Fugas - Viagens

Adriano Miranda

Visitar Sintra no centro do Porto

Por Bárbara Wong

Aprender os nomes dos rios e afluentes. Perceber que por detrás de uma torneira está muito mais do que um fio de água. Este foi o desafio que Bárbara Wong e Adriano Miranda cumpriram nos Jardins de Nova Sintra, no Porto

Sabe o que quer dizer bolhão? Sim, é aquele mercado enorme na cidade do Porto, o Mercado do Bolhão, mas o que significa a palavra? É uma bolha grande, uma nascente de água que brota com força, exactamente no local onde se encontra o mercado e onde em tempos havia uma fonte. A Fonte do Bolhão ou o tanque onde bebiam os animais e as peixeiras lavavam as canastras desapareceu.

Não teve a mesma sorte que outras fontes, chafarizes e fontanários da cidade tiveram: a de serem reunidos nos Jardins de Nova Sintra, com uma vista privilegiada para o rio Douro.

É ali que funcionam os serviços centrais da empresa municipal Águas do Porto e estão algumas dezenas de pequenos monumentos, ou partes deles, que documentam o que era a cidade há algumas centenas de anos e permitem perceber a geografia de uma metrópole que cresceu entre nascentes e afluentes com nomes que agora identificam zonas, como Paranhos ou Salgueiros.

A visita pode começar logo pela pedra exposta à entrada, um enorme medalhão de granito, que em tempos serviu de logótipo à empresa municipalizada, recorda o senhor Pacheco, um colaborador da Águas do Porto, que acompanha a Fugas na visita ao jardim. Aquele medalhão, datado de 1849, pertencia à fonte de São Domingos, construída no largo com o mesmo nome e que foi desmontada, restando apenas o brasão de pedra.

À nossa frente há uma imensidão de verde em que apetece entrar. À medida que alcançamos a sombra, os sentidos começam todos a despertar: aos ouvidos chegam o chilrear dos pássaros e o marulhar dos fios de água a correr das bicas para as pias das velhas fontes; ao nariz o cheiro do arvoredo acabado de regar e de ser cortado, dos eucaliptos e dos loureiros. Os olhos enchem-se de tons de verdes e castanhos dos cedros, faias, oliveiras e das heras.

É um jardim bucólico e quase engana - não fosse o Douro lá em baixo a correr em direcção ao Atlântico, diríamos que estávamos em Sintra, com a sua humidade e vegetação frondosa. Não é por acaso: as heras criam esse efeito cénico e lembram que aquela casa pertencia a uma família inglesa, os Wright. Talvez por isso se chame Nova Sintra.

Este é um espaço onde se respira a calma e a descoberta de um Porto antigo, onde não houve terramotos que obrigassem a uma renovação de alto a abaixo, como em Lisboa, mas onde as fontes e fontanários foram desaparecendo da cidade que ia à água com vasilhas de barro nas mãos ou que dava de beber aos animais nos enormes tanques.

Ainda há fontes espalhadas pela cidade que, depois da visita ao jardim, ganham novo significado, como a bonita e monumental fonte da Rua Mouzinho da Silveira, perto da estação de São Bento, iluminada à noite, revelando os recortes em efeito de concha, onde há duas bicas de água.

São ainda muitas as fontes activas na cidade, com avisos de que a água é imprópria para consumo; noutras, as torneiras tiveram que ser fechadas porque a população, teimosa, não lia as indicações, recorda o senhor Pacheco. Ainda há quem vá à fonte buscar água para lavar a roupa, diz.

No Porto nunca faltou a água, garante o guia da Fugas, e não é difícil acreditar face à quantidade de nomes de nascentes e cursos de água que vai enumerando. Mas há mais: poços, minas, ribeiros, rios, riachos e bolhões. À medida que o tempo foi passando, a água foi sendo encanada e dirigida para as fontes e fontanários.

E voltamos ao jardim. Um marco fontanário de ferro forjado e desenhado, com uma prateleira, para pousar o balde, é a porta de entrada na mata. A fonte do Ribeirinho é de 1790, e estava entre a Cedofeita e a Boavista, para aproveitar a água de um ribeiro; a fonte de Avé Maria é mais antiga, de 1528, e crê-se que seria um ornamento do claustro do Mosteiro de São Bento de Avé Maria, entretanto demolido. Também ali está a primeira fonte da Arrábida; nesse local foi posto um marco fontanário ligado à rede, e esta foi transferida para o jardim em 1948.

Para bois, cães e gatos

Outro marco, este com duas conchas onde cai a água que sai da torneira, é conhecido por ser da Sociedade Protectora dos Animais. Foi doado por Júlio D’Andrade e diz: “O homem é o rei dos animais mas não deve sêr o seu tyranno”. Não é por acaso que as conchas estão desniveladas, uma mais alta para os bois beberem, e outra mais baixa para cães e gatos matarem a sede. O passeio pode ser interrompido precisamente ao pé deste marco fontanário que em tempos esteve na Praça de Carlos Alberto. O descanso é feito num dos bancos da mata, os que estão virados para alguns dos chafarizes ou para o rio.

