Assim que as luzes se apagam, percebem-se com clareza os diversos ruídos que nos rodeiam. De grilos e outros insectos, do sino do campanário que dá as horas certas. Duas, três da madrugada... Por cima da nossa cabeça, o céu coberto de estrelas chama pelos nossos olhos, até estes não aguentarem mais de cansaço. Então, umas miúdas no saco-cama ali ao pé soltam uns risos abafados e mexemo-nos para nos acomodarmos melhor ao chão duro tornado um pouco mais suave pela alcatifa que cobre toda a sala. Porque (já nos esquecíamos de dizer) estamos dentro de uma sala. No Planetário do Centro Multimeios de Espinho. E o céu é a fazer de conta. E os ruídos são uma gravação. Mas quem se lembra disso quando parece tudo tão real?
O dia tinha estado, quase sempre, encoberto. Nuvens espessas e carregadas cobriam o céu, libertando, raramente, uma pequena descarga de água. Por isso, havia fortes probabilidades de que algumas das iniciativas previstas para o Acampar no Planetário não se pudessem realizar. Esta foi apenas a segunda vez que o centro organizou um evento deste género, e durante a primeira, no ano passado, o tempo também não tinha ajudado, impossibilitando as observações do céu agendadas para a noite e a manhã.
Quando os participantes começaram a chegar, carregados com sacos-cama e mochilas nas quais escondiam pijamas, chinelos e escovas de dentes, não havia ainda a certeza de que a primeira iniciativa da noite uma visita ao Observatório para ver Marte, Saturno e a Lua fosse um sucesso. Não é por isso de estranhar que Lina Canas, uma das responsáveis pelo evento, desse início às actividades com uma frase bem-disposta: "Estamos com sorte, o céu abriu completamente".
O fascínio pela Lua
O chão do planetário estava lotado de crianças e adultos, por isso o grupo foi dividido em dois. Metade subiu ao observatório e a outra metade permaneceu na sala quentinha, liberta de cadeiras a ver o primeiro filme da noite: Acampar com as estrelas.
O primeiro grupo seguiu Marco Silva por corredores e escadas que, habitualmente, os visitantes do planetário não percorrem. Por trás do palco do Centro Multimeios, ao longo de um corredor semi-ocupado por cadeiras, por um lance de escadas e outro e outro. Até estarmos no exterior, em cima de uma plataforma cujo centro estava todo ocupado por um telescópio e com algumas estrelas pequeninas a brilhar por cima das nossas cabeças. O entusiasmo de Nuno Carvalho era ainda maior do que o de Lina: "Parabéns pela sorte enorme que tiveram. Esteve o céu o dia todo encoberto e às 21h00 começou a abrir. Estão visíveis dois planetas, Marte e Saturno."
Depois das explicações do astrónomo, um a um, os participantes foram atravessando a plataforma até chegar o momento de espreitar pelo telescópio. Confessamos: o primeiro visionamento não foi bem o que esperávamos. Quando, finalmente, pudemos procurar Marte, tudo o que encontrámos foi um pontinho de luz, avermelhado, muito lá ao longe. Uma bolinha perfeita, mas demasiado longínqua para a identificarmos com um planeta. Nada que afectasse Beatriz Costa, de oito anos, que aceitou "toda entusiasmada" o convite da avó Arminda, de 66 anos, para ir passar a noite ao planetário. "É mesmo fixe, um bocadinho vermelho", dizia, sorridente.
Antes de dar mais uma volta à plataforma, para espreitar Saturno, Beatriz inquiria a avó: "(...) O homem na lua, então não é? Ele é que faz acordar o sol e mudar a lua, não é?" E, quando a avó, dizia, num brusquidão doce, "não é nada", Beatriz retorquia, sem se deixar intimidar: "Foi o que eu vi nos desenhos animados."
Quando, pela segunda vez, espreitámos pelo telescópio, ficamos conquistados. Ali, à nossa frente, ainda pequeno mas perfeitamente visível, Saturno desenhava-se, numa luminosidade branca contra o fundo negro do Universo, circundado pelos seus famosos anéis. Em redor, eram ainda perceptíveis alguns pontinhos luminosos, muito pequenos, que Nuno explicou serem algumas das luas do planeta.
Antes de descermos para o quente do planetário só faltava mais uma observação: a Lua. Nuno explicava que, por estar quase cheia, e muito luminosa, esta não era a melhor noite para observar o satélite natural da Terra, mas ninguém queria saber. Queríamos espreitar o mais depressa possível, porque pressentíamos que íamos ficar fascinados. Se a lua já parece tão perto a olho nu, devia ser fantástica com a proximidade permitida pelo telescópio.
