Fugas - viagens

António Borges

Regresso ao passado em Aljubarrota

Por Carla B. Ribeiro

É local obrigatório para aficionados da História, estrategas militares (quer profissionais quer de trazer por casa), amantes da natureza, adeptos das tecnologias ou, pura e simplesmente, para crianças curiosas. O Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota é uma verdadeira máquina do tempo

14 de Agosto de 1385. Sob o letal sol de Verão, sete a oito mil homens, entre portugueses e ingleses, que compunham a tropa de apoio a D. João, Mestre de Avis, comandadas pelo próprio e por Nuno Álvares Pereira, dizimaram o poderoso exército castelhano, defensor do Tratado de Salvaterra de Magos, que entregava a Coroa de Portugal aos descendentes do rei de Castela, D. Juan I.

Quase 625 anos depois, sobram do lendário embate o mesmo sol abrasador e a mesma morfologia do terreno que permitiram a conquista lusa. E a memória. E é exactamente por aí que começa a viagem ao passado no Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota (CIBA), em São Jorge, concelho de Porto de Mós, a cerca de 2,5 quilómetros da cidade da Batalha, erigido exactamente no local onde decorreu a significativa batalha.

O projecto, que resultou de um investimento superior a dez milhões de euros e inaugurado em Novembro de 2008, incluiu a remodelação quase total do antigo Museu Militar de São Jorge, realizada pelo mesmo gabinete responsável pela sua construção em 1986, Bruno Soares Arquitectos, e a construção de pólos anexos.

É pelo edifício antigo que começa a visita: aqui, além de átrio, bilheteira/loja e cafetaria/ restaurante, encontra-se o primeiro testemunho da batalha. Num dos cantos do arejado e iluminado átrio, o chão abre-se para revelar uma das valas que serviram de aliadas às tropas portuguesas: foi essa, aliás, a razão da escolha de Nuno Álvares, que ficaria para a História como o Condestável, do planalto para palco de batalha.

Os declives e as valas naturais do terreno foram aproveitados como armadilhas, além de terem sido escavadas várias covas de lobo (que ainda podem ser encontradas pelo campo circundante, mas já lá iremos), e o facto de a entrada para o planalto ser circundada por duas linhas de água que dificultavam a aproximação das tropas inimigas.

Toda a estratégia da batalha é explicada em ecrãs tácteis, através dos quais se pode até imaginar como seria um jornal on-line no século XIV. Mas não são de prescindir as explicações de Lara, formada em História de Arte, que se desdobra entre o balcão de informações, a bilheteira e as visitas guiadas. As explicações são dadas efusivamente por quem sabe, de cor e salteado, todos os passos daqueles dias quentes de 1385. É neste primeiro núcleo que é dado todo o enquadramento histórico da batalha - de forma mais factual para adultos; eximiamente efabulada para crianças - e que aguça o apetite para o segundo núcleo, onde a proposta é assistir a um filme.

Mas não se pense que é apenas mais um filme que nos espera na sala multimédia: no palco do auditório foi reconstituído o campo de batalha, à escala real, com as tais covas de lobo, fossas e a disposição de cadáveres humanos e de cavalos. Do centro, uma imensa plataforma ergue-se lentamente.

O filme arranca e a plataforma abre-se em duas, tomando a forma das páginas de um livro, no qual surge a mão de Fernão Lopes a escrever as suas crónicas sobre a epopeica batalha. Em simultâneo no ecrã, Aljubarrota (2008) - um documentário ficcionado de cerca de 30 minutos, encomendado pelo CIBA aos Filmes do Tejo e realizado por Margarida Cardoso -, relata os factos a partir das crónicas da época, nunca esquecendo o rigor, proporcionado pela presença constante, na altura das filmagens, de um consultor histórico.

A acção, realista q.b., retrata fielmente a violência do combate. Contudo, o facto não o torna necessariamente desaconselhado a crianças, uma vez que, antes de entrar no auditório, a pequenada já sabe o que a espera (sendo, no entanto, necessário acautelar os mais novos para o som, que coloca a audiência no centro da acção).

Enquanto no ecrã se repõem os acontecimentos, a plataforma vai revelando mapas, estratégias militares de ambas as facções e outros detalhes, complementando o filme. E, quando termina, a missão foi cumprida: já não se passará pelo terceiro núcleo, o mais museológico, sem lhe prestar redobrada atenção.