O jardim serve de miradouro, perto passam os comboios que saem ou chegam à estação de Campanhã e, mais abaixo, o rio. Do lado de Gaia, existem pequenas praias, com tendas, barquinhos e gente que mergulha na água fria. Apetece sentar e comer, como fazem muitas crianças das escolas que ali chegam em visita de estudo - o espaço está imaculado, não há lixo no chão nem esquecido em lado nenhum.

Há outras fontes pensadas para os animais e aqui é pôr os miúdos a descobrir quais são. Não vale ler as tabuletas que indicam o nome das fontes ou o local onde estavam, mas olhar para a arquitectura de cada uma delas. A fonte tem um tanque rectangular? Então é porque ali os animais podiam beber água, como é o caso da Arca do Anjo. Arca? Mais uma descoberta para fazer: o que diferencia uma fonte de uma arca? Para que serviam as arcas no tempo dos bisavós?, perguntam os pais. Para guardar coisas, respondem os mais novos.

Assim são estas: são casinhas de granito, decoradas com azulejos, umas têm apenas uma bica, outras têm animais esculpidos, colados na parede, como estes golfinhos, de cujas bocas jorra a água. São tão feios que o povo lhes chamava macacos...

Como dizíamos, a Arca do Anjo é curiosa, com as suas 14 bicas seguidinhas, construída a pensar nos animais, no extinto Mercado do Anjo onde hoje é o centro comercial dos Clérigos, situa o senhor Pacheco. A arca era de 1893, foi desmontada em 1949. Daquela arca saia água para diversas fontes espalhadas pela cidade, refere Germano Silva, no livro Fontes e Chafarizes do Porto, uma edição de luxo dos Serviços Municipalizados de Águas e Saneamento do Porto, datado de 2000.

A Fonte d’Água de Santo Isidro tem um ar oriental - em vez de um telhado tem um tecto rectangular e a pedra montada em degraus. Por dentro está toda revestida de azulejos que reflectem na água, dando-lhe tons de azuis e de verdes. No século XVIII, o número de fontes públicas no Porto passava da centena, nota Germano Silva. Paranhos, Salgueiros, Camões, Campo Grande são alguns dos nomes das nascentes que saem decorados da visita.

O próximo desafio é conhecer o Jardim da Arca d’Água, onde fica o manancial de Paranhos e para onde foram dirigidas todas as nascentes. Na verdade, o nome oficial daquele espaço é Praça 9 de Abril, mas a designação de Arca d’Água devese aos reservatórios ali existentes e que distribuíram as águas pelas fontes e chafarizes da cidade até ao final do século XIX.

Se as crianças ainda não estão cansadas de tanta pedra e água corrente existem mais fontes para visitar nos Jardins do Palácio de Cristal, como a fonte do Ferreira Borges, um antigo chafariz que ficava perto do mercado com o mesmo nome. Este é lindíssimo e muito diferente dos encontrados no Nova Sintra: duas enormes figuras femininas, elegantes, feitas em ferro, cada uma com uma ânfora na mão, despejando água numa taça - é desta que saem as bicas onde vendedeiras de saias compridas e lenço preto na cabeça recolhiam a água. Difícil de imaginar, parece uma peça saída de Versalhes.

Jardins Nova Sintra
Rua Barão de Nova Sintra, 285 Porto
4300-367 Porto
Tel.: 225190800
Horário: de segunda a sexta, das 08h30 às 17h30. Para visitar é necessário marcação prévia.

Como ir
A viagem para o Porto faz-se como de costume pela auto-estrada, a ponte ideal para atravessar é a do Freixo. Os Jardins Nova Sintra ficam no centro da cidade. Se apanhar o metro, sai na estação do Heroísmo e pergunta como se dirigir para o número 285 da Rua do Barão de Nova Sintra.

Onde comer
É fácil encontrar sítios agradáveis e interessantes para comer, de preferência com vista para o rio Douro ou mesmo à sua beira. A proposta é o Restaurante Tia Aninhas, bom para as crianças provarem a gastronomia portuense com influência do mar e para os adultos se cruzarem com alguns notáveis da cidade. No dia em que a Fugas jantou, na mesa ao lado estava Luís Filipe Menezes, o presidente da câmara de Gaia. Mas são muitos os que escolhem a Tia Aninhas pela relação qualidade, preço e simpatia dos funcionários, incansáveis em satisfazer todos os pedidos. É aconselhável que reserve e prove o arroz de polvo, petinga com arroz, as famosas tripas ou os rojões e ainda o arroz de cabidela. Perto da Tia Aninhas fica uma peça de mobiliário urbano que os mais pequenos vão achar curiosa: um bonito mictório em ferro forjado de cor verde, muito discreto, que aos mais distraídos poderá parecer mais uma fonte.

Restaurante Tia Aninhas
Rua Senhor da Boa Morte, 15
Porto
Tel: 226162850

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