Exercício: pense na palavra Sabrosa. Fora do contexto futebolístico, que imagens lhe traz este nome? Se a sua mente tem sentido geográfico, poderá visualizar, de imediato, um concelho nortenho, no coração do Douro vinhateiro. Se a literatura é a sua casa, já reviu as paisagens e homens agrestes descritos por Miguel Torga. Se dorme e acorda a pensar em História, recordou-se, certamente, que a tradição (mesmo que os factos possam ser discutíveis) diz que foi lá que nasceu o circum-navegador Fernão Magalhães. E se fechou os olhos e tentou relembrar sabores, pois, aí não vamos arriscar, porque são tantos os vinhos, tantos os enchidos e amêndoas torradas, tantos os doces e pães recheados de carnes fumegantes, que o melhor é não referir apenas um.
Um fim-de-semana não chega. Vimos embora contrariados, amuamos porque queríamos ficar, pelo menos só mais um dia. E não resistimos a um momento de recriminação já comum sempre que nos encontramos no meio dos socalcos do Douro, aquele em que nos questionamos: por que é que não vimos aqui mais vezes? Com as encostas pintadas do verde que a Primavera trouxe, e ainda com as videiras ornamentadas apenas por rebentos - nada de cachos fartos de uvas, que o tempo ainda não dá para tanto -, Sabrosa, junto ao rio, é a fotografia perfeita que transformou esta paisagem em Património Mundial. Mais para cima, para o interior, as vinhas transformam-se, as rochas saltam da terra, rebanhos de cabras de ar bravio atravessam a estrada e o ar da montanha leva-nos a pensar que já partimos para outras paragens, quando ainda não saímos do mesmo concelho.
De um lado ou do outro, a vontade é sempre a mesma: permanecer, ficar ali. Não apenas no meio do rio, de onde muitos visitantes mal chegam a sair, perdendo tanto do que a região oferece. Nem apenas a percorrer os caminhos das vinhas, porque as paredes das casas e os seus habitantes constituem muita da riqueza patrimonial do concelho. E não, de certeza, sem experimentar um passeio de barco, porque se não se olha aquela imensidão de encostas perfeitas do meio do Douro não se viu tudo.
Calcar a terra
É preciso enxotar a preguiça e meter pés ao caminho. O que não é fácil, quando se acorda rodeado de um silêncio quebrado apenas pelo cantar dos pássaros, o afastar das cortinas revela os socalcos pontilhados de folhas verdes e o rio Douro, em baixo, ilusoriamente imóvel no meio de tudo. Mas está decidido que a manhã vai começar com uma caminhada e enchemo-nos de coragem.
A partida é do largo da igreja da aldeia de Provesende. De todas as aldeias de Portugal, a que tem mais casas brasonadas, vai explicando o guia. Há um momento de pausa, para espreitar a padaria tradicional Fátima, de onde foge o cheiro inigualável do pão acabado de sair do forno. Há um, recheado de carnes, que se aconchega no saco que levamos às costas, ao lado da garrafa de água, e estamos prontos para partir.
O caminho é sempre a descer, percorrendo o trilho São Cristóvão do Douro. Com as vinhas e muros antigos de pedra por companhia, ao longo de cinco quilómetros, vamo-nos aproximando do Pinhão, no concelho vizinho de Alijó.
Ao longo de percurso percebemos - como se os olhos já não nos tivessem dito -, que a organização das vinhas não é sempre a mesma. Não se espalha apenas por socalcos. Também há videiras em patamares ou em altura. E há oliveiras que, às vezes, se juntam em pequenas manchas de verde, mas de onde ninguém colhe a azeitona, porque não é rentável.
De Provesende para o Pinhão a temperatura pode variar, às vezes em cerca de cinco graus, explicam-nos, e isso reflecte-se na paisagem. À partida, os troncos das vidreiras quase não têm verde. Há folhas pequenas a despontar, mas ainda tímidas. Com a aproximação do final do percurso, as folhas de um verde ainda fresco tornam-se maiores e mais pesadas. Lá em baixo, a uva ficará pronta para a apanha mais cedo, não há dúvidas.
O guia vai parando amiúde, afagando uma ou outra planta. Uma urze. Um medronheiro. Uma flor de rosmaninho. Uma esteva. Há encostas inteiras cobertas por esta flor branca, de olho central amarelo, que, por altura da Páscoa, ganha cinco manchas vermelhas nas pétalas. As "cinco chagas de Cristo", como lhes chamam por aquelas bandas, por causa da altura em que surgem. As encostas cobertas de flores, de onde já ninguém procura arrancar vinho, também são história. Chamam-lhe "mortórios" e há quem defenda que devem permanecer para sempre assim, para que as pessoas não esqueçam.