Neste terceiro espaço, a história conta-se através das palavras dos cronistas da época, como Fernão Lopes ou Pero López de Ayala, que podem ser lidas mais uma vez recorrendo a ecrãs tácteis, ou pelo testemunho de artefactos, como as várias armas usadas por ambos os contingentes. Há um bónus perto da saída: um elmo, uma espada ou uma facha - a que se vê no filme a ser usada por D. João I na luta contra um cavaleiro castelhano, D. Álvaro Gonçalves de Sandoval, da qual o monarca luso viria a ser salvo por D. Martim Gonçalves de Macedo -, reproduzidos no seu peso original e, para contentamento de miúdos (e graúdos...), disponíveis a ser manuseados e, no caso do elmo, até vestidos de forma a sentir o peso que tanto dificultara a luta armada. Ainda em exposição, vários fragmentos de ossos humanos, descobertos no local da batalha, cujo estudo permitiu identificar parte da história daqueles cavaleiros, ao jeito da série televisiva Ossos (onde uma antropóloga forense desvenda crimes a partir da análise de ossadas): um ecrã explica tudo o que o pequeno fragmento documenta, desde a idade da vítima até à causa da sua morte, não esquecendo a arma que lhe terá sido letal.

Pelos campos da batalha

Uma incursão ao CIBA não acaba com o fim da visita aos seus núcleos expositivos. Depois de se compreenderem o contexto histórico, a linha dos acontecimentos que precipitaram a batalha e a forma como ela decorreu, é tempo de reviver os acontecimentos in loco, isto é, de pisar o terreno que foi palco do decisivo confronto. E até de tentarmos imaginar-nos rodeados por cavaleiros de outros tempos.

É esse o efeito de toda a envolvente do centro, após o paisagismo, estudado por Luísa Borralho, ter procurado uma aproximação com a imagem que o planalto de São Jorge apresentaria há mais de seis séculos. O certo é que se fica com a ideia de que se o Condestável visitasse hoje o local ainda reconheceria uma ou outra fossa que ordenou abrir.

Para criar esta ligação da natureza ao passado foram repostas as espécies vegetais da época da batalha, com base nos resultados de análises polínicas, nos dados fornecidos pela botânica e nas descrições dos cronistas, que destacam as urzes existentes neste campo, salpicado ainda por salgueiros, amieiros e, com maior preponderância, carvalhos.

Com o campo de batalha cortado a meio, impõe-se um passeio, que pode ser acompanhado por áudio-guias e complementado por espreitadelas a cronotelescópios (uma espécie de telescópios do tempo), através dos quais se consegue imaginar um exército medieval mesmo ali à nossa frente.

Pelo caminho, são assinalados os locais onde os exércitos português e castelhano se encontravam: a posição de D. João I, de Nuno Álvares Pereira, dos arqueiros ingleses ou da ala dos namorados; a posição da cavalaria castelhana, dos cavaleiros franceses apoiantes de Castela ou do rei Don Juan I.

O percurso, que inclui a Capela de São Jorge, mandada construir por Nuno Álvares Pereira em 1393 (e que, infelizmente, estava encerrada aquando da visita da Fugas), vai dar à zona onde foram postas a descoberto as covas de lobo, usadas pela guarnição do Mestre de Avis, para derrubarem (e desorientarem) a cavalaria francocastelhana, e contribuem para criar todo um imaginário no visitante.

Do lado oposto do centro, junto a um parque de merendas, impõe-se ainda "vestir" a pele de cavaleiro no Parque dos Engenhos Medievais, onde se pode jogar xadrez num tabuleiro gigante, construir uma muralha ou testar a perícia e pontaria no tiro com besta.

Para os mais pequenos, há ainda uma sala de serviço educativo, o Exploratorium, aberta aos fins-de-semana à tarde e de acesso gratuito, onde as crianças, ajudadas pelos respectivos acompanhantes, podem brincar à Idade Média, desenhar, criar objectos a partir de diversos materiais e, no fim, levar para casa uma lembrança única e irrepetível da visita criada por si própria.

Como ir

O centro situa-se junto ao IC2/EN1, entre Porto de Mós e Batalha. Do Norte, A1 até Albergaria-a-Velha, A25 até à saída para a A17, em direcção à A8, até Leiria Sul. Continuar pelo IC2, direcção Lisboa, por mais cerca de 10 quilómetros. Do Sul, A1 até Aveiras; daí continuar pela N366 e, a seguir, pelo IC2.

Horários

De Outubro a Abril: de 3.ª a dom., das 10h00 às 17h30 (última entrada às 16h30). De Maio a Setembro, das 10h00 às 19h00 (última entrada às 18h00).Encerra dias 25 de Dezembro e 1 de Janeiro.

Preços

A entrada custa €7, sendo grátis até aos quatro anos e a metade do preço dos cicno aos 17, estudantes e maiores de 65 anos. O bilhete família (dois adultos + dois bilhetes de desconto) custa €17,50. Os áudio-guias alugam-se por €5 e as visitas orientadas são gratuitas ao fim-de-semana.

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