O que não falta em Londres são museus. Mas este é novo, original e deveras espantoso. Tão diferente de tudo o resto, que quando se entra não se percebe muito bem onde se está (também haverá quem saia na mesma, mas essa é outra questão). Logo no hall de entrada o visitante é brindado com a visão de um homem em tamanho natural suspenso do tecto. Chama-se Feel e foi esculpido em ferro forjado por Antony Gormley. Do outro lado do mesmo lance de escadas que conduz à recepção há outra escultura, também em tamanho real, desta feita de uma mulher que parece caminhar deitada, mal tocando no chão. Pertence à série de figuras de Marc Quinn retratando casos de pessoas que resistem a doenças crónicas graças ao uso de drogas. Uma metáfora tanto da fragilidade humana como do milagre químico que eventualmente a sustenta.
Trata-se, portanto, de um museu de arte? Sim, no sentido em que integra obras de reconhecido valor artístico. Mas estas obras têm todas a ver com saúde e medicina, surgindo de permeio com um sem número de instrumentos médicos, tanto actuais como de outras eras. Vêm acompanhados de painéis interpretativos, que frequentemente confrontam os avanços da ciência com o senso comum e a cultura popular.
Será então um museu da história e da cultura da medicina? Também é, mas não só. Ou por outra, não é um museu da medicina no sentido em que a ciência exclui a magia e a superstição, uma vez que parte significativa da colecção são artefactos, mais correntemente exibidos em museus de etnografia.
Um milhão de objectos
A entrada é gratuita e toda a gente é welcome. Não é daí, obviamente, que lhe vem o nome, mas de Sir Henry Solomon Wellcome, um dos primeiros magnatas da indústria farmacêutica britânica. Nascido em 1853, numa quinta de modestos pioneiros do Midwest, estudou farmácia em Filadélfia, vindo depois a emigrar para o Reino Unido, onde, de parceria com o compatriota Silas Burroughs, fez fortuna comercializando e produzindo medicamentos em comprimidos acabados de inventar nos Estados Unidos.
O negócio dos comprimidos foi um sucesso instantâneo, entretanto o sócio morreu de repente e Wellcome passou a ser o único proprietário de uma empresa farmacêutica que nunca mais parou de facturar.
Na ausência de sorte aos amores (a mulher trocou-o pelo escritor Somerset Maugham), o dinheiro permitiu-lhe dar livre curso a várias fantasias, incluindo a de coleccionar material suficiente para abrir um Museu da História da Medicina, em 1913. Depressa se converteu no projecto bem mais ambicioso de um Museu do Homem, para o qual angariou uma pequena tropa de caçadores de curiosidades. Acredita-se que, quando fechou os olhos em 1936, Wellcome tinha conseguido juntar perto de um milhão de artefactos. É cinco vezes mais que os depositados no Louvre e seguramente uma das maiores colecções particulares alguma vez reunidas.
Foi, no entanto, um trabalho bastante inglório. O afã coleccionista de Wellcome era guiado por propósitos científicos, decorrentes do evolucionismo, em particular da concepção darwinista da evolução da cultura material. Para ele, a medicina era um derivado do instinto de sobrevivência e como tal uma parte da antropologia, então entendida como uma história da humanidade.
Reunir pilhas de artefactos de todas as épocas e das mais variadas culturas era uma tarefa prioritária de modo a reconstituir cada passo notável dessa história fundamental. Nesta perspectiva, a organização sistemática da colecção num museu deveria funcionar não apenas como um mero veículo de divulgação para o público generalista, mas também como espaço de investigação para cientistas - um teatro de experimentação à maneira do Renascimento.
Estas ideias estavam já desfasadas da prática científica por ocasião da abertura do museu. A teoria da evolução deixou de ser um dogma nos meios académicos, a antropologia virou-se para o trabalho de campo e a medicina para a investigação laboratorial. As duas ciências foram claramente separadas, esvaziando de propósito a desmesurada colecção do farmacêutico. O milhão de objectos reunidos com fins científicos por Henry Wellcome nunca cumpriu esse, nem qualquer outro desígnio de conjunto. Na verdade, quando ele morreu, ninguém sabia ao certo que utilidade dar a tanta coisa - incluindo colecções de colecções com centenas de objectos iguais -, vindo parte a ser dispensada para outras instituições, em sítios tão distantes como a Austrália e o Zimbabwe.
O museu passou à história, mas o núcleo de objectos mais interessantes, valiosos e raros manteve-se no fundo criado para administrar a fortuna do farmacêutico. O Wellcome Trust é hoje ainda a maior organização não governamental do Reino Unido dedicada à investigação bioquímica, campo onde investe anualmente 733 milhões de euros. Em 2005, a organização inaugurou uma nova sede, um edifício envidraçado de dez andares, na porta ao lado do prédio construído por Wellcome em 1932, na Euston Road, para laboratórios e espaço expositivo. Este edifício neoclássico foi, por sua vez, recriado pelo mesmo atelier Hopkins que desenhou a nova sede. Nesta morada funciona a livraria, um departamento universitário e o museu, aberto em 2007.
