Em criança tinha aquela ideia fixa: a torre de Pisa não passava de um motivo de inspiração daquele candeeiro piroso que tinha na mesinha de cabeceira. Uma torre um pouco inclinada, é certo, num país culturalmente imponente e que sempre destacou esse monumento como ponto obrigatório do seu roteiro turístico, pois então, mas nada de relevante. “Para mim, Pisa era essa aldrabice, uma coisa insignificante que uns tipos tentavam vender como uma torre inclinada”.
Cresceu e viajou pelo mundo. Até que, naquela viagem a Itália, num concerto marcado para perto de Pisa, decidiu tirar a prova dos nove. Ficou impressionado, boquiaberto com o que viu. “A torre de Pisa é uma coisa monumental e está muito mais inclinada do que parece nas fotografias. É um objecto gigantesco e maravilhoso”. A imagem que tinha de miúdo desapareceu com um olhar. “A torre de Pisa está mal explicada”, comenta. Neste momento, já não é o candeeiro da torre italiana que mora na sua mesinha de cabeceira, mas sim uma pedra que apanhou do chão quando visitou as pirâmides do sol e da lua no México. “Quis trazer um bocadinho daquela magia, há qualquer coisa naquelas pedras que mexe comigo”.
“Viajo para encontrar os locais que conheço de filmes, fotografias, livros”, confessa o cantor. É a surpresa que lhe aconchega o coração. Partiu para Cuba, onde nunca tinha estado, numa das suas últimas saídas do país. Havana Velha é para nunca mais esquecer. “É um sítio onde poderia viver tranquilamente. Tem um ambiente completamente verdadeiro que corresponde culturalmente àquilo que a gente pensa dele”. Encontrou o sítio de Ernest Hemingway, mas também o do escritor Eça de Queiroz. “Fiquei aparvalhado a olhar para o prédio onde viveu o Eça de Queiroz em Havana”, conta.
Apreciou a autenticidade dessa Havana Velha, o rebuliço cultural, e percebeu por que razão quem por ali passou quis ficar. Em termos musicais, a surpresa também por lá mora de dia e de noite, com um povo que se exprime através de melodias. “Cuba é muito especial”.
Tordo prefere o Oriente. Sentese em casa quando aterra na Índia, principalmente em Goa. Não consegue explicar essa sensação, mas entende perfeitamente por que é que o povo português quis ali ficar. Na meia hora que dura a viagem de Bombaim para Goa, com a linha de costa sempre à vista, percebe como é que as naus portuguesas ali chegaram e a expressão “morrer na praia” ganha significado. “Os holandeses chegaram, entraram, dinamizaram, fizeram trinta por uma linha. Os portugueses chegaram e misturaram-se. A expressão ‘morrer na praia’ tem um sentido muito profundo, o sentido da descoberta. A gente chega e morre na praia”.
Apesar de tantas viagens, o deslumbramento é uma constante. O salto que a China deu é, na sua opinião, indescritível. Com três anos de intervalo, as mudanças surpreenderam-no. “Quando voltei, pensava que estava num sítio completamente diferente. O que existia era uma coisa estranhíssima: de repente, tinham aparecido as auto-estradas. O processo da China, com todos os seus mistérios, é um fenómeno a registar”. A Tailândia também entrou na lista na década de 90. Gostou de andar por lá. Um fanático da numismática passou um dia a mostrar-lhe a cidade das torres douradas, dentro da cidade de Banguecoque, a troco de uma moeda portuguesa de 50 escudos.
O Canadá merece-lhe os maiores elogios. A primeira vez foi em 1979. Foi convidado para um concerto, acabou por ficar quatro meses. Em Portugal, tinha acabado de gravar o disco Os Operários do Natal, com Ary dos Santos, Paulo de Carvalho e Carlos Mendes. Os portugueses ouviram-no cantar e tiveram uma ideia: por que não aproveitar a presença de Tordo para incentivar a língua portuguesa juntos dos mais pequenos, filhos da comunidade emigrante no Canadá? Convite aceite. “Dava aulas aos miúdos, num salão muito grande de uma casa de uma emigrante”, recorda. Organizou um coro e fez uma série de concertos de Natal.
Em Março de 1971, estava no Festival da Canção de Bogotá, na Colômbia, e deu uma saltada a Nova Iorque no regresso. Em Junho desse ano, voltou aos Estados Unidos com Luís Villas-Boas para assistir ao Festival de Jazz de Newport, o mais famoso do mundo. Deparou-se com um mundo que até então só existia nos discos que ouvia. Os palcos eram ocupados pelos grandes músicos, pelas grandes orquestras de Ray Charles, Duke Ellington, Stevie Wonder. Nesse ano, houve invasão no festival por algumas centenas de pessoas. Pianos voaram, ficou tudo destruído. Em 1973, voltou ao mesmo festival que entretanto tinha mudado para Nova Iorque. Villas-Boas voltou a ser o companheiro de viagem.
“Acontecia-lhe uma coisa única, cruzava-se com pessoas conhecidas em Nova Iorque. Entrava nas lojas de discos e toda a gente o conhecia”. Fernando Tordo estava em Nova Iorque quando a notícia da morte de Louis Armstrong correu o mundo. Foi ao seu velório.
Viajou bastante com José Saramago. “Era um homem muito importante no estrangeiro. Todas as vezes que chegava ao México, era notícia de primeira página”. Camaradas de viagem. “Eu era aquele mais ou menos alto, mais ou menos gordo, que ia ao lado do José Saramago e tirava as fotografias”. Tirou dezenas de fotos ao escritor e a gente deste mundo que lhe pedia o favor de registar em imagens um encontro de rua com o Nobel da Literatura português.
