Mochilas às costas, bilhetes de comboio nas mãos, uma viagem pela Europa à vista, visitas a familiares espalhados por vários locais do espaço europeu. Mónica Ferraz era muito pequena, tinha ano e meio. Os pais aventureiros deramlhe a mão e partiram. Em Bruxelas quase era levada por argelinos que teimavam que a criança de pele morena lhes pertencia. “Comia muito mal e a minha mãe estava a distrair-me com a sopa quando esse grupo de argelinos queria levarme”. Tudo se resolveu e a família Ferraz lá continuou a sua viagem de mês e meio. Não há quase nada nessa memória de infância, mas as fotografias ajudam a contar e a refazer as histórias desses longos percursos.
No álbum de recordações, moram também as típicas viagens para o Algarve mal as aulas terminavam. Carro apetrechado, almofadas coladas aos vidros de trás, para 15 dias de férias ao sol no sul do país. Três miúdos felizes no banco traseiro. Mónica e a irmã não davam descanso aos ouvidos dos passageiros. Cantorias durante toda a viagem, quase sem intervalos.
Herdou o gosto por partir e aos 14 anos fez a primeira viagem sem os pais, com duas amigas. Foram a Vigo, Espanha, de comboio. “Era muito introvertida, ainda sou, e essa viagem foi o primeiro passo fora de casa”, recorda. Sensação de liberdade em plena adolescência. Se dúvidas houvesse, o videoclip do single do seu álbum de estreia a solo desfaz todos os equívocos.
Mónica Ferraz canta que quer ver o mundo e repete-o várias vezes no refrão da sugestiva canção Go, Go, Go. Nesse pequeno filme, sai do quarto e viaja num cavalo encantado e num balão de ar por vários continentes. Regressa ao quarto e faz as malas porque o quer mesmo é partir. O que, de quando em vez, também acontece na vida real.
Mónica Ferraz, vocalista dos Mesa, adora viajar, vontade que não passa despercebida no seu novo trabalho discográfico. Parte nas alturas em que há menos turistas nos aviões e nas estradas. A agenda de concertos não lhe permite fazer as malas nos meses quentes de Verão. Esse é o momento de mais trabalho, de mais espectáculos.
Os concertos também implicam viagens, sobretudo cá dentro. “Em Agosto, viajámos pelo país porque andamos em concertos. O que também é uma bela forma de viajar e de conhecer Portugal, que é um país bonito”. Não fazia ideia que no mapa havia uma terra chamada Marvão. Ficou deslumbrada com o que viu. “É uma cidade muito bonita, tocámos dentro de umas muralhas junto a um castelo lindíssimo”. Em cada local, há qualquer coisa a absorver. “Há sempre pequenas coisas bonitas. Um largo que tem uma fonte interessante, pequenos apontamentos que convém reter”.
A mãe é angolana. O bisavô trabalhava nos barcos e conheceu a bisavó numa viagem a Macau. Apaixonaram-se e decidiram viver em Angola. Mónica Ferraz nasceu em Portugal, mas quer conhecer Angola e Macau por óbvias razões. O trilho das suas origens mora nos seus planos de viagens. “Angola é o país da minha mãe e já ouvi muitas histórias. Toda a gente fala de Angola com muita magia”. A avó está lá. Macau chegou a estar marcado, num concerto em Agosto que acabou por ser desmarcado.
A viagem a Moçambique foi tremendamente especial. Um concerto agendado com o seu grupo de jazz, recepção à maneira no aeroporto: um grupo de miúdas vestidas de cor-derosa dançava ao som de músicas africanas. A mãe acompanhou-a nessa viagem. Saiu do aeroporto e os olhos recaíram numa zona de cubatas espalhadas por um grande descampado. Chegou a Maputo e sentiu-se bem. “É uma cidade belíssima, os edifícios estão muito bem tratados”. A cordialidade das pessoas enterneceu-a. Respirou África, sentiu África e quer explorar melhor esse continente que tem um pedacinho da sua história. Tira fotografias para mais tarde recordar e de Moçambique veio carregada de telas feitas de sacos de farinha pintadas com areia, com os dedos, mais panos com as cores de África.
Londres é um destino recorrente. “Tem uma magia, um cheiro diferente. Ao contrário do que toda a gente diz, as pessoas não são frias. Só quem nunca lá esteve é que pode pensar dessa maneira”. E reforça: “Os ingleses não são nada frios, principalmente as pessoas da minha geração, que são extremamente abertas e querem divertir-se”. Esteve recentemente na capital do Reino Unido e pôde comprovar que assim era na apresentação do seu trabalho a solo. A plateia vibrou num cenário de encantar. Mónica Ferraz cantou Go, Go, Go num barco enorme que flutuava no rio Tamisa.