Porque os "mortórios" são espaços abandonados aquando da praga da filoxera, em meados do século XIX, que marcou para sempre o destino do Douro. A paisagem típica da região, que o homem afugentou das colinas pintadas de vinha à força, voltou a crescer ali livremente e a recuperação dos muros centenários seria demasiado complexa para justificar a extinção destes espaços de vida e de morte.
O calor torna-se mais intenso, à medida que o rio Pinhão se vai aproximando - a paragem para comer o pão que guardamos no saco ainda quente chega na hora certa, para repor energias. Na paisagem, as quintas dos produtores vão-se multiplicando. As encostas parecem crescer sobre as nossas cabeças, à medida que o rio passa a ser uma constante cada vez mais próxima. Quando já se vê o local onde rio Pinhão se une ao Douro, sabemos que a caminhada, pelo meio das encostas que nos habituámos a conhecer apenas como uma imagem para onde se olha, está a chegar ao fim. E queremos e não queremos. Mas o cheiro a glicínias que inunda o ar da próxima paragem (há cheiro que lembre mais a Primavera do que o das glicínias?) desfaz as dúvidas. Agora, queremos ficar ali.
Comer com os Produtores
O almoço está marcado para a Quinta da Foz. A casa da família Calem - hoje já sem a propriedade da marca de vinho do Porto e dedicada ao fabrico de vinhos de mesa - é um refúgio fresco, que só não está colada ao rio porque a linha de caminho-de-ferro se intrometeu entre os dois. Colocada num pátio coberto por uma ramada, a receber a brisa fresca do Douro, a mesa está posta, e os vinhos da casa começam a circular. Há tintos, brancos e rosé. A casa deverá ser transformada para receber alojamento, mas para já está aberta a visitas guiadas: à capela do século XVIII, ao pequeno museu vinícola, aos lagares antigos e modernos, à adega e à loja.
O cozido à portuguesa conquista o grupo e o bolo borrachão é o acompanhamento perfeito para o copo de vinho do Porto que anuncia que o almoço está quase a acabar. Mais uma vez, temos a sensação que ficávamos por ali. A sobressaltar-nos com o comboio que passa, de repente, a caminho da estação do Pinhão. A relembrar a história da família em que José Maria Calem nos deixa entrar. A observar a grade de ferro, hoje coberta pelas glicínias, por onde as pipas saíam para serem transportadas para os armazéns de Vila Nova de Gaia. A preguiçar, sem querer saber das horas.
Navegar no silêncio
Só não adormecemos porque não queremos arriscar perder um bocadinho da paisagem. No convés de um barco inglês de 1957, com uma cadeira a suportar o corpo, o sol a aquecer o rosto e as encostas do Douro a emoldurarem o olhar, chegamos à conclusão que, afinal, é dali que não queremos sair. Mas rimo-nos, porque sabemos que vamos mudar de ideias a cada novo recanto que atravessemos. Não acreditamos, quando chegamos a bordo, que nos poderemos sentir tentados pelos enchidos e vinho branco junto à popa, mas a brisa do rio, o silêncio e o ondular do barco que desce, devagar, em direcção à Régua, e volta a subir, antes de parar junto à estação ferroviária do Ferrão, acaba por levar a melhor. Não tarda estamos no meio do rio, a ver as vinhas agarradas às encostas para cada lado onde olhamos, salpicos de amarelo das giestas a animar a paisagem, um comboio a correr, rasinho à água a caminho de mais uma estação. E um vinho branco a refrescar-nos a garganta.
Quando deixamos o rio, a terra começa a ganhar tonalidades douradas. O sol está a começar a descer e, ao chegarmos à Quinta do Crasto, no topo de uma encosta em frente ao Douro, torna-se claro que o dia está a fugir de nós em largas passadas. A prova de vinhos, desta casa e da Quinta do Espinhal de Baixo, decorre quando a modorra boa do cansaço começa a apoderar-se da terra e de nós. E já não sabemos se gostamos mais de um branco ou de um tinto, mas sabemos que adoramos um vinho do Porto.
