Blasfémia? Visão estratégica? Não é consensual que um construtor do segmento premium se preocupe com as questões financeiras ao ponto de criar produtos específicos em busca de menores custos para o utilizador. Há quem veja descaracterização. Outros aplaudem a adaptação aos tempos. No balanço final, a BMW sai a ganhar com esta versão económica.
É o BMW mais barato do mercado. E, com consumos bastante frugais, promete igualmente não se transformar numa fonte de despesas exageradas ao longo da sua vida útil. A versão Efficient Dynamics (ED) do série 1 estreia a motorização 1.6 turbodiesel da marca mantendo os tradicionais argumentos de qualidade de construção e condução mais desportiva, mas agora em figurino económico. Ou seja, aumenta a lista de pontos positivos do modelo, sem que isso afecte sobremaneira o compromisso de proporcionar boas sensações ao volante.
Mas dizer que este é um verdadeiro série 1 não significa apenas enumerar virtudes dinâmicas e estilísticas. Há que pensar nas limitações de acesso aos bancos traseiros, nas questões da visibilidade, na longa lista de extras e respectivos preços... E, principalmente, neste caso específico, é preciso estar atento a algo que não seria de esperar e que pode estragar a imagem geral da versão - este é um carro cansativo de conduzir. Uma caixa muito seca e um pedal de embraiagem pesadíssimo e muito fundo conjugam-se para fustigar o condutor.
Num construtor que dispõe da que será a mais eficaz e utilizável caixa automática do mercado (com oito velocidades), andar a fazer musculação com a perna esquerda e a resolver puzzles com a mão direita não apetece mesmo nada... Para mais, o pedal da embraiagem pega muito em baixo e o do acelerador está mais perto, o que, para quem gosta de conduzir com as pernas estendidas, significa que acabamos instintivamente por nos inclinar sobre o lado esquerdo para minimizar os danos.
Este lado antipático da mecânica é particularmente penalizador numa versão que não procura tanto o exclusivo prazer do condutor como as restantes deste modelo (basta sentir a forma imperativa como o controlo de tracção entra em cena para se perceber que não devemos esperar emoções fortes). Ou seja, não se limita apenas a ser menos excitante; é também mais trabalhoso. Em desfavor dos passageiros vem o rebaixamento da suspensão, que diminui os níveis de conforto a bordo (em contraciclo do que tem sido a evolução da marca a este nível). Em mau piso, nomeadamente, sentem-se bem as irregularidades.
E também se ouvem. A insonorização do motor é bem conseguida, mas os ruídos de rolamento podem tornar-se desagradáveis quando pisamos superfícies mais irregulares. Do lado do motor, destaque negativo ainda para a vibração forte no arranque e para a já tradicional falta de souplesse do sistema Stop&Go da BMW, a milhas do melhor que já por aí se encontra.
Mas chega de dizer mal, até porque tudo isto serão detalhes quando comparados com as virtudes desta versão económica. E, já que estamos a falar do motor, saliente-se a excepcional capacidade para se mostrar económico, desde que não cedamos à tentação de adoptar o modo dinâmico Sport - existem ainda o Comfort e o EcoPro, o mais "verde". Sintomático da filosofia do modelo é o facto de, ao contrário do que é habitual, este 316d ED arrancar, por defeito, no modo económico.