Fugas - vinhos

  • Meruge Branco 2010
    Meruge Branco 2010

Continuação: página 2 de 2

Meruge, nome de grandes vinhos

Nos tintos, a colheita que está a chegar ao mercado é de 2008. O ano é o mesmo, mas os vinhos são muito diferentes. O Quinta da Costa das Aguaneiras (17 euros), dominado pela Touriga Nacional, é um vinho que causa grande impacto sensorial. Encorpado e com boa complexidade, tem, porém, um pequeno senão: um pouco de álcool a mais, o que explica a ligeira sensação de doçura que se sente no ataque de boca. No resto, é um Douro impetuoso e marcante, daqueles que não deixam ninguém indiferente.

No perfil, está quase nos antípodas do Meruge Tinto 2008 (17 euros), um tipo de vinho que é, muitas vezes, mal compreendido. Faz parte da mesma família do Charme, de Dirk Niepoort. O método de vinificação é semelhante: as uvas são maceradas com engaço e a fermentação do mosto é feita em barrica. No caso do Meruge, a casta dominante (80%) é a Tinta Roriz, casta cada vez mais mal-amada pelos enólogos do Douro, por originar vinhos algo verdes e com taninos secos. Mas isso só acontece se as uvas não amadurecerem bem e se a sua fértil produção não for controlada. Bem trabalhada na vinha, a Roriz origina vinhos fantásticos, frescos, falsamente ligeiros e complexos. O Meruge 2008 está aí para o provar. De aroma muito químico e terroso, assemelha-se a um Pinot Noir, na sua delicadeza e finesse. Possui boa fruta e é muito mineral, proporcionando uma prova de boca exaltante. Muito bom.

De todos os vinhos que provámos, só um outro causou uma tão boa impressão: o Meruge Branco 2010 (16 euros). Feito apenas de Viosinho, mas com uvas de duas vinhas diferentes (de Vila Real e Sabrosa), fermentou e estagiou em barricas de carvalho de português sem qualquer tipo de chofa. Madeira crua, como se usava antigamente. Esta opção tem os seus riscos: a madeira crua marca os vinhos com um toque de serrim que pode ser desagradável. Mas também tem as suas virtudes: desaparecem os fumados, que deixam alguns vinhos brancos enjoativos e imbebíveis.

No caso do Meruge 2010, a integração da madeira é perfeita. O seu perfume e volume ligaram-se bem à rudeza da madeira, o que, acrescido a uma fantástica acidez, tornaram o vinho musculado, austero e deliciosamente vibrante, algo ríspido até. O final de boca é enxuto e cheio de nervo, mostrando uma limpeza e uma frescura formidáveis. Um branco singular e de altíssimo nível.

--%>