Fugas - Viagens

Nuno Ferreira Santos

Continuação: página 2 de 3

O mundo secreto das marés

Ah!, João tem 10 anos, já sabe ler e foi isso mesmo que fez: na mão tem o pequeno folheto plastificado que foi distribuído no início do passeio e onde constam ilustrações das espécies que poderíamos vir a encontrar.

Maria João Pereira mostra a lapa a Clara, que, com apenas 15 meses, acaba de estabelecer um recorde: ela é a mais jovem participante de sempre num passeio da Natuga. "Nunca fazemos mal aos animais", reforça a bióloga, "só às aves!" Bom, esta última parte é a brincar, claro. É que o pai de Clara é ornitólogo, um cientista que estuda as aves e que, no final da jornada, há-se ser "cravado" para falar um bocadinho sobre elas.

Os três guias têm a sua rotina bem montada. Enquanto um deles mostra algum animal ou planta, os outros dois pesquisam as poças em redor. E é assim que, logo a seguir, Maria João está a mexer numa anémona, mostrando os seus tentáculos coloridos. É uma parente daquela em que o peixinho Nemo e o pai viviam, na Grande Barreira de Coral australiana. "Ainda te come o dedo!", diz Sara. Ela e Simão estão a espreitar com muita atenção para a cavidade na rocha onde a anémona se recolhe à espera da maré. Mas não há perigo. As anémonas são urticantes, mas não ao ponto de nos fazerem mal.

A seguir, Joaquim fala das algas e Sofia mostra ouriços-do-mar "Não os apertem!", avisa. É que os espinhos deste bicharoco podem picar muito e eles não são fáceis de tirar dos buracos onde se abrigam. Estes parecem feitos à medida para os acomodar. E são mesmo: são os ouriços-do-mar que os escavam.

Polvos e caranguejos

A estrela seguinte é isso mesmo: uma estrela. Uma enorme estrela-do-mar que Maria João apanhou numa zona já mais próxima do limite inferior da maré. Estas grandes só se vêem assim a seco quando as águas recuam muito. Sofia aparece com outra, ainda maior. E depois apanham-se mais, diferentes, pequenas. Uma muito fininha e que, ao contrário das restantes, é frenética e passa o tempo a tentar fugir da nossa mão; outra pacata, redonda, em forma de pratinho.

Ficamos a saber que as estrelas-do-mar, quando perdem um braço (e às vezes são elas mesmo que os largam, para fugirem de um predador, como as lagartixas fazem com a cauda), conseguem que ele cresça outra vez. Sofia descobre mesmo uma, das grandes, que tem um braço muito mais pequeno, ainda a crescer.

Simão anda por ali com um objecto de plástico que parece um funil, mas com um fundo de vidro. E então Joaquim tira da mochila um aparelho parecido, mas muito maior é uma luneta e serve para espreitar para dentro de água.

Estamos nisto, à procura de peixes e camarões, quando Maria João aparece com o pequeno polvo. "Tive sorte. Levantei uma pedra e ele tentou fugir, mas, como tinha um tupperware na outra mão, ele meteu-se mesmo lá dentro!"

O polvo está inquieto, agita os braços (não se diz tentáculos!), mostra-se incomodado com a situação. E quem paga é André, que leva em cheio com um borrifo de tinta preta, que também atinge o casaco de Sara. Não há-de ser o último incidente do dia, porque um caranguejo pequenino decide agarrar-se ao dedo de Clara, que se assusta e chora. Só um bocadinho. Por esta altura, também ela já é uma veterana das paragens onde se vive no limite

--%>