Mas num hotel do México, na rua Hamburgo, na zona rosa, depois de longas caminhadas em volta das pirâmides da lua e do sol, a 50 quilómetros da Cidade do México, Tordo ficou com cãibras e José Saramago massajou-lhe a perna. “As pessoas que assistiram a essa figura pensaram que estiveram a olhar para o Fernando Tordo que esteve a ser massajado por um senhor de óculos”, diz, com um enorme sorriso. Cantou na aula magna da Universidade da Cidade do México, na celebração do curso José Saramago de língua portuguesa. “Estava tanta gente que tiveram que montar três ecrãs gigantescos”. E Saramago falou sobre a bondade. “Ele dizia que a bondade era muito mais importante do que a inteligência”.
Budapeste e Praga em 1975. Praga e os seus fantásticos teatros. Budapeste com dois lados muito diferentes. Cidades e países que, na sua opinião, não sentiam tanto o peso da então União Soviética no seu próprio funcionamento como a República Democrática Alemã (RDA). “A RDA era uma coisa chata. Berlim é uma cidade muito bonita, mas a RDA tinha um ambiente muito pesado”.
Para o cantor, África é o sítio do mundo que tem o horizonte mais distante. Aprecia a dimensão, mas não é um continente que o atrai. Esteve em Luanda em 1991, numa situação complicada. Recolher obrigatório numa cidade devastada. Um cenário muito diferente do que tinha visto em 1972. “Nessa altura, Luanda era uma cidade lindíssima. Não é uma cidade com dimensão para ter quatro milhões de pessoas, mas 300 mil”, comenta.
A primeira saída do país foi com os pais numa viagem de carro por alguns países da Europa. Era miúdo de escola primária e guarda poucas memórias desses percursos. Tordo recua no tempo para lembrar que nem sempre foi fácil viajar a partir de Portugal. “Saía-se de uma forma muito precária, já se saía zangado porque se passavam coisas horríveis nas nossas fronteiras, que convém não esquecer”. Passar fronteiras não era nada fácil. “Era-se inspeccionado, apalpado, desmontavam-se carros por causa de um garrafão de cinco litros de azeite. Não se podia sair do país durante o tempo militar”, lembra.
As viagens de eleição
Canadá, 1979
“É provavelmente o melhor país do mundo. Era um sítio onde viveria”.
Timor-Leste, 1999
“É o sítio mais bonito do mundo onde estive. É preciso ir a Baucau”.
Cuba, 2007
“A música cubana que se conhece só pode ser feita ali, naquele sítio. E ela existe enquanto uma cultura. É importante ir ao encontro do porquê das coisas: o porquê daquela música estar naquela intensidade, naquelas ruas e ruelas”.
Carimbo mais desejado
Tem pena que não lhe tivessem carimbado o passaporte na viagem que fez a Cuba. Estranhou que assim tivesse sido, depois das histórias que tinha ouvido contar. “Não me ligaram nenhuma”, queixa-se. Há carimbos que quer ter quando visitar o Camboja e o Vietname. Austrália também entra na lista numa viagem de carro que anda a ser planeada há algum tempo.
Bilhete de identidade
Mais de 30 discos editados, quase 47 anos de carreira, milhares de concertos, centenas de viagens. Uma vida preenchida. Por Este Andar é o nome do próximo álbum, que será lançado até ao final deste ano. Durante a adolescência, no tempo dos conjuntos musicais, passava a vida com o ouvido colado aos discos para tirar as canções inglesas e americanas que cantava nos grupos. E não parava de pensar quando é que chegaria o dia de ser ele a criar. “Sabia que esse era o meu caminho”. E assim foi. “Fazer as coisas, escrever canções, saber estudar, treinar a melhor maneira de as transmitir. Essa é a minha profissão”.
Não consegue puxar a memória suficientemente atrás para se lembrar quando é que a música entrou na sua vida. Esteve sempre presente. O palco é uma atracção, mas as horas antes não são muito agradáveis. Sente-se cansado até que é atacado por uma adrenalina dois minutos antes de começar a cantar. Fernando Tordo também pinta e escreve. Neste momento, está a escrever um romance muito lentamente. “Não tenho pressa”. “E a pintura é uma coisa muito íntima porque estou sempre à procura. É uma coisa que faço por entusiasmo.
Sou capaz de estar de madrugada a fazer música e, de repente, interromper tudo e pintar”. Em 1973, venceu o Festival RTP da Canção com a canção Tourada. Quatro anos depois, volta a conquistar o primeiro lugar com Portugal no Coração. Começou a cantar aos 16 anos, fez parte dos Deltons e dos Sheiks, conheceu o poeta Ary dos Santos, companheiro de tantas cantigas. À medida que a sua voz começava a percorrer o país, a riqueza harmónica e melódica dos seus discos não passavam despercebidos. O Prémio Casa da Imprensa foi-lhe atribuído por várias vezes. Adeus Tristeza saiu para o mercado em 1983.
Passou pela televisão com Falas Tu ou Falo Eu. Há oito anos editou um trabalho com temas dedicados aos filmes Cinema Paraíso, O Carteiro de Pablo Neruda e ao povo de Timor-Leste. Em 2006, lançou um disco em que canta poemas dos escritores laureados com o Nobel, Saramago incluído. Tordo continua a cantar, a compor, a escrever e a pintar. Sempre com um sorriso no rosto.