Fugas - dicas dos leitores

Emerson & green, uma jóia rara na Cidade de Pedra

Por Maria João Castro

Tinha lido que as ruas labirínticas de Stone Town possuíam uma ambiência única, feita de vielas serpenteadas a maresia que se insinuavam sobre os pedaços da história da ilha de Zanzibar, lugar de miscigenação das culturas africana, árabe, indiana e europeia. Numa placa escura lê-se: Emerson & Green.

Um rapazito conduz-me pela escadaria de madeira que cheira a sândalo. Combinadas num estilo colonial muito particular, cada alcova mostra-se em diferentes cores e desenhos feitos de móveis, velhos e encerados que brilham sob os raios de sol. As camas, cujos mosquiteiros condizem com a cor das paredes, são de uma elegância convidativa. A penumbra dos quartos é invadida pela luminosidade que entra através das janelas rendilhadas, reproduzindo recortes de luz.

Numa das varandas, um recanto semi-escondido e almofadado a damasco insinua-se sedutor: ao fundo, um portão entreaberto dá para um pátio minúsculo forrado a frangipanas, sobre o qual se eleva um alpendre pontilhado de vasos clorofilados. Daí, abre-se uma passagem resguardada por um toldo de organza e que dá acesso a uma pequena ponte de madeira forrada a musselina, esconderijos de romance e quietude, que constituem refúgios de privacidade e bom gosto.

Por entre os interstícios do entalhe dos muros caiados da açoteia do Emerson penetra um aroma a especiarias que afaga a arquitectura arabizada e dignamente envelhecida. Num dos cantos do terraço altaneiro construíram uma espécie de cobertura em madeira entalhada que lembra uma jóia de filigrana. Fechando o “toldo” nas partes laterais, aplicaram-se cortinas de tule que adejam ondeantes, repetindo o compasso do Índico.

Para reconfortar o bourdoir orientalizante, dotaram-no de divãs, tamborins e almofadas forradas a seda e cetim que desafiam ao repouso e à volúpia, cada um escolherá o seu. Mais ao fundo, e antes do recorte do mar, o jardim Forodhani e, num plano mais próximo, as ruínas do forte outrora erguido pelos portugueses e que jazem, preguiçosas, na lassidão do calor da tarde.

A aragem corre quente e envolta em fragâncias exóticas com aroma não só a cravinho e canela mas também gengibre, pimenta e noz-moscada. A vista estende-se sobre o casario rasteiro, as agulhas dos minaretes e palmeiras verdes que intervalam as habitações térreas de ambiente sereno, culminando com um mar de um verde impossível.

Abandono a varanda e regresso ao interior. Do tecto pendem lágrimas de luz; panos desgastados caem em largas pregas até ao chão, arqueando-se num orgulho outrora recortado a ouro. Atrás, tecidos de gaze esvoaçam, acariciando os vidros das janelas. Nos tapetes bordados de arabescos e pisados de séculos assentam móveis incrustados de madrepérola que insinuam conter uma poesia descolorida.

O Emerson & Green, outrora uma mansão de um mercador rico pertencente ao império suaíli, difunde em cada um da sua dezena de quartos o ambiente dos lugares especiais. Num relance, vejo a sua idiossincrasia como uma pérola que mantém o brilho da juventude e talvez por isso, antes de o abandonar definitivamente, penso em como é possível que a memória reconheça lugares onde nunca estive? Como negar que me sinto em casa apesar de este nunca ter sido o meu lar? Mas todos sabemos que a mente prega partidas e que às vezes nos provoca alguns desvarios…

Saio de novo para a Gizenga Street, deixando o nostálgico antro anacrónico. Não se vislumbra vivalma. Os árabes e os persas povoaram-na há mais de mil anos, mas a evolução próspera do sultanato foi interrompida, na sequência da passagem de um ilustre português, em 1498, na rota para a Índia: seu nome? Vasco da Gama. Durante duzentos anos, os portugueses deram aqui o ar da sua graça, até que, nos finais do século XVII, os árabes omanitas tomaram o território, acrescentando novas influências à cultura suaíli. No fim do século XIX e até 1963 a ilha tornou-se num protetorado britânico, juntando-se depois à Tanganica para formar a República Unida da Tanzânia.

A jóia rara do Emerson vai ficando para trás, escondida sobre uma ruela da Cidade de Pedra, que, emudecida ao calor da tarde, se aguareliza numa pincelada arabesca que se espreguiça até à maresia de um Índico quimérico…  

--%>