Fugas - Vinhos

Pedro Cunha

Opinião: Mouchão, um clássico intemporal

Por Rui Falcão

Somos um país tendencialmente conservador e vivemos numa sociedade avessa a mudanças e transformações abruptas. Poucos produtores de vinho espelham melhor esta realidade que a Herdade do Mouchão, símbolo máximo do classicismo e da crença nas tradições.

Chegados à Herdade do Mouchão, perdemos as referências a que o mundo do vinho moderno nos acostumou e sofremos um regresso a um passado de que a maioria já perdeu a memória.

Não que as acessibilidades justifiquem qualquer reparo. Situada na aldeia de Casa Branca, nas imediações de Sousel, a Herdade do Mouchão congrega quase 900 hectares de planícies serpenteantes e pequenas várzeas de ondulações suaves ocupadas maioritariamente por sobreiros que aqui e ali surgem entremeados pelas manchas de olival e vinha. O espaço é bucólico, pachorrento e imaculado, embalado na modorra alentejana que acrescenta paz de espírito e retempero do bulício da cidade.

Na Herdade do Mouchão tudo é diferente e as referências habituais são derrotadas e substituídas pela realidade muito própria do Mouchão. Num passe quase de ilusionismo, somos transportados a um mundo cativante do início do século passado quando descobrimos que pouco mudou no Mouchão desde a sua fundação, em 1901.

No ar impera um misto de fleuma e tradição, um misto de perseverança e profundo tradicionalismo onde tudo é feito em conformidade com a tradição. É aqui, na Herdade do Mouchão, em pleno Alto Alentejo, que descobrimos o verdadeiro sentido da palavra tradição, é aqui que sentimos a autoridade e austeridade do classicismo no vinho.

A família Reynolds, de origem escocesa, chegou a Portugal em 1811, estabeleceu-se no Alentejo no final do século XIX e nunca mais abandonou a Herdade do Mouchão. Nem mesmo quando, em pleno Verão Quente, no ano de 1974, a herdade foi ocupada pela comissão de trabalhadores entretanto formada. Demonstrando um apego total à terra dos antepassados, a família nunca desistiu de lutar pela posse da Herdade do Mouchão. Apesar de ter chegado a ser directamente ameaçada por armas de fogo e pela comissão de trabalhadores, a família nunca abandonou a casa onde vivia. Conseguiu acertar detalhes com a comissão de trabalhadores da Cooperativa Agrícola 25 de Abril e três anos após o 25 de Abril as decisões já eram tomadas em plenário informal com a presença da família Reynolds.

De forma filosófica, mas com a tradicional racionalidade e pragmatismo britânicos, nunca abandonaram o barco e nunca prescindiram da terra. Receberam a Herdade do Mouchão de volta somente em 1985, infelizmente num estado de degradação avançada, depauperada e exaurida nos recursos após anos de gestão duvidosa. Ainda hoje conservam uma pipa na adega centenária onde se pode ler a inscrição “Cooprativa Agrícola 25 de Abril” (sic). Curiosamente, a maioria dos trabalhadores actuais da Herdade do Mouchão são ex-ocupantes cooperativistas ou filhos, numa demonstração expressiva das singularidades da sociedade portuguesa e dos brandes costumes que nos caracterizam.

A adega actual, a mesma que foi fundada em 1901, assegura que os vinhos Mouchão não percam a identidade. O conservadorismo natural escocês, numa região que também ela é conservadora por natureza, assegura esta vontade expressa de manter um estilo intemporal e imutável. Em 1901, data de estreia dos vinhos Mouchão, a adega foi desenhada para a elaboração de vinhos licorosos, vinhos fortificados com a adição de aguardente vínica. E esta é outra das incongruências e originalidades do Mouchão, a aposta nos vinhos licorosos numa região onde essa tradição nunca imperou. Durante os primeiros anos, as primeiras três décadas, a Herdade do Mouchão produziu unicamente vinhos licorosos, tarefa a que ainda hoje se dedica com devoção.

--%>