As Rockies emergiram entre 65 e 100 milhões de anos atrás, quando uma gigantesca massa de rochas rompeu lenta, mas inexoravelmente, a crosta da terra. A cadeia estende-se desde o Novo México até ao Canadá, onde atinge uma extensão de 850kms, cobrindo um vasto território dividido entre os estados de Alberta e British Columbia. No Canadá, as Rockies integram trinta picos com mais de três mil metros, dramaticamente esculpidos pela erosão dos glaciares, em retracção desde há 10 mil anos atrás.
O Campo de Gelo de Columbia é, a sul do Círculo Árctico, o maior testemunho remanescente dessa última época glaciar. Cobre 325 kms2 de altos planaltos, uma gigantesca mancha branca formada pela acumulação de camadas de neve (cresceu sempre que a quantidade caída no Inverno foi superior à derretida no Verão), depois compactadas e transformadas em cristais de gelo. É uma área onde poderia caber toda a população da América do Norte, mas remota e de difícil acesso, que nem sequer se vislumbra das (raras) estradas nas redondezas.
Bem visíveis são, em contrapartida, os grossos novelos brancos suspensos do alto das montanhas, a rede de glaciares adstrita formada graças ao movimento de camadas de gelo sobrepostas. Mais de uma centena de glaciares dimanam do Campo de Gelo da Columbia, fazendo das Canadian Rockies a segunda maior atracção natural do país (logo a seguir às Cataratas do Niagara). É também um cartaz que corre o sério risco de caminhar para as últimas exibições, quando as Rockies funcionam como outra confirmação alarmante do recuo dos glaciares. Há especialistas que vaticinam o seu completo desaparecimento por volta de 2050.
Fotogenia de risco
O glaciar mais acessível das Rockies é o Athabasca, a meio caminho de Lake Louise (105kms a sul) e Jasper (125kms a norte). Vê-se perfeitamente da estrada nacional que liga as duas cidades e melhor ainda da esplanada do centro de interpretação à sua beira. A paisagem é dominada pelas imponentes silhuetas negras do Monte Athabasca (3.491 metros) e do Monte Andromeda (3.444 metros) à esquerda, enquanto à direita espreita o pico de outro grande glaciar, o Snow Dome. O Athabasca corre a meio, uma língua gelada com uma superfície de 6 kms2, que se alonga por 7 kms, atingindo uma profundidade máxima de 300 metros.
As condições atmosféricas são aqui híper-voláteis e, num momento, a superfície glaciar é tão resplandecente que só se pode enfrentar de óculos escuros, para, no seguinte, se cobrir de brumas fantasmagóricas. Completam o postal morainas formadas por sedimentos resultantes da movimentação glaciar, umas paralelas às linhas laterais do vale, outras rematando-lhe a base. Aos pés desta moraina terminal encontra-se um lago, alimentado pelo descongelamento do gelo. É nesta moldura, ou melhor, no ostensivo crescimento da moraina e do lago adstrito que se vai tirando o pulso ao aquecimento global. Há 150 anos, o lago não passava de um charco, desde finais do século XIX, o glaciar retraiu-se quilómetro e meio, tendo o ritmo de recuo crescido desde 1989, cotando-se actualmente em cerca de 5 metros por ano.
A beleza natural, a acessibilidade mais o atractivo (mórbido) da maravilha-em-vias-de-extinção justificam a popularidade do Athabasca, sendo comuns no pico do Verão as concentrações de caravanas nas imediações do lago. Há trilhos na moraina terminal até ao manto de gelo, mas também uma cerca que indica o fim do perímetro de segurança. O problema deriva das diferenças no fluir do gelo consoante os níveis do glaciar e se nas camadas inferiores vai enrijecendo, já nas camadas superiores a tendência é para rachar. Há nada menos de 30 mil fendas no Athabasca, algumas muito fundas e o mais fácil é dar um passo traiçoeiro, cair a vários metros de profundidade e correr o risco de morrer de hipotermia.
As alternativas são fazer um "trekking" com um guia experimentado (três a seis horas, com a empresa Glacier Icewalks, começa nos 40€), ou ir em excursão de autocarro (hora e meia, com a Brewster Inc., 25€). O autocarro com tracção a quatro rodas sai do centro de interpretação, escala a montanha pela moraina lateral esquerda e faz uma única paragem, despejando os passageiros durante meia hora mesmo no coração do glaciar. É difícil perceber se o peso e o trânsito constante das viaturas condicionam ainda mais a conservação do glaciar, mas é verdade que andar lá em cima é uma experiência transcendente.
Fama e classificação
O Athabasca é um dos muitos glaciares das Rockies, porventura menos fáceis de alcançar mas tão ou mais grandiosos e fotogénicos. No parque de Banff, destaca-se o Saskatchewan, o maior vale glaciar produzido pelo Columbia Icefield, atingindo uma largura próxima dos 2kms, e o Peyto, que cobre um arco montanhoso de cerca de 12kms Mais a norte, no parque de Jasper, as atenções recaem no Glacier Angel, colar de gelo disseminado pela face norte de Mont Edith Cavell.
