Fugas - motores

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Pode não ser mau ficar a meio caminho

Por Luís Francisco

Falar de berlinas de nível superior, nos dias que correm, torna quase obrigatório um olhar para o que se faz na Alemanha. Audi, BMW e Mercedes dominam o sector e estabelecem padrões de qualidade que a concorrência tenta emular. Não é fácil, mas há maneiras de fintar o bloco alemão.

Não é uma tradição portuguesa, essa coisa de falar de dinheiro logo à cabeça de qualquer assunto, mas os tempos obrigam a novas estratégias e não há nada como pôr as cartas em cima da mesa. E, neste caso, falar do novo Lancia Thema é falar do preço, por comparação com a concorrência directa. E o dinheiro é tão importante porque, à partida (e à chegada, já agora), não há maneira de a Lancia apresentar um produto mecânica, visual e qualitativamente tão inatacável como o dos rivais alemães.

O Lancia Thema é um carro muito confortável, distinto, potente e evoluído. Mas na Alemanha faz-se melhor. Em termos puramente sensoriais, não há como escolher este italiano em detrimento dos modelos que nos chegam da chancelaria de Angela Merckl. Mas o argumento racional abre brechas nesta certeza. É fazer as contas. E elas são as seguintes: o Thema coloca-se no mercado a meio caminho entre os Mercedes classe E e S; entre os BMW série 5 e7 ou entre os Audi A6 e A8. As dimensões são as do segmento superior, o preço alinha pelo inferior.

Números: com uma potência de 239cv e mais de cinco metros de comprimento, o Thema custa sensivelmente o mesmo (62.100€ para 61.000) do que um Mercedes classe E de 204cv, enquanto o classe S com a mesma potência "atira" para os 94.000€ e o classe E de 265cv custa 75.370€. Na BMW o cenário é idêntico. O Audi A6 correspondente varia entre os 61.200€ (204cv) e os 75.940€ (245cv); a Jaguar disponibiliza o XF de 240cv por 71.000€; a Volvo tem o S80 de 215cv a 74.400€; e até um construtor, digamos, mais popular, como a Citroën, sai a perder na comparação, já que o C6 de 240cv custa 76.300€.

O que todos estes números indicam é que um carro como o Thema, sujeitando-se à comparação qualitativa com os topos de gama da concorrência, consegue alinhar os preços com as propostas intermédias dos rivais - e com o bónus de não ter uma extensa lista de extras a pagar à parte. Ou seja, tudo o que se ler a seguir tem de ser descodificado à dura luz dos cifrões. E este aviso fica feito porque a avaliação do Thema não pode ser entusiástica, tendo em conta os elevados padrões de comparação. Na verdade, e tal como sucede com o posicionamento no mercado, a Lancia fica a meio caminho. Não é nada mau, podia ser melhor.

A primeira noção a reter é que este é um carro aparentemente destinado a quem se faz conduzir. Mas o sr. director-geral poderá achar estranho ter perdido algumas mordomias que estavam disponíveis no anterior modelo da marca para este segmento: os lugares traseiros não têm qualquer tipo de regulação especial nem são ventilados. Dispõem de aquecimento, mas não de função de massagem. E tudo isto existia no Thesis, bem como um comando à distância para a aparelhagem de som, cortinas nas janelas e um sistema de climatização autónomo. Ainda assim, a suspensão é amiga dos passageiros e a insonorização bastante boa.

O interior exibe excelentes materiais e o desenho sóbrio ajuda a criar uma boa atmosfera. Mas, aqui e ali, notam-se problemas de montagem e acabamentos (a entrada de ar nas portas, com um mero aro de borracha, é lastimável). Exteriormente, o visual imponente "herdado" das sinergias com a Chrysler (o 300C é o modelo gémeo) pode não ser muito ao gosto europeu. Para quem se senta ao volante, a primeira sensação é de agrado (múltiplas regulações eléctricas, incluindo a da altura dos pedais), mas depois há coisas que nos fazem torcer o nariz. A primeira é a forma como o motor reage ao acelerador: o ruído (agradável) da subida de rotação surge bem antes de haver uma resposta; é como se acelerássemos sempre demais no arranque... O que não há-de ser verdade, porque um teste sem preocupações de consumo devolveu uma média abaixo dos 10 litros aos 100 km - os números oficiais falam de 7,1, o que, já agora, não é famoso.

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