E era mesmo. Enorme, mesmo ali ao pé, como se lhe conseguíssemos tocar com um dedo, coberta de crateras que se viam claramente, fosse na sua superfície fosse no recorte contra o resto do céu. Cheia de uma luz que parecia querer saltar para fora do óculo do telescópio, que nos deixou temporariamente cegos do olho que utilizamos para a ver (foram só uns segundos, passou depressa) e que levou Beatriz a exclamar, incapaz de se conter: "Ó ‘vó, tira uma fotografia à lua". Como se a sua pequena máquina fotográfica, encostada ao olho do telescópio, pudesse captar o que acabara de ver.
O Sol ao alcance da mão
A descida para a sala do planetário só foi entusiasmante porque, na cabeça de todos, devia estar presente a ideia que, lá dentro, estava bem mais quente. Pés dentro dos sacos-cama, corpos estendidos para ver, de todos os ângulos, a cúpula do planetário e deixámo-nos transportar pelo professor e os seus alunos animados que, num acampamento escolar, aproveitam a noite para descobrir mais sobre as estrelas, galáxias e planetas.
Depois de um pequeno lanche, adultos e crianças muniram-se das lanternas que haviam sido aconselhados a levar, e que Lina cobrira com papel de celofane vermelho, para lhes roubar alguma da luminosidade. De mapa na mão, procuraram encontrar as constelações que os astrónomos iam referindo. Tinha começado a Caça às Constelações. Paulo Carvalho, de 44 anos, e o filho Pedro, de 19, eram dos mais entusiastas.
Até tinham levado um ponteiro que libertava uma luz verde para identificarem mais rapidamente os grupos de estrelas. Lina ia dizendo quais. Gémeos. Ursa Maior. Leão Cão Menor. O primeiro a adivinhar onde se encontrava a constelação pedida, naquela imensidão de estrelas em que se transformara o céu do planetário, recebia um saco com presentes. Paulo e Pedro, habituados a observar as estrelas no campo, descobriram a primeira constelação. Outros grupos foram apontando as outras. E tudo ia andando depressa até a voz de Lina ter anunciado: "Cassiopeia". Formaram-se filas, cada um apontando para um ponto diferente do céu. Nem Paulo e Pedro acertaram e a astrónoma passou uns bons minutos a repetir "Próximo". Até que uma menina acertou, depois de alguma ajuda dos organizadores.
A noite já entrara na madrugada e algumas cabeças tinham dificuldade em levantar-se dos sacos-cama. Por isso, não é certo que todos tenham ainda seguido com atenção o segundo filme da noite, Viagem a um Buraco Negro, guiados pela voz de Nuno Markl. Quando a abóbada do planetário ficou abandonada às estrelas, e os ruídos da noite gravados previamente numa zona campestre tomaram conta da sala, já alguns dormiam. E assim continuaram até o campanário soar mais forte pela manhã e um galo com excelentes pulmões anunciar que a manhã chegara.
De novo, estávamos com sorte: íamos ver o Sol e as nuvens que o cobriam tinham acabado de se afastar. O Sol é amarelo. De um amarelo forte e denso. Nós vimo-lo. Mas nem todos conseguiram, porque a meio da observação as nuvens esconderam-no de vez por aquela manhã. A sorte não dura sempre para eles, ver o Sol ao alcance da mão terá que ficar para a próxima.
Localização
O planetário fica no Centro Multimeios de Espinho, junto ao recinto da feira semanal. Não é difícil encontrar.
Avenida 24, 800 4500-202 Espinho
Tel.: 22 7331190
E-mail: info@multimeios.pt
www.multimeios.pt
Quando ir
O Planetário do Centro Multimeios de Espinho tem várias actividades ao longo do ano, só tem que descobrir a que melhor lhe convém. No caso da D. Arminda, a avó de Beatriz, foi preciso esperar 66 anos para cumprir um sonho de há muito. "Gosto de observar o céu, e pedia muitas vezes ao meu companheiro para virmos ao planetário", confessou à Fugas. Ele nunca a levou, ela não perdeu a oportunidade de concretizar o desejo, fazendo ao mesmo tempo as delícias da neta de oito anos. Por enquanto, ainda não há novas datas para a repetição da iniciativa Acampar no Planetário, mas vá espreitando a página Internet do Centro Multimeios (www.multimeios.pt). Praticamente todas as actividades que os participantes na iniciativa realizaram acontecem, separadamente, ao longo do ano. Dormir lá dentro é que não. Para isso, terá que esperar por uma nova data. O director do centro, António Pedrosa, garantiu à Fugas que o acampamento nocturno só não se realizou mais vezes "porque não houve muita oportunidade". Mas deixou a promessa: "Ponderamos fazer mais vezes esta e outras iniciativas ao longo do ano."
Participantes
Desta vez, não havia mais espaços vagos no planetário e muitas pessoas ficaram em lista de espera. O participante mais velho já tinha ultrapassado há muito os 60 anos e o mais novo rondava os seis anos. Antes desta idade, poderá ser difícil às crianças apreciarem as actividades no planetário, mas a partir dos seis não há restrições.