O majestoso colar de glaciares e os picos esculturais que lhe presidem, a impressionante constelação de rios, lagos, cascatas, gargantas e grutas que deles derivam, tudo envolto por prados alpinos e florestas cerradas que conservam uma profusa vida selvagem, conjugam-se para fazer das Canadian Rockies um cenário de montanha absolutamente extraordinário, único no planeta inteiro. Encantos que justificaram a classificação de vastas áreas como paisagem protegida, primeiro pelo governo federal e mais recentemente pela Unesco. Há quatro parques nacionais (Banff, Jasper, Kootenay e Yoko) que se colam uns aos outros, formando uma mancha alongada de nordeste para sudeste, mais três parques regionais, satélites dos primeiros (Mont Robson, Mount Assiniboine e Hamber). O conjunto é suplementado mais a sul pelo parque nacional de Waterson, o único não englobado na classificação da Unesco.
O estatuto de protecção garante que as paisagens das Rockies se conservam na maior parte em estado prístino, sobretudo no chamado "back country", longe das cidades e das estradas. Os parques não têm lotação máxima, mas a tabela de preços tem contribuído para estabilizar e mesmo reduzir a média anual de cinco milhões de visitantes, registada no início desta década. Hotéis e restaurantes custam em geral muito mais do que valem. De resto, a entrada diária é paga nos cinco parques nacionais e custa 7€ por adulto, ou 15 por grupos de dois a dez.
Banff é o mais célebre e foi também o primeiro parque estabelecido nas Rockies, em 1885, o que na verdade faz dele o primeiro dos 39 parques nacionais do Canadá. A intervenção do governo federal pôr termo à disputa sobre os direitos de exploração das nascentes de água quente de Banff, então recém descobertas e hoje uma das muitas atracções da cidade, que recebe a maior parte dos três milhões e meio que anualmente visitam o parque. A cidade oferece desde galerias de arte a todo um sortido de diversões familiares, passando por lojas de cadeia e hotéis com as estrelas todas.
Banff é, portanto, o que as Rockies têm de mais parecido com uma Disneylândia no gelo. Isso não impede que o parque de 6,641 kms2 integre alguns dos enclaves mais sublimes das Rockies. Um dos melhores balcões, porventura o melhor para uma visão de conjunto sobre o vale de Bow em que a cidade se inscreve, é o alto da montanha de Sulphur, que se atinge numa viagem de teleférico de oito minutos (ou a pé, subindo cinco quilómetros). O terminal em forma de nave espacial dá acesso a um passadiço que se alonga por 500 metros, seguindo a crista da montanha até ao seu pico, a 2.282 metros, proporcionando vistas inebriantes sobre a cidade atravessada pelo rio, os lagos adjacentes e o colar de 17 picos que delimitam o vale.
O factor selvagem
Prolongamento natural de Banff para norte, Jasper é o maior parque das Rockies, cobrindo uma área de 10.800 kms2. Pode não ter atracções tão cintilantes quanto o seu vizinho meridional, mas, em contrapartida, este parque é muito mais selvagem e bem menos concorrido recebe 1,7 milhões de visitantes anuais, ou seja, menos de metade de Banff. A diferença é logo evidente na cidade principal, pouco mais de meia dúzia de ruas, recortadas paralelamente à estação de caminhos-de-ferro, que primeiro justificou o assentamento há pouco mais de um século (1907).
Tal como em Banff, as melhores vistas panorâmicas sobre Jasper atingem-se graças a um teleférico, que na circunstância escala a montanha de Whistler, dez minutos a sul do centro urbano. O próprio Jasper Tramway é uma experiência que vale por si, quando se trata do mais alto e mais longo (dois mil metros de cordas, 6 metros cobertos por segundo) teleférico do Canadá. Do terminal superior, a 2.277 metros de altitude, parte um trilho até ao cume a 2.470 metros, caminho íngreme e desprotegido (quase a antítese da comodidade do passadiço no alto da montanha Sulphur), sujeito a condições atmosféricas quase sempre extremas (ventos fortes, queda de neve e temperaturas negativas são comuns no Verão). Não admira, assim, que a maior parte dos visitantes não chegue a descolar do salão de chá no terminal superior, mas mesmo daí são sublimes as vistas em picado sobre o vale, onde se destaca um colar de lagos esplêndidos (Pyramid, Patricia, Edith, Maligne e Medicine), boa parte dos quais são maiores do que o modesto núcleo urbano.
A minoria que enfrenta a adversidade e chega ao topo da Whistler é premiada com vistas estonteantes sobre Mount Robson, que, com os 3.954 metros acima do nível do mar, é a montanha mais alta das Rockies.
