Fugas - viagens

Paulo Ricca

Aqui, onde as aves se abastecem

Por Abel Coentrão

Sob o coaxar ruidoso de milhares de rãs, a Fugas descobriu na Área Protegida das Lagoas de Ponte de Lima um lugar onde a conservação da natureza se casa de uma maneira interessante com os propósitos da educação ambiental que presidiram à criação desta reserva, no início do milénio. Este é, sem dúvida, um bom lugar para crianças com pais que não se importem de chegar cansados ao fim do dia

A placa assim o diz, e não temos por que não acreditar. "Os cavalos gastam mais energia quando estão deitados do que quando estão de pé". Pois bem, pais haverá que desejariam que o mesmo acontecesse com os filhos, essas fontes inesgotáveis - e simultaneamente esgotantes - de energia, que só deitados, e a dormir, permitem que os progenitores recarreguem as suas baterias. E aqui onde estamos, um pónei de Shetland, Trovão, é a prova relinchante de que o tamanho pouco importa na hora de afastar uns garranos de maior porte da cerca onde nos encostamos, na Quinta de Pentieiros. É ele que manda aqui - e com que energia! -, ofuscando a imagem de calmaria que emana da Paisagem Protegida das Lagoas de Ponte de Lima.

A Quinta de Pentieiros é um dos espaços a não perder numa visita às lagoas de Bertiandos e São Pedro de Arcos, nome pelo qual também é conhecida esta área protegida de âmbito regional criada em 2000, por impulso do ex-autarca de Ponte de Lima, Daniel Campelo. Uma personalidade que, marcada pelos episódios do famoso Orçamento do Queijo Limiano, deixou que se "escondesse" do resto do país aquela que é, afinal, a marca maior do seu percurso político: uma paixão pelo mundo rural que, mais do que uma defesa do passado, nos aponta uma perspectiva de futuro, mostrando que a ecologia está, querendo-se, para lá da ideologia. Como o prova todo o projecto associado às lagoas que, brevemente, incluirá um centro escolar em que a educação ambiental se entranhará em todo o currículo dos alunos.

Se acreditamos que devemos ensinar os nossos filhos a respeitar a natureza, a saber tirar o melhor dela, sem a destruir, esta reserva de 350 hectares rica em biodiversidade é um bom ponto de partida. É acessível e fácil de percorrer, nos seus 22 quilómetros de caminhos subdivididos por vários trilhos. E conjuga paisagens humanizadas com a natureza desenhada pelo rio Estorãos a caminho do Lima e por duas lagoas plenas de vida. Ah!, e tem a quinta, com os seus animais, e o seu viveiro de plantas, um rol de actividades agrícolas à espera de quem as queira executar e vários sítios onde dormir: recomendando-se, assim à primeira vista, uma de várias casas de madeira sobre estacas, sobranceira a um prado onde dezenas de ovelhas seguem na sua vidinha calma, indiferentes às diabruras do Trovão, no cercado ali ao lado.

Num ano em que o Inverno foi mesmo Inverno, ter a companhia da Primavera numa visita às lagoas de Ponte de Lima, como aconteceu com a Fugas, é um privilégio. Os sinais da chuva estão lá, nos passadiços que chegaram a estar sob a água e nas enormes poças nos caminhos em terra que nos obrigam a andar para trás - a falta que faz, nestes dias pós-diluvianos, um par de galochas! Mas o sol já obrigou os amieiros, os salgueiros negros e outras árvores ripículas a expulsar as folhas, antecipando uma ideia, ainda ténue, da sombra que elas nos darão quando o Verão chegar e nos der vontade de sermos como os patos e as garças que passam os dias a banhar-se. Mas, para já, a temperatura é amena, essas ideias ainda não despontaram, pelo que a atenção pode ser direccionada para o muito que há para ver e ouvir por aqui.

Longas viagens

Vamos ouvir, então! Se conseguirmos ultrapassar o predomínio do coro de rãs que nos acompanha no percurso em torno da lagoa principal, junto ao Centro de Interpretação Ambiental, nem precisaremos de binóculos para perceber quanto os patos-reais, no seu frenesim migratório, gostam deste sítio cheio de juncos entre os quais facilmente se escondem e escondem os seus ninhos dos predadores. Excluído o homem da cadeia alimentar, por aqui há espaço para todos. Corços, javalis, cobras e lagartos, lontras e fuinhas, a águia de asa redonda e outros pássaros, como a já referida garça-real, mais ou menos dependentes do ecossistema aquático. No qual se podem encontrar - não pescar - várias espécies típicas dos rios do Norte de Portugal e até a lampreia-marinha.

Muitos animais fazem do silêncio uma estratégia de vida, mas alguns, como as aves, não têm vergonha de se expor a quem passa, tentando, em vão, sobrepor-se às rãs - que parecem querer justificar, desta forma, o terem sido escolhidas para mascote do parque. Nisto de fazer barulho, elas só têm um rival à altura: um grupo de crianças da Escola Básica de São Pedro de Arcos, que acompanhamos durante uma manhã de actividades em torno da importância da água. Mesmo divididos em grupos pequenos, todos juntos, num dos postos de observação de aves instalados na lagoa parecem-se com um bando de patos a avistar, grasnando, o destino. Mas aqui, com tanto ruído, "ainda assustam tudo", avisa um monitor das lagoas, a pedir silêncio para algumas explicações sobre a importância da defesa destes habitats genericamente designados por zonas húmidas.

Pelo que se vê, aqui, onde um eucalipto gigante imita a morfologia sinuosa de um carvalho, como que a querer disfarçar o seu exotismo, não fosse alguém abatê-lo, dezenas de espécies de vertebrados têm a sua casa todo o ano. E os que migram, como os patos, têm o seu "posto de abastecimento" para as longas viagens, explica o monitor, agora atentamente escutado pela jovem audiência. O mosaico, completo com a presença do homem, é de um equilíbrio raro, capaz de atrair a atenção mesmo dos mais distraídos. Mas como se formou? No Centro de Interpretação Ambiental, os vários grupos vão tendo algumas pistas: percebem quanto somos, nós e o planeta, feitos de água; aprendem o seu ciclo; ouvem falar de algumas das suas propriedades. E observam ao pormenor alguns dos seus habitantes, como o lagostim americano que, pouco dado a ser espiado, foge, em vão, do foco do microscópio por onde os olhares infantis lhe prescrutam os segredos. Que estão à mão de quem, curioso, os queira descobrir.

Como ir 

Tomando, a partir do Porto, a A3 ou a A28, é fácil chegar às lagoas. Pela A28, segue-se, em Viana do Castelo, pela A27, saindo em Estorãos / Arcos / Lagoas. A quinta de Pentieiros está a centenas de metros. Pela A3, o melhor é sair em Ponte de Lima e daí tomar a panorâmica EN 202. Desta há indicações que nos levam em direcção ao Centro de Interpretação das Lagoas.

Onde ficar

Ponte de Lima é terra de solares -e sede por direito próprio da Associação Portuguesa de Turismo de Habitação, visitável em www.turihab.pt -pelo que não faltam no concelho propostas interessantes para ficar num fim-de-semana com programa nas lagoas. Mas a própria reserva natural tem várias propostas de alojamento, que vão desde o campismo e os bungalows da Quinta de Pentieiros, a casas de abrigo e antigas escolas nas margens do rio Estorãos. Ver mais em www.lagoas.cm-pontedelima.pt.

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