Para o bem e para o mal, uma primeira vez é sempre uma primeira vez. E da primeira vez que Luís Alvim, como que a autorizar a descolagem de um helicóptero, levantou o braço direito para desenhar círculos no ar com o indicador, franzimos o sobrolho. Fincámos os pés no chão, segurámos a barra de protecção, reprogramámos o botão de alarme. Pousada do Porto: há menos de um minuto, estávamos de costas para ela e agora já precisamos de enxugar os olhos para a reconhecer na outra margem.
Jet boating é isto. É apertar o colete de salvação e abdicar dos óculos de sol (medida de precaução para quem viaja na ponta). É passar a milímetros de uma bóia verde, em forma de garrafa de champanhe, com o cabelo desalinhado. É trocar a dignidade de uma viagem de barco por um punhado de chicotadas aquáticas. Os pontos querem-se nos ii - isto não é, nunca foi uma viagem. Experiência, desafio, mini-aventura, bem-vindos a bordo.
Somos nove e ainda sobram dois lugares no banco traseiro do Haka. À primeira vista, não daríamos muito por ele. Estrutura em alumínio, 5,60m por 2,44m, nada de especialmente imponente. What lies beneath, é isso que importa. No caso, um motor de 400cv a carburar e um sistema de propulsão a jacto que expele cerca de 400 litros de água por segundo. Estamos expectantes. E prestes a transformar princípios de engenharia em shots intermitentes de adrenalina.
Braço direito em riste; um, dois, três, quatro golpes no volante para o lado esquerdo. Luís, um dos poucos pilotos de jet boat certificados em Portugal, sabe o que faz. Conhece a frente e o verso do barco, sabe como reage. Aos espasmos do casco respondemos com contracções musculares, que vão e voltam quase ao ritmo do ponteiro das rotações. A ponte do Freixo começa a fazer sombra, agora já não faz outra vez.
"Não é a velocidade que conta, é a manobrabilidade". Já nos tinham avisado e não podemos deixar de concordar. Devemos ter chegado aos 90km/h mas nunca vimos as margens do Douro a fugir a sete pés. Vimos aquilo que Luís permitiu que víssemos: a água a abrir-se à nossa frente, a ponte Luiz I com uma inclinação de 45 graus, a Praça da Ribeira de olhos postos naquela mancha vermelha que ia cortando o rio com a subtileza com que uma pedra faz ricochete na água.
Agora encontrámos um projecto, uma amostra de ondulação. Solavanco número um, direita, esquerda, slide, semicírculo, um desenho geométrico. Aí vem o braço direito outra vez, Hamilton turn na calha, acautelem-se! O nariz do barco enterrado na água e nós lá em cima, em versão chuveiro improvisado. Os calções encharcados e o tronco pronto a subir à passerelle para o concurso Mr. t-shirt molhada.
Acabou o tempo para contabilizar os estragos. Por esta altura, já não vale a pena tentar manter a compostura. Perdido por um, perdido por mil. Venha de lá esse crash stop - e não é que, do pico da velocidade, o Haka consegue mesmo passar aos zero km/h em meia dúzia de metros? O rasto de espuma que deixou para trás ainda não se dissolveu e já estamos a arrancar novamente, qual Moby Dick em perseguição de um baleeiro. Mais perto da margem, mais familiarizados com as convulsões.
Ajustamos a posição no banco, soltamos as mãos para limpar o rosto e, quando damos por ela, já estamos a caminho da casa partida. Passaram 25 minutos? Pareceram cinco. Os carros estão virados do avesso, lá em cima, na Ponte do Freixo. Cá em baixo, é como se tivessem instalado uma corrente de lombas no leito do rio. Salto, solavanco, salto, solavanco. Estamos novamente colados à água e as pestanas perderam o duelo com o vento frontal. Olhos semicerrados, um último pensamento em forma de apelo: mais um braço direito no ar?
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