A vida do vinho também é feita de mudanças, de evoluções e revoluções, embora estas últimas tendam a ser feitas mais de veludo que de pura impetuosidade. Os juízos mudam, os conceitos e as prioridades vão cambiando com o passar das colheitas e as causas e os princípios renovam-se a cada ano. Os exemplos destas mudanças de fé e de paradigma, muitas vezes provocadas por constrangimentos económicos, abundam neste mundo tão peculiar do vinho.
Olhemos para o Douro. Se num passado recente o Douro Superior que tinha sido abandonado à sua sorte e desconsiderado durante gerações começou a ser o destino querido para a plantação de novas vinhas, convertendo-se na nova coqueluche para onde muitos correram a comprar terras bravias, desde que com uma frente de rio, hoje a sorte e o momento mudaram por completo, começando a ouvir-se o estalido das primeiras vozes ruidosas a contestar a perspicácia de tal decisão.
Se o apelo dos preços simpáticos da terra tinha sido o motivo inicial de sedução, aliado ao charme de poder desenhar uma terra virgem, à disponibilidade quase ilimitada de água do Douro para rega e à segurança de um clima seco e previsível que poderia garantir alguma consistência entre colheitas, logo a nova diáspora perdeu sentido quando os preços começaram a disparar para valores incomportáveis face à procura desenfreada por frentes de rio inóspitas. Mas também quando os vinhos do Douro Superior nem sempre conseguiram esconder o peso de um clima tão extremado, revelando alguns tiques que as novas tendências de mercado parecem querer enjeitar. E eis como de repente, num regresso às origens, o Baixo Corgo e o Cima Corgo resgataram o brilho de toda uma vida.
No Alentejo, curiosamente, assiste-se hoje a um movimento relativamente semelhante no princípio, embora não na forma, uma transição pacífica entre lugares de eleição, uma mudança perceptível de destino e de estilo. Num passado muito recente, o sul do Alentejo transformou-se num dos grandes destinos do investimento, investimento bem pensado e com grande sucesso empresarial, avançando por terras sem tradição histórica na vinha, as terras quentes a sul de Beja onde a vinha nunca antes tinha sido plantada. Não fora a graça da rega, o investimento em charcas e barragens, e o sul do Alentejo continuaria ainda hoje a ser terra vedada ao cultivo da vinha.
Mas o homem conseguiu conquistar este pedaço mais quente, seco e árido do Alentejo e os resultados estão à vista nos vinhos de sucesso que um par de produtores visionários colocou no mercado, transformando terras inóspitas em oásis de viticultura que o mercado aceitou com agrado. Muitos outros produtores rumaram ao sul e muitos outros projectos emergiram na região. Mas não é difícil perceber uma mudança na atitude e na filosofia, não é difícil perceber que as inclinações estão a mudar e que hoje quase só se fala do norte do Alentejo, de Portalegre e da serra de São Mamede, convertida na nova Meca do vinho alentejano.
Como que a reboque das tendências internacionais que reclamam por vinhos mais frescos e ligeiros, com mais acidez e menos doçura, com mais personalidade e de espírito mais irrequieto, Portalegre transformou-se no sítio onde todos querem estar e onde todos procuram ter uma vinha, por pequena ou irrelevante que possa ser, nem que seja por razões simplesmente estéticas ou de marketing.
Um dos primeiros a chegar a Portalegre, muito antes do recente despertar mediático e totalmente alheio às modas, foi Vítor Claro, um nome que se distinguiu na cozinha e não nos vinhos. Como chef, Vítor Claro tem revelado uma sensibilidade rara, para além de uma empatia pouco habitual com as harmonizações com vinho, sabendo adaptar a sua comida a qualquer vinho que lhe seja colocado à frente. Na verdade, a sua paixão pelo vinho é de tal forma evidente que, longe de se contentar em bebê-lo ou em desenhar pratos para o acompanhar, quis deitar mãos à obra de fazer o seu próprio vinho. O que, no caso de Vítor Claro, foi assumido de forma literal, adoptando o papel de enólogo, adegueiro e ajudante, sujando as mãos e metendo a mão directamente na massa.
Os vinhos chamam-se Dominó, branco e tinto, ambos da colheita 2010, nascidos de duas pequenas parcelas de uma vinha muito velha que Vítor Claro comprou depois de muitos meses de visitas ininterruptas à região, depois de ver muitas vinhas. O Dominó tinto é francamente atraente mas é o Dominó branco que arrebata de imediato os corações. Um branco estupidamente mineral, seco e fresco, quase eléctrico de tamanha tensão e excitação, um branco feito à moda antiga, sem fruta exótica e sem efeitos especiais, puro e duro, vivo e nervoso mas suave e terrivelmente longo e harmonioso.
Se todos os vinhos da região fossem assim, com este carácter forte e simultaneamente com esta subtileza, seria fácil perceber que todos se quisessem mudar para Portalegre. O que é certo é que este Dominó branco 2010 veio confirmar que no Alentejo também podem nascer vinhos brancos de culto, nascidos de castas improváveis, e que o vinho não ter de ser uma ciência assim tão complicada. Afinal, na base de um grande vinho, tal como de um grande prato, está o produto, está uma vinha extraordinária...