Fugas - Vinhos

Nelson Garrido

Vai abrir uma garrafa? Reze primeiro

Por Pedro Garcias

Se ouvir alguma empresa de rolhas de cortiça dizer que já eliminaram o TCA (cheiro ou gosto a rolha provocado por uma substância química chamada 2,4,6- Tricloroanisole, vulgarmente designada por TCA), não acredite. É tudo mentira.

Vinho contaminado com cheiro a rolha ainda está muito longe de ser uma história do passado. O problema até se tem agravado nos últimos dois anos. Embora não haja números rigorosos, julga-se que 1 a 5% do vinho presente no mercado cheira e sabe a mofo e a bafio, que é o que caracteriza o “gosto a rolha”. Parece pouco, mas equivale a muitos milhares de garrafas.

O mundo do vinho, em geral, é povoado por inúmeros mentirosos. Tudo é orgânico, tudo é leveduras indígenas, tudo é vinhas velhas, tudo é Touriga Nacional, tudo é barricas de grão fino da melhor floresta, tudo está vendido e mais houvesse, graças a Deus, e por aí adiante. Mas estas, vendo bem, não passam de mentirinhas piedosas. Bem mais nefastas são as recorrentes mentiras dos vendedores de rolhas. A ausência de TCA é a maior delas.

Se houve sector que não acompanhou o enorme salto qualititativo que o vinho português deu nas últimas duas décadas foi o da indústria das rolhas. Também melhorou bastante, mas não ao mesmo ritmo. Algumas empresas já possuem tecnologia de despiste do TCA, só que os ritmos de controlo ainda são muito baixos — e o grosso das rolhas que chegam ao mercado continua a ser sujeito a um controlo mais ou menos aleatório. Hoje, só pagando um custo acrescido é que os produtores de vinho conseguem adquirir rolhas sem TCA. Um custo que devia ser assumido pela indústria da cortiça, porque é esse o seu negócio, está a ser suportado pelos produtores e, indirectamente, pelos consumidores.

O problema do TCA é transversal ao sector e é agravado pelo facto de até as maiores empresas não serem auto-suficientes em cortiça. E sabe-se que a contaminação com fungos e bactérias não tem origem apenas nos sobreiros, pode surgir também na fase de acondicionamento da cortiça e já no interior das fábricas. Acontece que todas as empresas recorrem a fornecedores externos, nacionais e estrangeiros. O aumento de TCA nos vinhos que se tem registado nos últimos dois anos estará relacionado com determinados lotes de cortiça comprados em Itália a preços mais baratos.

Cá está: cortiça pior, mas mais barata. O mais extraordinário é a impunidade estar mais ou menos instituída. A perversão é tal que, quando surge uma garrafa contaminada com TCA, quem assume o custo é o produtor do vinho. A cortiça é um produto natural e as contaminações podem acontecer, argumentam os industriais das rolhas. E o vinho, não é um produto natural?

Por isso, quando for abrir uma garrafa de vinho, caro ou barato, novo ou velho, reze primeiro. Ou então tenha outra igual ao lado. Com uma maior probabilidade do que seria aceitável para um produto alimentar como é o vinho, o acto glamoroso e sempre emocionante de sacar uma rolha pode converter-se numa enorme frustração. Mesmo assim, antes uma rolha de cortiça do que um vedante sintético. Desgraçadamente, a incerteza em torno da qualidade da rolha também faz parte do mistério do vinho.

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