Os outros três parques nacionais são menos extensos e menos visitados ainda. Yoko, 1.313 kms2 recortados na ponta ocidental da cordilheira, é sobretudo famoso por Burguess Shale, leito de fósseis marinhos especialmente bem conservado e testemunho excepcional da abundante vida marinha há 540 milhões de anos atrás (as visitas são guiadas e o acesso restrito a grupos de dezena e meia). Kooteney, a sul do parque de Yoko e a oeste do de Banff, tem como maior atracção as nascentes de Radium Hot Springs, com piscinas onde se toma banho em dias de neve a 39ºC. O vale em torno do qual se circunscrevem os 1.406 kms2 do parque de Kooteney sofreu em 2003 um dos piores incêndios de que há registo nas Rockies, e ainda hoje a desolação persiste como um inquietante testemunho do aquecimento global. Finalmente, o parque de Kananaskis (4.250km2), 60kms a sul do parque de Banff, ilustra a paisagem de transição entre a montanha e as planícies, oferecendo o benefício adicional de ser praticamente só frequentado por locais.
Paisagens e bichos
Se os encantos das Rockies são todos ou quase todos naturais, não é menos certo que as estradas são parte integrante do espectáculo. É sobretudo o caso da Highway 93, mais conhecida por Passeio dos Campos de Gelo, que liga Jasper e Lake Louise. São 230kms que levam pouco mais de três horas a percorrer de uma assentada, mas que pelo caminho oferecem tanto deslumbramento que requerem, no mínimo, um dia de viagem. A estrada, lançada para criar trabalho durante a Depressão dos anos 1930, foi justamente desenhada para dar a usufruir as montanhas. Daí a larga rede de estacionamentos, que são eles próprios miradouros, ou então pontos de partida para curtos desvios (rodoviários ou pedonais) até alguns dos mais transcendentes recantos das Rockies.
Para quem sai de Jasper, as primeiras paragens obrigatórias são quedas de águas: as de Athabasca (km. 30) com um desnível de apenas 25 metros, mas onde o rio ganha uma embalagem torrencial de encontro a gargantas apertadas, e as de Sunwapta (km. 55), que fazem toda a justiça ao nome índio de "águas turbulentas". Depois, passando o glaciar de Athabasca, ou melhor, fazendo um curto desvio, 13kms a sul do seu centro de interpretação, encontram-se as cataratas de Bridal Veil e Panther com nada menos de 180 metros de altura. A estrada atinge o ponto mais alto em Bow Summit (2.068 metros de altitude, 42kms a norte de Lake Louise), do qual parte um trilho pedonal até outro miradouro com vistas de cortar a respiração. Uma cortina de montanhas de picos aguçados é decorada pelos glaciares, donde deriva o cintilante lago de Peyto e o rio Mistaya, que, um pouco mais a norte, produz os assombrosos "canyons" do mesmo nome. O lago Peyto rivaliza em formosura com outros dois mais a sul: Lake Louise, o mais célebre, 2,5kms por 500 metros de azul turquesa, onde se reflecte um semicírculo de montanhas carregadas de glaciares, e o não menos fotogénico Lake Moraine, sinuosamente recortado ao longo do Vale dos Dez Picos.
A Highway 93 são as vistas, mas são também os animais, e raras são as estradas canadianas que proporcionam tantas oportunidades de avistar vida selvagem, incluindo ursos, alces, cabras de montanha, caribus, coiotes e veados. Isto para além dos omnipresentes castores e esquilos, mais um batalhão de aves que se observam em grande número em qualquer parque de estacionamento. Claro que a presença humana, as filas de carros parados à beira da estrada sempre que aparece um mamífero de grande porte, mais as pessoas que insistem em alimentá-los contra todas as advertências, enerva e perverte o seu comportamento. É o preço a pagar para manter aberta uma das estradas mais selvagens do mundo.
Quando ir
A maior parte das estradas são cortadas e os trilhos fechados nos parques nacionais, de meados de Setembro até Maio, tanto por questões de segurança como de defesa da vida selvagem. A não ser que vá para fazer desportos de Inverno, é preferível visitar as Rockies na outra metade do ano. Em Junho, ainda há muita neve; em Setembro, as florestas oferecem um colorido mais vibrante.
Como ir
A Air Canada (em codeshare com a TAP) liga Lisboa e Calgary a partir de 745€. Calgary, cidade requintada que também merece uma visita, fica 12 kms, a ocidente de Banff. A gare ferroviária de Jasper serve a linha que atravessa o Canadá de costa a costa.
Como circular
Para visitar as Canadian Rockies, é quase obrigatório alugar carro, a não ser que se tenha tempo e condição física para fazer centenas de quilómetros de bicicleta (o que, de resto, até é uma opção bastante popular). Uma vez que os hotéis não são nada em conta, a alternativa dois em um é alugar uma caravana.
Onde ficar
Claro que nem todos os hotéis das Rockies são cinco estrelas, mas mesmo em casas privadas é difícil alugar quartos abaixo dos 80€. Ao longo das estradas nacionais, quase só há parques de campismo e de caravanas.
O que comer
As Rockies não primam pelas moradas recomendáveis para bons garfos, menos ainda para turistas de orçamento apertado. Já os supermercados (que servem comida quente) são muito aceitáveis.