Os centros históricos das cidades europeias (das nossas inclusive) são cada vez mais recreios para turistas. Mas são também cada vez menos habitados, em parte devido a essa invasão de gente de fora. Londres, hoje a maior cidade europeia, confirma a tendência, mas junta-lhe meia dúzia de notáveis excepções. Estas bolsas residenciais no coração da capital inglesa estão mesmo entre os códigos postais mais caros do mundo, inflacionismo justificado por um misto de prestígio e raridade dos espaços disponíveis, a que haverá que juntar uma forte dose de especulação. Chelsea, Mayfair e Notting Hill destacamse na short list, mas a actual líder no campeonato de moradas exorbitantes é sem dúvida Eaton Square, elegante praça ajardinada no coração da freguesia de Belgravia.
A maior parte dos guias passam ao lado, os turistas só lá vão parar por engano. Eaton Square nem sequer é uma zona de moda, ou especialmente badalada nas páginas cor-de-rosa. Na verdade, a única cobertura regular que recebe é na imprensa de negócios e de habitação. “Melhor zona residencial para donos de empresas com rendimentos anuais acima dos 12 milhões de libras”, “Investidor bilionário compra casa por 38,35 milhões de euros”, “Apartamento remodelado por Norman Foster no mercado por 46,75 milhões de euros”, “Estábulo à venda por 8, 4 milhões de euros”, “Imobiliária diz que não se não puder pagar mil e duzentos euros por metro quadrado é melhor procurar casa noutro bairro” estas são algumas das notícias recentes sobre Eaton Square, que mereceram enfoque no credenciado Financial Times.
Notícias que me aguçaram a curiosidade e levaram a passar um fim-de-semana às voltas em Belgravia. Afinal que casas tão excepcionais são essas que custam tanto ou mais que palacetes? Quem serão os privilegiados que vivem lá dentro? Será que essa elite endinheirada vai à rua passear o cão e socializar, ou pelo menos assoma à janela para ver quem passa? Em qualquer dos casos, espreitar os ricos sempre foi e sempre será um passatempo de pobres e remediados.
Momento 007
Fui na mira das casas, mas depressa me deixei conquistar pelos carros estacionados em frente. Lexus, Rolls Royces, mas sobretudo Jaguares Eaton Square deve ser a maior concentração de topos de gama fora de um salão automóvel. Isto no capítulo dos acabados de sair do stand, porque pelo meio o que também se vê muito são peças de museu, modelos vintage em perfeito estado de conservação.
Antiguidades assim devem valer tanto ou mais que peças de luxo em rodagem e mais provavelmente quem tem uma “casinha” por estas bandas também não tem um carro só. A única alternativa digna de nota são os novos Mínis, mas também é certo que são um compromisso entre o novo e o antigo, totalmente british e, na verdade, nada baratos.
Um “parque automóvel” desta categoria não se vê todos os dias e merece seguramente umas fotos, nem que seja para mostrar em casa. Comecei por um Mercedes Benz 220 SE (o mais próximo que os alemães produziram nos anos 60 de um carro americano) e não tardei a ganhar companhia.
Um casal de ingleses, já muito entradotes mas bem conservados e ainda mais bem vestidos, vieram ver mais de perto o que eu estava a fotografar e falar-me do filho. Aquele é o carro que eles lhe ofereceram quando ele tirou a carta e que agora só guia quando os vai visitar uma vez por ano, descolando da sua ilha privada ou quase nas Bahamas.
Eles ficaram por ali a puxar o lustre ao carro e eu aproveitei a embalagem para continuar a fotografar grandes máquinas, desta feita optando por últimos modelos. Às tantas concentrei-me num esplêndido BMW Z4 coupé, preto metalizado, só para voltar a ser interpelado, desta feita por uma esplêndida loira platinada.
Começou por acelerar a toda a força em ponto morto para chamar a atenção, enquanto corria os vidros automáticos. Depois lançoume um sorriso letal, aproveitando para me perguntar se não tinha nada de melhor para ocupar o meu tempo e quem é que me tinha encomendado o serviço.
