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Funeral de jornalista David Lopes Ramos hoje às 12h45

Por Sérgio C. Andrade, Ana Machado

O funeral de David Lopes Ramos será hoje às 12h45. O jornalista do PÚBLICO desde a fundação do jornal e um dos mais reputados críticos gastronómicos portugueses, morreu sexta-feira, no Hospital Curry Cabral, após complicações decorrentes de uma cirurgia aos intestinos. Tinha 63 anos.

O corpo do jornalista esteve esta sexta-feiram a partir das 16h00, em câmara ardente na igreja de São Tomás de Aquino, situada na estrada da Luz, perto da loja do Cidadão. O funeral sai este sábado às 12h45 para o cemitério do Alto de São João, onde haverá cremação às 14h00. 

Natural de Pardilhó, concelho de Estarreja, David Lopes Ramos frequentou o curso de Direito, na Universidade de Coimbra, mas acabou por escolher o jornalismo como profissão. Começou a carreira na revista Vértice em 1971, tendo passado pela redacção do Diário de Notícias, de onde foi suspenso no decorrer do 25 de Novembro de 1975, lembra o camarada de profissão e amigo, José Luís Fernandes ao PÚBLICO. "Encontrámo-nos ali no Verão de 1975. Pertencemos a uma geração de jornalistas de extracção política, que entra nos jornais por esta altura, vinham dos mais variados partidos", lembra.

Foi com José Luís Fernandes que fundou também, em Janeiro de 1976, O Diário, onde fazia principalmente a área de política e onde assinou, já na década de 1980, as primeiras crónicas de gastronomia. "Havia uma vontade de fazer informação de interesse público, naturalmente com uma visão política, mas reflectida e séria", diz José Luís Fernandes. Chegou também a colaborar com o Notícias da Amadora

António Borga, jornalista, também fez parte da equipa fundadora de O Diário com David Lopes Ramos. "Era um homem de bem, de carácter, de convicções. Muito culto e com grande espírito crítico. Cultivou sempre um grande rigor em tudo o que fazia. Tinha um hábito: sempre que entrava na redacção, de manhã, gritava 'Viva a República'. Fazia-o naturalmente, por convicção política, mas também por espírito de camaradagem, e por respeito pelas pessoas mais velhas, algumas das quais eram da sua terra, como o Mário Sacramento. Ele mantinha esse espírito dos tempos de estudante em Coimbra, nos seus aspectos mais saudáveis: a fraternidade, a camaradagem, o combate pelas suas ideias."

Combatente anti-fascista, David Lopes Ramos foi militante do Partido Comunista. O 25 de Abril apanhou-o na tropa nos Açores, de onde acompanhou as operações. À agência Lusa, Vasco Lourenço, que o considerava "um grande amigo", "um homem decidido", recorda a troca de palavras que tiveram a 24 de Abril de 1974: "Perguntei-lhe se sabia rezar, e ele estranhou a pergunta. E disse-lhe que se ele soubesse rezar, pedia-lhe que o fizesse nessa noite. Ele percebeu logo e disse-lhe apenas: Vamos lá preparar-nos." 

Foi depois assessor de imprensa de Vasco Gonçalves, durante os governos provisórios, até ao final do tempo de serviço militar. "Era o Aspirante Ramos, a quem todos os jornalistas recorriam em 1974/75, e por quem tinham uma grande consideração e respeito", lembra António Borga.

Visto como um homem de convicções e um dos maiores conhecedores da gastronomia nacional, David Lopes Ramos confessava que foi com o trabalho de José Quitério, outra grande referência da crítica gastronómica nacional, crítico do Expresso, que despertou para este trabalho e imaginava sempre que estava a escrever para Quitério quando começava uma crónica: "Escrevemos sempre para alguém. Estou sempre a pensar o que ele achará disto", disse em 2010, durante a homenagem que lhe foi prestada pelo Festival Peixe em Lisboa, pelo "rigor, isenção e conhecimento" que mostrava no trabalho.

O enólogo Luís Pato, natural da mesma terra e antigo colega de liceu e de universidade, lembra a capacidade de David Lopes Ramos de "fazer a ponte entre amigos desavindos": "Somos da mesma terra, e fui colega de turma dele no 5º Ano, no Liceu de Estarreja. Depois fomos ambos para Coimbra, mas para repúblicas diferentes, e não nos cruzámos. Reencontrámo-nos mais tarde, numa prova de vinhos promovida pel' O Jornal. Nunca lhe conheci um inimigo. Ele tinha a capacidade extraordinária de fazer a ponte entre os amigos desavindos."

E fala da capacidade do crítico de gastronomia em conjugar o vinho com a gastronomia: "Sobre vinhos, ele dizia que gostava do que gostava. Mas tinha a grande vantagem - melhor que o José Quitério, por exemplo - de avaliar os vinhos na combinação com a gastronomia, o que é uma qualidade que se tem vindo a perder um pouco nos últimos anos na abordagem a estes temas. Aqui, ele era mais refinado do que o Quitério; ele tinha uma forma mais hedonista de avaliar o vinho."À Lusa, José Quitério sublinhou que "David Lopes Ramos desde há alguns anos fazia a melhor crítica gastronómica em Portugal". Lembra-o como "um modelo de competência, honestidade, quer na sua vida profissional quer na sua vida pessoal. Era ouro de lei. Será para mim um amigo insubstituível e o seu lugar é também insubstituível na crítica gastronómica".

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