Estar instalado à beira-mar, esperando o ir e vir das ondas, soa a exemplo perfeito de boa vida. Mas não para as criaturas que vivem na faixa costeira situada no intervalo das marés. Para elas, a subida e descida das águas representa um desafio, que exige estratégias elaboradas de adaptação. São plantas e animais que vivem no limite. E é delas que se fala no passeio A Vida Entre Marés.
Praia das Avencas, Parede, Costa do Estoril. São 9h00 de um domingo que já viu chuva mas promete algumas abertas, visíveis nos tons de azul que surgem por entre as nuvens no horizonte. O som dos carros na Marginal quase não se ouve enquanto um grupo de pessoas se junta no areal, a vista a perder-se sobre as rochas descobertas por uma maré excepcionalmente baixa. Entre adultos e crianças, faz-se silêncio, para ouvir o que os guias têm a dizer.
Joaquim Reis, Maria João Pereira e Sofia Lourenço, todos biólogos, são os cérebros e os braços de trabalho da Natuga, empresa que criaram com o intuito de divulgar o património natural e cultural do nosso país. Hoje, estão aqui para nos mostrar como é que animais e plantas conseguem ser, simultaneamente, criaturas aquáticas e terrestres. "Alguém sabe o que vamos fazer?", pergunta Sofia. "Apanhar bichos!", atira logo Sara. "Não é bem apanhar", corrige a guia, "vamos ver as poças da maré."
É claro que, para isso, temos de ter alguns cuidados. Todos estavam avisados para usarem calçado apropriado (botas de caminhada ou galochas), agora vem mais uma recomendação de segurança: "Não se corre nas rochas e não se salta!", avisa Maria João, olhando ostensivamente para os mais novos. "Ooohh!", lamenta-se André...
Mas ele sabe que tem de ser assim. As pedras estão molhadas, há rochas pontiagudas e buracos por todo o lado. E, além disso, estamos numa zona protegida e não queremos fazer mal aos animais e plantas. Todos os que forem apanhados para mostrar serão devolvidos à sua posição inicial. Todos menos o polvo que Maria João há-de "caçar" lá mais para a frente e que, assustado, salpicou a cara de André com a tinta que usa para se defender. Esse vai ser largado mais perto do mar, para evitar os caçadores que por ali andam armados de espetos metálicos, enquanto o "dálmata" André se ri da inesquecível aventura que acabou de viver.
Lapas e anémonas
A lição começa quando Joaquim aponta uma criatura que se especializou em viver agarrada às pedras, esperando que a água volte a subir. As lapas são, no fundo, como os caracóis: têm um pé (que serve como ventosa), uma concha, uma boca e até uns "corninhos" mas isto só se vê quando conseguimos soltá-las das pedras... Já os mexilhões têm uma táctica diferente, segurando-se às rochas com uns filamentos que parecem barbas, e exibem outro aspecto, a começar pelo facto de terem duas conchas que se fecham quando estão fora de água.
Mas se estes são fáceis de identificar, o mesmo não sucede com o que Sofia mostra a seguir: uma pedra com uns filamentos coloridos, fossilizados. "O que é que eu tenho na mão?", pergunta ela, perante o silêncio de miúdos e graúdos. Fosse isto um concurso e ganhava João: "É uma alga calcária!" Mas como é que ele...?