Fugas - Viagens

Luís Maio

Canadian Rockies - Os glaciares e outras belezas ameaçadas

Por Luís Maio

As Rockies atingem no Canadá o apogeu do esplendor selvagem. O pior é o resto, ou seja, os glaciares a minguar, as florestas reduzidas a escombros, a pressão que os bichos cada vez mais enfrentam. A Fugas veio de lá deslumbrada, mas também a perguntar-se se não teria sido melhor ficar em casa.

As Rockies emergiram entre 65 e 100 milhões de anos atrás, quando uma gigantesca massa de rochas rompeu lenta, mas inexoravelmente, a crosta da terra. A cadeia estende-se desde o Novo México até ao Canadá, onde atinge uma extensão de 850kms, cobrindo um vasto território dividido entre os estados de Alberta e British Columbia. No Canadá, as Rockies integram trinta picos com mais de três mil metros, dramaticamente esculpidos pela erosão dos glaciares, em retracção desde há 10 mil anos atrás.

O Campo de Gelo de Columbia é, a sul do Círculo Árctico, o maior testemunho remanescente dessa última época glaciar. Cobre 325 kms2 de altos planaltos, uma gigantesca mancha branca formada pela acumulação de camadas de neve (cresceu sempre que a quantidade caída no Inverno foi superior à derretida no Verão), depois compactadas e transformadas em cristais de gelo. É uma área onde poderia caber toda a população da América do Norte, mas remota e de difícil acesso, que nem sequer se vislumbra das (raras) estradas nas redondezas.

Bem visíveis são, em contrapartida, os grossos novelos brancos suspensos do alto das montanhas, a rede de glaciares adstrita formada graças ao movimento de camadas de gelo sobrepostas. Mais de uma centena de glaciares dimanam do Campo de Gelo da Columbia, fazendo das Canadian Rockies a segunda maior atracção natural do país (logo a seguir às Cataratas do Niagara). É também um cartaz que corre o sério risco de caminhar para as últimas exibições, quando as Rockies funcionam como outra confirmação alarmante do recuo dos glaciares. Há especialistas que vaticinam o seu completo desaparecimento por volta de 2050.

Fotogenia de risco

O glaciar mais acessível das Rockies é o Athabasca, a meio caminho de Lake Louise (105kms a sul) e Jasper (125kms a norte). Vê-se perfeitamente da estrada nacional que liga as duas cidades e melhor ainda da esplanada do centro de interpretação à sua beira. A paisagem é dominada pelas imponentes silhuetas negras do Monte Athabasca (3.491 metros) e do Monte Andromeda (3.444 metros) à esquerda, enquanto à direita espreita o pico de outro grande glaciar, o Snow Dome. O Athabasca corre a meio, uma língua gelada com uma superfície de 6 kms2, que se alonga por 7 kms, atingindo uma profundidade máxima de 300 metros.

As condições atmosféricas são aqui híper-voláteis e, num momento, a superfície glaciar é tão resplandecente que só se pode enfrentar de óculos escuros, para, no seguinte, se cobrir de brumas fantasmagóricas. Completam o postal morainas formadas por sedimentos resultantes da movimentação glaciar, umas paralelas às linhas laterais do vale, outras rematando-lhe a base. Aos pés desta moraina terminal encontra-se um lago, alimentado pelo descongelamento do gelo. É nesta moldura, ou melhor, no ostensivo crescimento da moraina e do lago adstrito que se vai tirando o pulso ao aquecimento global. Há 150 anos, o lago não passava de um charco, desde finais do século XIX, o glaciar retraiu-se quilómetro e meio, tendo o ritmo de recuo crescido desde 1989, cotando-se actualmente em cerca de 5 metros por ano.

--%>