Este é um caso de "aquilo que os olhos vêem, os olhos cobiçam". Se Clementina Oliveira não tivesse visto um tuk tuk a passar pela Ribeira de Gaia não estaria hoje aqui, acompanhada pelo marido e os sogros, à espera de entrar num. "Quando vi passar disse logo que queria experimentar", conta. Com a sua prática em sites de descontos, tratou logo de ver se encontrava algum voucher para esses tuk tuk. Encontrou e hoje somos companheiros para uma visita diferente ao Porto, cortesia da Tuk Tour, chegada ao Porto há dois anos.
O encontro é "em frente à Livraria Lello" e isso significa do outro lado da rua, onde a Tuk Tour divide espaço com uma banca de café - vemos primeiro o tuk tuk estacionado mais acima e a placa que no meio do passeio reúne os nossos companheiros. O sotaque é brasileiro, porém o Brasil já é uma memória longínqua da família que regressou em meados dos anos 60 a Portugal para viver em Gondomar.
Não é desconhecida, portanto, a cidade do Porto, onde Clementina, Luiz Castro, o marido, e Isaura e Américo Castro se preparam para aventurar-se em tuk tuk: Luiz brinca com o seu "pavor" de motos; Gil, o nosso primeiro condutor-guia, desmistifica: "é uma espécie de triciclo", resume.
As referências à Tailândia, um dos países onde os tuk tuk são mais comuns, não são desconhecidas da família, ávida consumidora de canais de viagens - e viajantes experimentados, seja pelo país, onde passam muitos fins-de-semana a descobrir recantos menos conhecidos, seja pelo estrangeiro. Mais tarde, Américo Castro há-de dizer: "Santos da casa não fazem milagres. Ligamos mais para fora do que para dentro. Se isto fosse lá fora, já teríamos ido ver". A nora, Clementina, desde o início do passeio fala do desconhecimento que muitas vezes nos acompanha nos sítios onde vivemos. "Isto é também uma maneira de olhar de forma diferente para a cidade", diz ela, que gere um café no Porto.
Não vamos fazer uma visita típica, nem no percurso nem no funcionamento. Os nossos companheiros são comunicadores natos e não darão (não daremos) muitas oportunidades aos guias de falarem; por outro lado, esta é uma rota quase dois-em-um: começamos ao final da tarde e entramos pelo Porto By Night ("um programa especial para venda online", explica Sérgio Eusébio, da Tuk Tour, num "mercado que ainda não é bem explorado"). Fácil foi logo perceber a relativa facilidade com que os passageiros ouvem o condutor: o tuk tuk é eléctrico e não faz qualquer ruído; a única interferência possível é a do vento - atenção friorentos: há mantas.
Não é por acaso que a Tuk Tour é uma das empresas referência de turismo ecológico em Portugal: é completamente não poluente. Aliás, a matriz de tudo é mesmo a ecologia - os proprietários, um casal luso-francês, passaram 12 anos a viajar pelo mundo em catamarã antes que um dos cinco filhos pediu para frequentar a escola. Decidiram instalar-se no Porto - em França já tinham vendido as várias empresas que possuíam, nenhuma relacionada com turismo - e ao passear, sobretudo pela zona ribeirinha de Gaia e a Reserva Natural do Estuário do Douro, lembraram-se de abrir um negócio. Tudo veio em catadupa, conta Sérgio Eusébio, a trabalhar na Tuk Tour quase desde início: a ecologia dos locais, com a ecologia do meio de transporte.
Os tuk tuk são comprados na Holanda (agora a Tuk Tour é concessionária em Portugal) e o conceito das visitas não pára de ampliar-se. Em Janeiro, aos programas tradicionais de passeios, desenvolvidos sobretudo ao longo das duas margens do Douro e do centro do Porto, incluindo um nocturno, acrescentaram-se "programas criativos". Estes pretendem "reavivar tradições do Norte do país, do Porto, sobretudo" e podem incluir ateliers: notour de cozinha tradicional, por exemplo, a visita é a mercados e mercearias da cidade com lista de compras que depois vão ser utilizadas para cozinhar; no de azulejaria, a visita a monumentos emblemáticos é seguida de workshoppara que cada um possa fazer o seu próprio azulejo; há ainda tours de fotografia (final na câmara escura) e de surf (entra-se no mar em Matosinhos e no final há sangria).