Perguntas articuladas num inglês sem erros, mas com uma pronúncia inequivocamente de Leste. Foi uma grande comoção, provavelmente a única experiência 007 da minha vida. Quando ela arrancou a toda a mecha com os pneus a guinchar, fiquei sem perceber se deveria começar a correr, se esperar pelos rottweiler que com certeza iria largar para me limparem o sebo. Pelo sim pelo não, decidi virar na primeira esquina e recolher ao café mais próximo. Na verdade, não há assim tantos nas redondezas e o único que encontrei aberto foi o TomTom (83, Elizabeth St.), clássico café de esquina à inglesa, que naquela manhã ensolarada tinha naturalmente a esplanada cheia. Acabei por partilhar a mesa e meter conversa com o Adrian, um advogado de quarenta e poucos anos que reside em Eaton Square.
Adrian trabalha em Temple, meia dúzia de paragens de metro ou uma hora a pé daqui. Antes, porém, vivia nos subúrbios semirurais da cidade e quando saía tarde do escritório (o que ainda lhe acontece com frequência) chegava a casa já de noite. Com a certeza, porém, de ter de voltar a fazer o mesmo percurso de manhãzinha, em sentido inverso. Daí a opção de se mudar para Eaton Square, ou seja, para o centro de Londres, no início da década passada. Se fosse agora, no entanto, não teria os meios para o fazer. Ele até está a ganhar melhor, mas nada que se aproxime da fasquia que atingiu o metro quadrado nesta parte de Londres. O advogado mostra sentido de humor e não deve andar muito longe da verdade quando afi rma: “Se quisesse comprar hoje a casa em que vivo em Eaton Square não teria dinheiro para isso. Em contrapartida, se quisesse vender seria como herdar uma pequena fortuna”.
Camuflado de rosas
Tratando de evitar mais encontros com louras platinadas e carros desportivos, regressei às ruas, na senda do grão de magia que torna esta zona residencial de Londres tão especial. Belgravia foi urbanizada a partir da década de 20 do século XIX pela família Grosvenor, que ainda hoje é proprietária e administra a maior parte dos edifícios. A decisão de construir no que então eram terrenos pantanosos prende-se com a proximidade de Buckingham Palace, para o qual se havia transferido o rei George IV. Dada a necessidade estratégica de conservar a proximidade com o paço real, parte da aristocracia transferiu-se em peso para a nova vizinhança. Desde a origem, portanto, esta zona residencial foi sempre um feudo de gente endinheirada.
Eaton Square é uma das três praças ajardinadas em torno das quais o distrito de Belgravia se foi desenvolvendo. A praça de Belgrave é maior e mais majestosa, mas há muito que está ocupada por embaixadas (incluindo a portuguesa) e instituições internacionais. Já Chester conserva a matriz residencial, mas é mais pequena e intimista. A grandeza e a elegância de Eaton Square e o prodigioso estado de conservação dos edifícios contribuem para a sua actual primazia. São as filas de casas grandiosas de quatro a cinco andares, suplementados de ático, cave e estábulo, onde sobressaem os pilares e balcões estucados, a contracenar com as grelhas negras de cercas e corrimões em ferro forjado.
O género de equação de imponência com elegância que se conota com a aristocracia britânica, onde nem sequer falta o remate dos quintais bucólicos. Na circunstância ocupam os talhões centrais no rectângulo da praça e, quase escusado será dizer, o acesso é exclusivo aos moradores. No primeiro dia em que lá estive havia uma festa dada pela embaixada espanhola com lanche e madrigais a decorrer numa dessas línguas verdes da praça. Mas havia demasiados seguranças à entrada para ousar misturar-me com os convidados e no dia seguinte encontrei todos os portões fechados a cadeado.
