Fugas - Viagens

Luís Maio

Wellcome Collection: Um museu de Londres de outra galáxia

Por Luís Maio

Modelos anatómicos e instrumentos cirúrgicos convivem com máscaras tribais e peças de arte de vanguarda. Chama-se Wellcome Collection e é a versão século XXI dos gabinetes de curiosidades do Renascimento. Luís Maio adorou o novo museu de Londres e aproveitou a estadia para rever o de John Soane, seu antecessor no culto do espanto e da singularidade

O que não falta em Londres são museus. Mas este é novo, original e deveras espantoso. Tão diferente de tudo o resto, que quando se entra não se percebe muito bem onde se está (também haverá quem saia na mesma, mas essa é outra questão). Logo no hall de entrada o visitante é brindado com a visão de um homem em tamanho natural suspenso do tecto. Chama-se Feel e foi esculpido em ferro forjado por Antony Gormley. Do outro lado do mesmo lance de escadas que conduz à recepção há outra escultura, também em tamanho real, desta feita de uma mulher que parece caminhar deitada, mal tocando no chão. Pertence à série de figuras de Marc Quinn retratando casos de pessoas que resistem a doenças crónicas graças ao uso de drogas. Uma metáfora tanto da fragilidade humana como do milagre químico que eventualmente a sustenta.

Trata-se, portanto, de um museu de arte? Sim, no sentido em que integra obras de reconhecido valor artístico. Mas estas obras têm todas a ver com saúde e medicina, surgindo de permeio com um sem número de instrumentos médicos, tanto actuais como de outras eras. Vêm acompanhados de painéis interpretativos, que frequentemente confrontam os avanços da ciência com o senso comum e a cultura popular. 

Será então um museu da história e da cultura da medicina? Também é, mas não só. Ou por outra, não é um museu da medicina no sentido em que a ciência exclui a magia e a superstição, uma vez que parte significativa da colecção são artefactos, mais correntemente exibidos em museus de etnografia. 

Um milhão de objectos

A entrada é gratuita e toda a gente é welcome. Não é daí, obviamente, que lhe vem o nome, mas de Sir Henry Solomon Wellcome, um dos primeiros magnatas da indústria farmacêutica britânica. Nascido em 1853, numa quinta de modestos pioneiros do Midwest, estudou farmácia em Filadélfia, vindo depois a emigrar para o Reino Unido, onde, de parceria com o compatriota Silas Burroughs, fez fortuna comercializando e produzindo medicamentos em comprimidos acabados de inventar nos Estados Unidos. 

O negócio dos comprimidos foi um sucesso instantâneo, entretanto o sócio morreu de repente e Wellcome passou a ser o único proprietário de uma empresa farmacêutica que nunca mais parou de facturar. 

Na ausência de sorte aos amores (a mulher trocou-o pelo escritor Somerset Maugham), o dinheiro permitiu-lhe dar livre curso a várias fantasias, incluindo a de coleccionar material suficiente para abrir um Museu da História da Medicina, em 1913. Depressa se converteu no projecto bem mais ambicioso de um Museu do Homem, para o qual angariou uma pequena tropa de caçadores de curiosidades. Acredita-se que, quando fechou os olhos em 1936, Wellcome tinha conseguido juntar perto de um milhão de artefactos. É cinco vezes mais que os depositados no Louvre e seguramente uma das maiores colecções particulares alguma vez reunidas. 

Foi, no entanto, um trabalho bastante inglório. O afã coleccionista de Wellcome era guiado por propósitos científicos, decorrentes do evolucionismo, em particular da concepção darwinista da evolução da cultura material. Para ele, a medicina era um derivado do instinto de sobrevivência e como tal uma parte da antropologia, então entendida como uma história da humanidade. 

Reunir pilhas de artefactos de todas as épocas e das mais variadas culturas era uma tarefa prioritária de modo a reconstituir cada passo notável dessa história fundamental. Nesta perspectiva, a organização sistemática da colecção num museu deveria funcionar não apenas como um mero veículo de divulgação para o público generalista, mas também como espaço de investigação para cientistas - um teatro de experimentação à maneira do Renascimento. 

Estas ideias estavam já desfasadas da prática científica por ocasião da abertura do museu. A teoria da evolução deixou de ser um dogma nos meios académicos, a antropologia virou-se para o trabalho de campo e a medicina para a investigação laboratorial. As duas ciências foram claramente separadas, esvaziando de propósito a desmesurada colecção do farmacêutico. O milhão de objectos reunidos com fins científicos por Henry Wellcome nunca cumpriu esse, nem qualquer outro desígnio de conjunto. Na verdade, quando ele morreu, ninguém sabia ao certo que utilidade dar a tanta coisa - incluindo colecções de colecções com centenas de objectos iguais -, vindo parte a ser dispensada para outras instituições, em sítios tão distantes como a Austrália e o Zimbabwe. 

O museu passou à história, mas o núcleo de objectos mais interessantes, valiosos e raros manteve-se no fundo criado para administrar a fortuna do farmacêutico. O Wellcome Trust é hoje ainda a maior organização não governamental do Reino Unido dedicada à investigação bioquímica, campo onde investe anualmente 733 milhões de euros. Em 2005, a organização inaugurou uma nova sede, um edifício envidraçado de dez andares, na porta ao lado do prédio construído por Wellcome em 1932, na Euston Road, para laboratórios e espaço expositivo. Este edifício neoclássico foi, por sua vez, recriado pelo mesmo atelier Hopkins que desenhou a nova sede. Nesta morada funciona a livraria, um departamento universitário e o museu, aberto em 2007.

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