Hoje, não há sangria no programa, mas o vinho do Porto é incontornável. A primeira paragem desta tarde é na Churchill"s cave boutique em Gaia. Chegamos lá depois de atravessarmos a Ponte do Infante, de termos subido um pouco da Avenida da República e de termos passado por uma das zonas mais "novas" de Gaia - "Gaia deu um salto enorme nesta zona", sublinha Luiz, consultor que até já teve um escritório aqui na cidade - que até não faz parte dos roteiros (obras obrigam a improvisar).
Já percebemos os olhares de espanto que causam os veículos e as saudações de simpatia; a família já passou por vários lugares onde nunca tinha ido - embora já estejam aqui há 48 anos, sublinha Isaura, nascida no Porto, emigrada no Brasil e regressada sem perder as saudades brasileiras ("O Rio [de Janeiro] é onde tenho o coração").
Não é a primeira vez em caves do vinho do Porto - são visitas, aliás, quase obrigatórias quando vem família do Brasil - mas é a primeira vez na Churchill"s, uma winery boutique. A visita passa pela adega, armazém e termina nas salas de recepção - uma estilo british e vistas superlativas sobre o rio que curva à nossa frente enquadrado pela ponte e a serra do Pilar; a outra, vistas mais baixas e versatilidade de funções: nós fazemos uma prova básica, três vinhos do Porto, mas até showcookings se podem fazer. Pouco conhecida, a Churchill's tem pergaminhos no vinho do Porto: o proprietário é um dos filhos da família Graham's, que há já 40 anos vendeu a marca homónima, e as suas especialidades são os vintage e LBV.
A Tuk Tour tem uma filosofia semelhante à Churchill's: um serviço personalizado - cada tuk tuk leva seis pessoas - e quase à medida. Não há horas marcadas, não há ninguém a debitar factos apressados nas paragens. "Disponibilizamos o serviço, mas o cliente é que decide um pouco. Somos flexíveis dentro do horário do percurso", explica Sérgio Eusébio. Por exemplo, há quem vá até à Reserva Natural e gaste lá as suas horas a ver aves, quem peça para ir à praia e fique em banhos de sol, quem se encante durante horas com o charme da piscatória Afurada, entre o bom peixe e o pitoresco das lavadeiras. "E se quiserem parar para fazer compras ou ir a um bar, também não há problema", acrescenta Sérgio.
No nosso programa, o anoitecer tem marca especial: paragem no hotel The Yeatman para ver o pôr-do-sol. Uma primeira vez para todos os participantes; a paragem anterior foi um misto: na Serra do Pilar, Américo e Isaura tinham estado quando ainda viviam no Brasil, ainda nem sequer namoravam e estavam apenas de visita a Portugal. Américo lembra a fotografia, "agora icónica", diz, que tirou na altura, "quando tinha um equipamento muito bom": "vê-se um eléctrico a passar". O filho e a nora já tinham estado na sua órbita, mas nunca haviam subido.
A visita nocturna tem de ser encurtada e o tuk tuk deixa-nos onde entramos, nos Clérigos - é uma das paragens oficiais (há outra na Sé e no cais de Gaia). Por estas, não é necessário fazer marcação, basta ter sorte de haver algum disponível - quem faz marcação pode combinar e o lugar de entrada e de saída. Também nisso há flexibilidade.
Algo que muito agrada à família Castro-Oliveira. "O serviço é bom, são muito disponíveis, não estão a contar os minutos", avalia Luiz. "E é muito interessante, até para quem vive no Porto. Muitas vezes andam distraídos e não conhecem a cidade como deviam", completa Clementina. Para todos, muitos dos lugares foram novidade ou um regresso ao passado; uma repetição já está nos planos do casal mais jovem. Desta feita com os filhos e as respectivas namoradas.
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Tuk Tour
Tel.: 915 094 443 / 917 232 661
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