O belo, o útil e o abjecto
Medicine Man é o nome da galeria dedicada à mostra da colecção Wellcome, uma das duas exposições permanentes no primeiro piso. É forçosamente uma mostra e não mais do que isso, quando exibe meio milhar do milhão de objectos coleccionados em vida pelo farmacêutico, ou seja, uma ínfima parte. Amuletos fálicos, cintos de castidade e engenhos anti-masturbatórios compartem o espaço com cadeiras de parto, pinças obstétricas e discos de amamentação, na secção dedicada ao nascimento. No espaço ao lado, a morte junta coisas tão diferentes como uma caveira trepanada, um kit de reanimação à base de tabaco, peças de joalharia com recordações dos mortos, uma cadeira de tortura chinesa, uma guilhotina francesa e até uma múmia peruana.
Uma das paredes está decorada com máscaras tribais para afugentar os espíritos, invocar a morte e mesmo cobrir de vergonha mulheres demasiado tagarelas. Outra está repleta de quadros, incluindo um desenho de Van Gogh retratando o seu µ
médico, o Dr. Gachet, um desenho anatómico de Da Vinci e uma mão cheia de obras com assinaturas menos famosas representado o nascimento e a morte, o bem-estar e a doença. Pelo meio há serras de amputação de todos os tamanhos e feitios, extractores de bala mais ou menos artísticos, a mais variada gama de próteses e cadeiras de barbeiros cirurgiões. São aqui e ali acompanhados de peças dememorabilia, tais como a bengala de Charles Darwin, a escova de dentes de Napoleão e a navalha da barba de Lord Nelson.
Não se pode mexer e experimentar, como era prática corrente nos gabinetes de curiosidades do Renascimento em que Wellcome se terá inspirado para criar o seu museu "científico". Mas o espírito de surpresa e descoberta é em tudo semelhante ao dessa época de prodígios, numa exposição que promove o convívio entre objectos capazes de contar histórias médicas e outros que simplesmente são espantosos e alienígenas. É uma dinâmica expositiva que Wellcome não teria previsto, mas que tem a capacidade de lhe reabilitar o legado, revendo-o à luz de duas tendências actuais: o culto da multidisciplinaridade e a nostalgia pela era dos primeiros museus.
Medicina com arte
Medicine Now, a outra exposição permanente no primeiro piso, pode ter um alcance diferente, mas está no mesmo comprimento de onda. Esta galeria é dedicada a temas actuais da medicina. põe em jogo modelos anatómicos clássicos, que parecem saídos de uma casa de bonecas (cabelos e lábios pintados) dos anos 50 com as últimas tecnologias de representação multimédia. Os Genomas exibe um dos robots que permitiram sequenciar o genoma humano, acompanhado de uma estante repleta de volumes de mil páginas cada, que no total contêm as 3.4 biliões de unidades do código DNA. A Malária, uma doença típica do terceiro mundo, é comparada com A Obesidade, uma epidemia que põe em risco a vida nos países mais desenvolvidos.
A lógica é de constante vaivém entre o que consumismo e as doenças que contraímos, entre o nosso corpo e (o pouco) que sabemos do seu funcionamento, entre a nossa identidade e o lugar de onde procedemos. Em todo o lado há documentários audiovisuais sobre os avanços da ciência à mistura com obras de arte e uma porção degadgets. Os destaques vão para I can"t help the way I feel, de John Isaac, representação grotesca da obesidade através de uma escultura de dois metros de altura, em que a gordura é tanta que nem se vê a cabeça, mas também para os modelos gigantes e coloridos de insectos que provocam a malária, que parecem saídos de um filme de terror barato dos anos 50.
Medicine Now tem continuação nas exposições temporárias, exibidas no piso inferior. Até agora afloraram temas como o Coração, os Esqueletos e os Sonhos, explorando as relações da ciência médica com a antropologia, a arte e a cultura, cruzando a história com a actualidade. Há uma vertente didáctica, sem dúvida, mas conjugada com uma componente lúdica, que subtrai estas exposições ao tédio do estendal pedagógico.
A mais recente é sobre a pele e não é para estômagos delicados, quando inclui imagens de escoriações auto-infligidas, um retrato de uma criança na mesa de autópsia e amostras de pele com tatuagens.
A próxima exposição ainda não tem data anunciada, mas promete quando propõe actualizar a colecção Wellcome e quem quiser pode ir juntar os seus objectos pessoais (não maiores que a sua própria cabeça) à pilha, de 12 a 22 de Outubro próximo.
INFORMAÇÕES
Wellcome Collection
183, Euston Road
Estações de metro: Euston e King's Cross St.
Tel.: +44 (0) 20 7611 2222
Entrada gratuita, inclusive exposições temporárias 3ª, 4ª, 6ª e sábado, das 10h00 às 18h00, horário que se prolonga até às 22h, à 5ª, e encurta ao domingo, quando só abre às 11h00. Fecha à 2ª. Sábado, visita guiada a Medicine Now e domingo a Medecine Man, sempre às 14h30. Também há visitas ao Wellcome Trust na última sexta de cada mês, pelas 13h00.
Onde comer
O museu tem uma cafetaria, que ocupa toda a frente envidraçada do estabelecimento, meio metro acima da rua, funcionando como um balcão privilegiado para uma das vias de trânsito mais intenso de Londres. Mas o ruído não entra e a decoração com mesas e cadeirões de design colorido, mesmo ao lado da livraria, proporciona um ambiente muito acolhedor. Servem sopas, saladas e sandes, nada de especial e a preços exagerados.
Não muito longe fica o Konstam (2 Acton St., telefone +44 (0) 20 78335040) do chefe Olivier Rose, bem mais aconselhado, mas também nada barato.
O Público viajou a convite do Turismo Britânico