas, em vez de hastes, só encontramos garrafas de vidro abandonadas. A nossa guia mostra-se prevenida e logo tira do bolso uns quantos sacos de lixo ao mesmo tempo que lamenta a falta de cuidado de muitos visitantes. Foi aliás a quantidade abandonada de lixo, assim como o cada vez maior risco de incêndio, que ditou um controlo acrescido sobre as entradas dos visitantes.

Mais à frente, Sara "tropeça" num pequenino ovo azul: "deve ter caído do ninho", diz, "mas, infelizmente está quebrado". "Se calhar é de dinossauro", diz convictamente João, sentença directamente saída do seu imaginário de quatro anos.

Ainda faltam uns minutos para o fim da actividade quando começamos a ouvir o comboio ao longe. No que diz respeito às hastes, terminamos a caça ao tesouro como começámos: de mãos a abanar. Mas, depois de duas horas de aventura pela Tapada Nacional de Mafra, trazemos connosco outras fortunas, recheadas de ar puro e verde-primavera. E, pelo menos no pensamento, renas e dinossauros.

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Tapada Nacional de Mafra

Portão do Codeçal
2640-602 Mafra
GPS: 38º57’53 N | 009º18’09 W
Tel.: 261817050 (2.ª a 6.ª) e 261814240 (fins-de-semana e feriados)
Reservas e infos: reservas@tapadademafra.pt

A Tapada Nacional está aberta a visitas entre as 9h30 e as 17h30. A actividade realizada, Caça às Hastes (5€/participante; 15€/família), não se repetirá pelo menos nesta Primavera. No entanto, em qualquer tipo de actividade ou passeio nada como caminhar com atenção ao que se pisa. E não há falta de ideias para os fins-de-semana e feriados, entre percursos de bicicleta — um dos quais pensado essencialmente para famílias com crianças —, pedestres (este fim-de-semana ainda com 50% de desconto durante a manhã), visitas de comboio (hoje e amanhã às 14h30; a partir de 1 de Maio, às 15h e um minicircuito às 16h30), BTT ou passeios de charrete (14h30 e 17h), a cavalo (9h30 e 12h30). É ainda possível alinha num Ateliê com Burros (a partir das 14h30), assistir a uma sessão de falcoaria (12h e 16h), fazer iniciação no tiro com arco (a partir das 14h30) ou fazer um baptismo equestre (9h30 e 12h30). Novidade para este ano é a criação do programa Um Dia na Tapada, em que é o visitante que compõe o seu pack de actividades. As diferentes actividades e preços podem ser consultados em www.tapadademafra.pt.

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