Quase duas décadas depois, Randall Graham resvalou de ser um iconoclasta do vinho a grande produtor, assumindo uma produção que chegou a ultrapassar os cinco milhões e meio de garrafas. Foi por essa altura, e depois de um problema grave de saúde, que percebeu estar a trilhar o caminho errado. Vendeu quase tudo, terra, adega e marcas, para passar a dedicar-se a reinventar o projecto inicial, reassumindo o papel de criador e revolucionário, adoptando de corpo e alma a perspectiva da agricultura orgânica, de onde rapidamente passou para os princípios da biodinâmica.
Para grande felicidade, encontrei-o há pouco mais de uma semana em Nova Iorque, na prova anual do grande importador e distribuidor que se transformou quase numa lenda, Michael Skurnik, onde tive oportunidade de provar todos os seus vinhos. Alguns deles excelentes, outros intrigantes, outros ainda estranhos e perturbadores. Porém, ainda mais que os vinhos, o que mais inquieta é o seu discurso fácil e apaixonado, a sinceridade desconcertante com que afirma já ter mudado de opinião diversas vezes, o mea culpa que assume sem relutância, a mudança profunda na crença absoluta nos vinhos de terroir, sem manipulações de qualquer ordem na vinha.
E ainda mais desconcertante foi ter Randall Graham a explicar com todos os cuidados os porquês da sua aposta relativamente recente na casta Alvarinho, de que acabou de lançar um vinho, o Bonny Doon Albariño Central Coast 2012, assim mesmo, escrito na versão galega da casta. Um vinho extremamente aromático, mas atípico, que identifica a variedade, embora num registo diferente e algo exótico. Segundo Randall Graham, o seu Albariño nunca poderia ser comparado com um Alvarinho português… mas não ficaria mal perante um Albariño galego, num dos maiores elogios que os vinhos Alvarinho portugueses poderiam receber.
Mas ainda mais inesperado foi ouvir Randall Graham elogiar até à exaustão a outra das grandes castas brancas da região do Vinho Verde, o Loureiro, variedade que já teve plantada num passado recente e que deseja replantar muito em breve, depois de a ter perdido por completo numa vinha experimental. Os elogios foram tão enfáticos e tão empolados que não resistiu a identificá-la como uma das melhores do mundo e uma das mais promissoras para o futuro. Depois de ter ajudado a colocar no mapa variedades como a Grenache e o Carignan, será que Randall Graham poderá fazer algo de semelhante pelo Loureiro e pelo Alvarinho?