Não será um segredo bem guardado, mas o estuário do Maracaípe também não é vítima do assédio turístico que se testemunha na vizinha Porto Galinhas, quatro quilómetros a norte. Mais o género de praia procurada pelas famílias do Recife (57 km) que aqui abancam para um fim-de-semana sossegado. As águas são da mais completa placidez, permitindo deixar as crianças à vontade, e tão quentes que as cadeiras e chapéus de solo são instalados já dentro de água.
Magia num boião
A animação neste estuário de tranquilidade consiste em apanhar uma das coloridas jangadas atracadas junto ao Bar do Pontal (designação correcta, visto que é exemplar único). A excursão passa por navegar rio acima e descobrir a biodiversidade do mangue, incluindo camarões miúdos designado de aratanhas, caranguejos acinzentados chamados aratus e cavalos-marinhos. O jangadeiro de serviço começa por avisar que não é seguro encontrá-los - e talvez haja um ou outro caso em que isso não acontece. Mas a advertência deve ser sobretudo para criar expectativa, uma vez que os peixes em causa não primam pela mobilidade, podendo frequentemente ser encontrados nos mesmos sítios. É, aliás, por não se darem bem nas águas agitadas do mar, que os cavalos-marinhos procuram recifes e estuários fluviais.
Lançada a bóia, algures num recanto da margem não habitada do rio, o jangadeiro coloca uma máscara e despede-se dos clientes. As águas têm de estar razoavelmente limpas, de contrário os cavalos-marinhos não sobreviveriam. Mesmo assim são águas com muitos sedimentos à mistura, que não permitem enxergar à vista desarmada o fundo pouco profundo. É aí precisamente que se encontram os cavalos-marinhos, que têm uma cauda preênsil, sem barbatanas, de forma a ancorarem no substrato fluvial e assim ganharem mais estabilidade. Claro que o jangadeiro, agora nos seus 30 anos de idade, deve ter passado a vida inteira a treinar a vista nestas águas diáfanas e passados menos de cinco minutos reemerge, desta feita com um boião cheio de água e dois cavalos-marinhos lá dentro.
O boião passa de mão em mão, enquanto o próprio jangadeiro vai disparando informação útil sobre os bichos. Com especial ênfase nos seus hábitos sexuais, o acasalamento monogâmico e a gravidez dos machos, ou pelo menos essa parte exótica parece ser aquela que a memória melhor retém. Porque o momento em que o frasco passa para a nossa mão, em que colamos o nariz contra o vidro e engatamos numa espécie de sintonia com aquelas criaturas de anatomia insólita, tudo o resto à volta desaparece. Enquanto essa suposta sintonia dura não há mais nada, nem mais ninguém, o mundo pára e só voltamos a despertar quando alguém nos toca no ombro...para não esquecermos de passar o boião.
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Cavalos-marinhos e outras belezas litorais de Pernambuco