O mais antigo museu público inglês, um dos melhores das Ilhas Britânicas, o maior museu universitário no mundo inteiro. Ao longo dos seus mais de 300 anos de história, o Ashmolean foi coleccionando esses e mais títulos de prestígio.
A verdade, porém, é que se tornou num dinossauro museológico, montra de uma severidade e de um elitismo académicos, mais do que ultrapassados à entrada do novo milénio. Daí a necessidade de uma cirurgia radical, que durou quase cinco anos e custou 74 milhões de euros. O novo Ashmolean viria a abrir em Novembro de 2009, motivando um coro de louvores instantâneos.
O museu original abriu em 1683, num edifício de Broad Street, que hoje alberga o Museu de História e Ciência de Oxford. Fundado pelo alquimista e antiquário Elias Ashmole (1646-1691), era um típico gabinete de curiosidades, exibindo uma porção de objectos exóticos, originários dos quatro cantos do mundo.
Um museu-feira popular, em que meio mundo se sentia no direito de pegar e experimentar as relíquias à sua maneira. Isso e a falta de conservação contribuíram para o delapidar de parte do espólio, incluindo o único dodo embalsamado do mundo, que hoje seria com certeza a sua principal atracção.
A revolução nas traseiras
A Universidade de Oxford acabou por anexar o que restava do legado de Ashmole às suas próprias colecções de arte e arqueologia, em crescimento acelerado no século XIX, sobretudo graças às preciosidades descobertas por um verdadeiro batalhão de exploradores e antiquários, ou de “salteadores de arcas perdidas”.
Essa tendência de crescimento e fusão acentuou-se a partir de 1845, quando o Ashmolean foi transferido para um novo edifício em Beaumont Street, desenhado por Robert Cockerell no mais puro estilo de revivalismo grego.
Um edifício de fachada monumental, sem dúvida, mas sem grande profundidade, resumindose a uma longa galeria em dois pisos tanto que depois tiveram de lhe acrescentar uns barracões nas traseiras. Assim mesmo era um museu atafulhado de objectos, cada vez mais sombrio e carrancudo. A presente remodelação foi confiada a Rick Mather, arquitecto norte-americano radicado em Londres, que antes assinou as extensões da Dulwich Picture Gallery e do Museu Marítimo de Greenwich (ambos em Londres).
No que diz respeito ao edifício gizado por Cockerell, Mather limitou-se a restaurar sem produzir alterações de fundo. De facto, visto da rua, o Ashmolean mantém-se igual ao que era em 1845. O arquitecto norte-americano conseguiu, por outro lado, aprovação para demolir os barracões dos fundos e no seu lugar fez construir uma extensão de seis pisos, ou seja, um novo edifício.
Com 39 salas e mais 100 mil metros quadrados, a extensão praticamente duplica a área de exposição do museu, acrescentando-lhe espaço para escritórios, auditório, serviço educativo e um restaurante no telhado. O símbolo da renovação é a entrada que Cockrell situara na porta central, coroada por um majestoso pórtico. Há anos, porém, que estava fechada e o acesso fazia-se por uma porta secundária, mais pequena e nada acolhedora.
Agora a entrada voltou a ser onde era, dando lugar a uma segunda porta em vidro, que abre sobre um novo pátio espaçoso e luminoso. É em seu redor que se organiza a extensão, um conjunto de caixas de vidro e aço que se escalonam como um puzzle nas direcções norte-sul e este-oeste ao longo seis pisos.
A circulação entre andares é assegurada por passadiços panorâmicos em vidro e aço, bem como por duas escadarias em diagonais ziguezagueantes de degraus em mármore e corrimões transparentes. Projectando silhuetas estilizadas que sugerem cordilheiras de montanhas, estas composições são peças de museu de pleno direito. Só por si justificariam a visita ao novo Ashmolean, mas é claro que a extensão de Rick Mather cumpre um propósito, mais precisamente serve uma estratégia expositiva.
Estratégia moral
O Ashmolean tem a melhor colecção de artefactos do Egipto Pré-Dinástico fora do Cairo, a melhor de antiguidades Minóicas fora da Grécia, a maior ainda de desenhos de Rafael. Do seu acervo faz parte um conjunto significativo de obras de Miguel Ângelo, a maior reunião de tesouros Anglo-Saxónicos fora do Museu Britânico, excelentes colecções de moedas, arte e artesanato da China, Índia e do Islão, bem como de instrumentos musicais (onde se destaca o famoso violino Messiah Stradivarius, que só pode ser exibido na condição de nunca ser tocado).
Como já se depreende desta enumeração de pontos de altos, é também um museu que acaba por ser complicado em virtude da extraordinária variedade das suas colecções. como expor tantas e tão variadas obras? Tradicionalmente, as colecções eram exibidas por época e por país ou região, segundo uma metodologia que celebrava as respectivas diferenças. Já o novo Ashmolean descola da forma tradicional de pensar a história, em favor de uma leitura mais actual, que consiste em fazer sobressair os pontos de contactos e influências entre culturas e civilizações.
Este conceito expositivo, que responde pelo nome Atravessando Culturas, Atravessando Épocas foi concebido pela empresa Metaphor, especialista em design de exposições, e tem a particularidade de ser pela primeira vez aplicada a um museu inteiro.