“O realizador do meu vídeo vive em Londres e quis fazer uma festa de apresentação. Arranjámos então uma forma de fazê-la num sítio diferente”, explica. O seu tema já circula por algumas rádios londrinas, fi cou no ouvido e no dia da apresentação muita gente acompanhou a letra. “Trinta segundos de música e as pessoas já estavam aos pinchos”. Na Europa, Paris também merece boas referências. Uma das suas primeiras viagens foi precisamente à capital francesa. “É realmente uma cidade muito romântica”.
Esteve no Rio de Janeiro e ficou desiludida. A cidade maravilhosa só existe nas canções? Parece que sim. Sentiu-se insegura e a multidão que não pára não a sossegou. “Sou uma pessoa calma e gosto de tranquilidade. No Rio de Janeiro, há gente em todo o lado, sempre gente a querer falar”. Mesmo assim, rendeu-se às paisagens do outro lado do Atlântico.
Mónica Ferraz prefere tranquilidade. Ainda este ano, deverá viajar até à Índia. Vai ter de ser. A história do tapete voador, do mundo de encantar, não é alheia a esta vontade. Fica impressionada, de olhos arregalados, quando vê documentários e pesquisa informação sobre a Índia. “Aquelas cores... e toda a gente fala dos cheiros da Índia. É tudo meio mágico”. Mas Índia tem muitas pessoas nas ruas. “Apesar de ter muita gente, há aquele lado do incenso e dos cheiros”. Só por isso vale a pena.
Angola, Macau, Holanda. Três destinos que estão na lista da cantora, que não faz planos com muita antecedência. É quase de um dia para o outro. Não dá para fechar a porta do trabalho e partir, os concertos podem aparecer a qualquer momento. “Não dá para planear, estamos na Internet, alguém sugere, as coisas não são muito certinhas”. Por vezes, metese no carro e vai até Espanha. Gosta do país vizinho e das flores e da vegetação que encontra pelo caminho.
As viagens de eleição
Moçambique, 2000
“Fiquei muito entusiasmada com Moçambique por ter uma história para trás. Maputo é uma cidade lindíssima e as pessoas são muito cordiais”.
Londres, 2010
“Tem uma magia, um cheiro diferente. Os ingleses não são frios, as pessoas da minha geração querem divertir-se”.
Carimbo mais desejado
A viagem a Moçambique é para não mais esquecer. Uma espécie de regresso às origens, a primeira vez que colocou o pé em África. Por isso, o orgulho em ter esse carimbo. Em perspectiva, está juntar o da Índia, que provavelmente ainda este ano fará parte do seu passaporte. Macau, a terra da bisavó, está também debaixo de olho.
Bilhete de identidade
A música começou a entrar-lhe pelos ouvidos ainda era uma menina. Em casa, as aparelhagens não tinham sossego. “Os meus pais sempre ouviram muita música e eu estava sempre a cantar. Mesmo quando não sabia, inventava letras”, recorda. Hoje cria as suas próprias melodias e as letras que preenchem os sons. Sentada ao piano de cauda que tem em casa, construiu um álbum que significa a sua estreia a solo. Chama-se Start Stop e foi produzido por André Indiana. Mónica Ferraz ficou conhecida como vocalista dos Mesa, mas agora quer mostrar o seu lado de compositora num cenário onde já se movimenta com bastante à-vontade. “São as minhas músicas, quero dar a conhecer aquilo que sou a solo, como Mónica Ferraz e não como Mesa”, explica. O single Go, Go, Go já anda a circular por algumas rádios. A inspiração para as músicas pode aparecer de qualquer lado, a cada instante.
“Inspiro-me em tudo: numa cor, num barulho qualquer que ouço na rua, e consigo construir músicas”. Continua na estrada com concertos dos Mesa e agora tem mais músicas no seu repertório. Música e dança. Era muito pequena quando começou a dançar ballet. Aos três anos destacou-se na turma e recebeu um diploma da Royal Academy of Ballet and Dance. Teve aulas de sapateado com o francês Michel e aprendeu dança jazz e sevilhanas.
Começou a aprender piano e mais tarde teve aulas de canto na Escola de Jazz do Porto. “Apesar de ser muito calada e tímida, não parava”, confessa. Daí uma agenda preenchida desde tenra idade. Deu aulas de voz na Escola de Música de Aveiro, teve um grupo de jazz e pisou o palco de alguns dos mais conhecidos festivais nacionais desse género musical. Até que, um dia, encontrou-se com o músico João Pedro Coimbra e pouco depois surgia um novo grupo nacional. Em 2003, saiu o primeiro disco dos Mesa e dois anos depois o segundo. Partilhou um tema com Rui Reininho, Luz Vaga. Continua na música de pedra e cal. Não só como cantora, mas agora também como compositora.