Mesmo sem saltar a vedação, consegui infiltrar-me num jardim da praça vizinha de Chester, quando uma velhinha carregando um enorme bouquet de rosas brancas acabadas de colher se esqueceu de fechar a cancela. Fechei-a atrás de mim, para não atrair mais curiosos e poder mergulhar naquele raro escaninho de calma e de verdura, numa das cidades mais congestionadas do mundo. A este ramalhete de vantagens junta-se a localização privilegiada Belgravia é limitada por Chelsea, Knightsbridge, Buckingham Palace, Pimlico e Hyde Park e já se começa a perceber como é que as casas nesta zona de Londres atingiram valores de mercado quase ou mesmo chocantes. A explicação completa-se com um par de chaves históricas.
Mayfair era certamente uma vizinhança mais fina, antes da II Grande Guerra, mas depois teve de ceder espaço para comércio e escritórios, ou seja, perdeu cachet residencial e quem ficou a ganhar foi Eaton Square. Ao mesmo tempo, na ressaca da guerra, boa parte da aristocracia inglesa deixou de dispor de rendimentos para gerir prédios urbanos tão grandiosos, que passaram a ser postos à venda à razão de dois por andar. Hoje apenas seis destes edifícios não estão divididos, num universo de 380 moradas.
A minha incursão no jardim de Chester foi também na esperança de ganhar recuo e poder vislumbrar o interior das casas, passando despercebido no meio do arvoredo. Não voltei, de facto, a ser apanhado em flagrante, mas também não tive grande sorte, quando a maior parte dos pisos térreos exibiam vidros espelhados ou cortinas corridas. Ao contrário do que é comum nas casas inglesas, estas nem sequer têm flores ou bibelots à janela.
Que me lembre, o único objecto decorativo que vi em dezenas de janelas fechadas foi um “Love” de letras douradas, uma daquelas esculturas pop que fizeram a fama do norte-americano Robert Indiana e que, seguramente, custou tanto ou mais que uma casa num bairro mais modesto.
Impedido de espiolhar os interiores, contentei-me em passar em revista as famosas placas azuis das fachadas, daquelas que em Londres celebram os moradores mais prestigiados. Uma dessas placas recorda a famosa actriz Vivien Leigh, outras referem personalidades da vida política inglesa, incluindo dois primeirosministros e um vice-rei da Índia.
Entre os residentes notáveis dos últimos 20 anos (ainda sem placa) estão Charles Saatchi, o famoso comerciante de arte, Nigela Lawson, a sua esposa celebrizada como chefe e apresentadora de televisão, o investidor húngaro George Soros, o magnata turco cipriota Asil Nad, o bilionário russo Roman Abramovich, também principal proprietário do Chelsea, e o nosso José Mourinho, na época em que treinou aquele clube de futebol londrino.
Match Point
A maior parte da elite endinheirada com casa posta em Eaton Square odeia janelas abertas e, na verdade, qualquer espécie de exposição pública. Além dos 22 porteiros/zeladores contratados pela Grosvenor para assegurar a manutenção dos edifícios, muitos têm segurança própria e as suas casas estão apetrechadas de salas de pânico e de monitorização de câmaras de vigilância. Não admira, então, se nas ruas não se vê praticamente mais ninguém para além de amas a passear carrinhos de bebé e tipos que andam para a frente e para trás com pinta de guarda-costas. Um raro ou mesmo o único ensejo de cruzar residentes são as adstritas ruas de comércio, principalmente Motcomb Street, Pimlico Road e Elizabeth Street. A maior parte do comércio em Londres faz o essencial da caixa aos fins-de-semana, mas aqui o grosso da clientela voa para outro lado nesses dias, de forma que quase todas as lojas fecham sábado à hora de almoço.
Decidi então aproveitar a manhã de sábado para explorar o shopping de Belgravia e a primeira coisa que descobri é que nas redondezas não há uma só divisão de marcas multinacionais, apenas pequenas lojas de luxo. Elizabeth Street oferece a maior concentração destes negócios independentes-refinados, incluindo a sede londrina da casa de joalharia americana Erickson Beamon (da qual são clientes habituais Michele Obama e Lady Gaga), a chiquérrima denim mecca da australiana Donna Ida, a única padaria inglesa da cadeia parisiense Poilâne (que abastece o chefe Gordon Ramsey), e a Mango & Maud, uma loja para cães com brinquedos quase tão dispendiosos quanto os que servem para entreter os seus donos.