Um exemplo privilegiado é uma imagem de Buda produzida em Gandhara, hoje no Paquistão Ocidental, no segundo ou terceiro século da nossa era. A representação do Buda é claramente indiana, mas a pose e a roupa são mais próprias à arte greco-romana. Ora, se num museu convencional a estátua em causa seria arrumada na secção oriental, no novo Ashmolean é reavaliada como um elemento chave na ligação entre espaços que exibem figuras de homens e deuses de civilizações antigas do Ocidente e do Oriente. Ou seja, as colecções mantêm a sua individualidade, mas em cada piso há salas especiais que promovem a sua aproximação.
A mesma estratégia é depois aprofundada no piso inferior com exposições subordinadas a temas como o dinheiro, os têxteis e o rosto humano. Há lacunas que resultam das limitações das próprias colecções, onde África e as Américas estão pouco representadas. Há pontos fracos que resultam dos contornos de um museu que também quer ser escola e as legendas das secções temáticas tendem a deslizar para os lugares comuns sobre o encontro de civilizações.
Assim mesmo, no entanto, o novo Ashmolean distingue-se como um museu que na ressaca do colapso das grandes narrativas tem a coragem de procurar de novo um fio condutor para a história. Reinterpreta-a como jogo constante de cruzamentos e influências culturais, o que tem a ver com os debates académicos do último quarto de século, mas também com a nossa experiência de aldeia global. Subentendida fica uma mensagem de despreconceito e tolerância para com supostas alteridades.
Hipermuseu
É no contexto de Atravessando Culturas, Atravessando Épocas, ou da releitura subjacente das colecções de arte e arqueologia do Ashmolean, que melhor se aprecia a intervenção de Rick Mather. O pátio central de 25 metros de altura, as paredes envidraçadas das galerias, as balaustradas também transparentes dos passadiços, os grandes mostruários de vidro rasgando salas de alto a baixo tudo isso serve para abrir o espaço e deixar entrar a luz, mas também para fomentar a estratégia de conexões culturais que domina o projecto.
O visitante pode, por exemplo, estar a admirar ao pormenor um conjunto de peças de cerâmica chinesas suspensas num mostruário e, através da janela envidraçada da mesma sala, vislumbrar no andar de baixo criações cerâmicas do Islão.
É esse jogo de remissões, essa sugestão de zapping constante de épocas e culturas que torna o novo Ashmolean tão fascinante. Claro que o museu antigo, apesar de mais confuso e sombrio, também não era destituído de encantos. Por isso certamente a arquitectura de Cockrell ficou como estava, mas também o recheio das galerias por ele desenhadas se conservam tão próximas quanto possível do original.
Claro que as paredes foram repintadas e há um novo pavimento em carvalho, comum a toda a intervenção, mas os sarcófagos e a colecção egípcia estão onde sempre estiveram. Inclusive boa parte dos velhos mostruários de caixilhos de madeira se mantém nesta área do museu, acompanhados por legendas antigas, ainda escritas à máquina. É quase como se as galerias Cockrell funcionassem como um museu dentro do museu, que serve para matar saudades do velho Ashmolean, ou para marcar a diferença em relação ao museu do século XXI nas suas traseiras
Museu do presente-futuro, o Ashmolean é-o ainda mais desde que em Fevereiro deste ano inaugurou o seu departamento Eastern Art Online (jameelcentre.ashmolean.org). Nesta primeira fase, 1400 objectos das galerias de Arte Islâmica e Asiática foram fotografadas em alta definição e em diferentes perspectivas. Passaram a estar gratuitamente disponíveis em linha, acompanhadas de notas curtas para o público generalista e mais especializadas para os estudantes.
Como ir
Há várias empresas de autocarros que asseguram a ligação entre Londres e Oxford. A Megabus é provavelmente a mais popular, sendo o seu terminal londrino na estação de Victoria (porta 10) e o de Oxford em Gloucester Green. A vantagem é o preço (desde 5€, reservando na Net), o inconveniente é a duração maior da viagem (cerca de 100 minutos).
A estação de comboio em Londres é Paddington e há comboios lentos (90 minutos) e rápidos (uma hora).
25€ é o preço mais comum no guichet para um bilhete de ida e volta, mas comprar em linha pode sair muito mais barato.
Ashmolean Dining Room
Aberto das 10h00 às 18h00
A nova extensão do Ashmolean é coroada por uma caixa envidraçada (mais esplanada), que se autoproclama "primeiro restaurante no telhado de Oxford". As vistas únicas rimam com uma escolha ultracriteriosa de mobiliário, incluindo as famosas cadeiras curvilíneas de Arne Jacobsen. O restaurante é explorado pelos irmãos Ben e Hugo Warner, os mesmos do Bar Serpentine e de uma série de espaços de restauração em museus ingleses.
Como não poderia deixar de ser num museu renovado sob a bandeira do multiculturalismo, a ementa cruza referências da Europa e do Médio Oriente, impondo-se de imediato como um dos melhores de Oxford. É, portanto, aconselhável reservar mesa à hora de almoço. Os pratos principais andam entre os 20 e os 30€.
Covered Market
Mercado coberto repleto de cafetarias e tasquinhas onde se pode comer entre o tradicional e o gourmet. Uma excelente opção para uma refeição ligeira.
Entre High e Market St. | http://www.oxford-covered-market.co.uk/
Magdalen Arms
Pub decadente transformado num dos melhores bistrots da cidade. Uma refeição completa ronda os 50€.
243, Iffley Road | Tel.: +44 1865243159
Brasserie Quod
Antigo átrio de banco convertido em brasserie casual-chique. O menu de almoço anda nos 13€.
High St, 92 | Tel.: +44 1865202505
INFORMAÇÕES
http://www.visitbritain.pt