Fugas - Vinhos

Benoit Tessier/Reuters

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Litígios, nomes e fronteiras

O mesmo não se pode dizer dos produtores brasileiros do estado do Rio Grande do Sul, no extremo sul do país, que em alguns casos continuam a usar a expressão Champanhe nos rótulos. O supremo tribunal federal brasileiro legaliza a situação permitindo que alguns produtores brasileiros mantenham o nome Champanhe, nomeadamente o conhecido produtor Peterlongo, porque alegadamente estes produtores teriam registado o nome Champanhe antes da regulamentação internacional de 1927, garantindo assim a reserva do nome.

Apesar de as circunstâncias serem substancialmente diferentes, Espanha mantém uma batalha semelhante com a Argentina, embora até ao momento tenha perdido todas as tentativas de recurso nos tribunais argentinos ou internacionais. A disputa debruça-se no nome Rioja, uma das denominações mais reconhecidas no mundo e seguramente a mais reconhecida de todas as regiões espanholas, a par com Jerez. O problema é que também existe uma Rioja na Argentina, cidade fundada por emigrantes bascos, que criou a sua própria denominação de origem, justificando o substantivo com o nome da cidade.

Mas as disputas não se resumem a conflitos de países europeus com países do novo mundo. Mesmo dentro do espaço europeu, incluindo a própria União Europeia, existem contestações e litígios frequentes. Um dos mais famosos e provocantes para franceses e italianos decorreu com as negociações para a adesão da Hungria à União Europeia. Os húngaros fizeram questão de proteger o nome Tokay e Tokaji, o nome de um dos vinhos doces mais conhecidos e respeitados no mundo, impedindo que os produtores franceses da Alsácia continuassem a usar o nome “Tokay d’Alsace” para os vinhos elaborados com a casta conhecida no resto de França como Pinot Gris. Da mesma forma, impediram os produtores italianos da região de Friuli de usar o nome Tokay, designação que teve de ser convertida para o nome mais prosaico de Tocai Friulano.

Curiosamente, os produtores húngaros não conseguiram proibir o nome Tokay na vizinha Eslováquia, tal como a sua produção, já que, graças a uma das muitas convulsões históricas da região, uma parte ínfima da denominação de origem está situada dentro da Eslováquia. Quando o mapa de Tokay foi desenhado, há muitos séculos, a Eslováquia, ou anteriormente a Checoslováquia, ainda não existiam e o território estava situado dentro das fronteiras húngaras. Com o passar do tempo e das transformações geográficas da região, uma parte minúscula de Tokay passou a fazer parte da Eslováquia.

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