Terras de Torga
No dia seguinte não caminhamos. Num miniautocarro capaz de cruzar as estradas estreitas que rodopiam em torno das vinhas, partimos para São Martinho de Anta. Aos poucos, deixamos para trás a paisagem suave e a presença do rio, para nos embrenharmos na terra de penedos bravios onde nasceu Miguel Torga. Mesmo antes de chegarmos ao centro da vila, apontam-nos o local onde está a crescer o Espaço Torga, projectado pelo arquitecto Souto de Moura. A casa onde o médico e escritor viveu é de uma simplicidade desconcertante. Branca e azul, de um piso só, não está aberta aos visitantes, ainda que apeteça mesmo imaginar que as portadas estão abertas e que podemos espreitar pelas janelas. No centro da vila, morto e enorme, rodeado de placas oferecidas em memória do escritor, está o negrilho a que se referiu nos seus livros e que, diz a lenda por aquelas paragens, secou no dia em que Torga morreu. Para lá da vila, ficam as terras cobertas da planta bravia a que o escritor roubou o sobrenome, para usar como pseudónimo, e a Capela de Nossa Senhora da Azinheira, com os seus castanheiros centenários e o cruzeiro próximo onde, dizem, Miguel Torga gostava de procurar inspiração.
Sabrosa não se despede sem apontar, no centro da sede do concelho, a casa onde, segundo a tradição, nasceu Fernão de Magalhães. A ligação do local ao navegador é tão forte que está mesmo a ser projectado um centro interpretativo que lhe é dedicado, no qual será possível copiar as sensações de atravessar as diversas partes do mundo por onde passou, ou experimentar as pernas de marinheiro no baloiçar simulado da nau que o transportou.
O almoço é, de novo, generoso. De regresso a Provesende, na senhorial Casa da Calçada, lambuzamo-nos de vinhos e enchidos, de feijoada de feijocas e de peras caramelizadas. Não há nada a fazer. Não queremos ir embora.
A Fugas viajou a convite da Associação Sabrosa Douro XXI
Como ir
Pode chegar a Sabrosa de carro: do Norte, siga pela A4 até Amarante, e daqui pelo IP4 até Vila Real. Do Sul, tome a A1 até Aveiro e siga para Viseu, pela A25. Daqui tome a A25 para Vila Real. Depois de Vila Real, tome a Nacional 322 em direcção a Sabrosa. Contudo, o percurso de comboio pela margem do Douro continua a ser uma experiência a não perder. Se recorrer a apoio organizado, poderão apanhá-lo na estação do Ferrão.
Como fazer
Praticamente todas as actividades descritas podem ser marcadas de forma individual. Contudo, também é possível marcar actividades isoladas ou pacotes através de alguns locais de alojamento ou, mais fácil, recorrendo à Associação Sabrosa Douro XXI, que integra várias entidades da região, incluindo a própria Câmara de Sabrosa, e respectivo Posto de Turismo. Pode contactá-los através do telefone 259 937 220, o fax 259 937 129 ou o e-mail asdouroxxi@sapo.pt . Se preferir contactar directamente o Posto de Turismo, pode fazê-lo através do telefone 259 939 575 ou pelo e-mail turismo@cm-sabrosa.pt
Onde dormir
Há cada vez mais quintas vinhateiras a abrirem as suas portas a dormidas. Enquanto os projectos em curso na Quinta da Foz ou na Casa da Calçada não estão disponíveis, pode já experimentar (quase apostamos que não se vai arrepender) a Quinta Nova da Nossa Senhora do Carmo ou a Quinta da Veiga, com a sua peculiar decoração oriental e janelas abertas para o Douro.
Onde comer
Para petiscar, passe pela padaria Fátima, em Provesende, ou pela Cozinha de Fumeiro Artesanal do Douro, em Sabrosa. Para uma refeição mais requintada (apenas para grupos e mediante marcação), não perca a oportunidade de experimentar as iguarias da Quinta da Foz, da Casa dos Barros (na sede do concelho) ou da Casa da Calçada (Provesende).
Vinhos e vinhas
Visitar as casas vinhateiras, os lagares e espaços de produção do vinho, além de degustar as marcas de cada família, é possível, mediante marcação, em boa parte dos espaços de produção de Sabrosa. Da Adega Cooperativa de Sabrosa à Casa de Mateus (em Vila Real), para experimentar os vinhos dos Lavradores de Feitoria, passando pelos locais referidos acima como bons locais para comer ou dormir, não faltam oportunidades para sentir o sabor dos vinhos da região.