A estrela comercial mais cintilante da rua é, no entanto, a loja de Philip Tracey, o irlandês que reinventou a arte de desenhar chapéus e já trabalhou com toda a gente, desde Alexander McQueen a Grace Jones. O seu estabelecimento em Elizabeth Street é, na verdade, uma galeria de chapéus-esculturas, que o seu fundador defi ne como “uma pequena caixa dourada aberta ao mundo”. “Os nosso clientes vão desde uma rapariga que amealha 200€ para comprar um chapéu para a chuva até um gentleman de 70 anos que todos os verões compra 20 chapéus de alta costura para diversão das senhoras no seu iate”.
Devia justamente andar nos 70 anos de idade o “cavalheiro de fina estampa” com que me cruzei na loja de Philip Tracey. Um lamiré relâmpago às prateleiras douradas chegaram-lhe para escolher um chapéu de senhora mais caro que um recheio de casa, que mandou embrulhar sem sequer se dar ao trabalho de perguntar o preço.
Depois da sequência 007, este foi o episódio Match Point do meu filme Eaton Square. Nenhum outro cenário londrino será hoje tão cinematográfico, ou tão próximo do que se imagina serem as fantasias e paranóias das maiores fortunas planetárias.
Como ir
Situada no centro de Londres, Belgravia é servida por várias estações de metro, entre as quais Knighstbridge, Sloane Square, Hyde Park Corner e Victoria. Esta última é também uma das principais estações de comboios de Londres, dispondo de ligação directa ao aeroporto de Gatwick.
O que ver
A colecção permanente da Bellgravia Gallery (http://www.belgraviagallery.com/) conta com obras desde Chagall e Picasso a Andy Warhol e Damien Hirst, mas também com peças assinadas por Nelson Mandela e membros da família real inglesa. No capítulo dos antiquários, Gauntlett Gallery (http://www.gauntlettgallery.com/) é incontornável, com a sua extraordinária panóplia de artigos ligados ao universo dos motores e das viagens.
Onde ficar
The Tophams
As fachadas estucadas de cinco prédios vitorianos recuperaram o esplendor original, ao passo que os interiores se converteram em boutique hotel. Média de 160€ por duplo.
24-32 Ebury St. | Tel.: +44 (0) 2077303313 | http://www.zolohotels.com/
B+B Belgravia 64-66
Dois prédios bicentenários adaptados a bread & breakfast, conservado as escadas, sem elevador. Duplos desde 150€.
Ebury St. | Tel.: +44 (0) 2072598570 | http://www.bb-belgravia.com
Onde comer
Daylesford Organic
Refinadíssima merceariarestaurante, abastecida de produtos da quinta que a firma possui em Straffordshire, incluindo compotas, iogurtes e queijo cheddar. A esplanada cosmopolita e o luxo rústico do primeiro andar são outros cenários de filme. Na praceta em frente há um mercado de produtos de proximidade, aos sábados de manhã.
44b Pimlico Road | Tel.: +44 (0) 2072598570 | http://www.daylesfordorganic.com
The Thomas Cubitt 44
Belíssimo gastropub em Elizabeth Street com uma cozinha razoável e preços inflacionados. Em frente fica um vegetariano com bom aspecto e preços mais populares; porém, fechado quando lá passei.
Elizabeth St. | Tel.: +44 (0) 20 77306060 | http://www.thethomascubitt.co.uk
William Curley
A melhor loja de chocolates de Belgravia, uma verdadeira tentação.
198 Ebury St | VTel.: 0044 (0) 20 77305522 | http://www.williamcurley.co.uk
INFORMAÇÕES
Turismo Britânico
Tel.: 808 201 273
E-mail: britanico.turismo@visitbritain.org
www.visitbritain.pt