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Filipe Arruda

Red Bull X-Alps, voar com os pés bem assentes na terra

Por Luís Francisco

Durante quase duas semanas, 32 atletas de 23 países vão olhar os Alpes de cima. Ou nem por isso. O desafio do Red Bull X-Alps concilia o parapente com a progressão a pé ao longo de uma paisagem única. E, nesta odisseia radical, estreia-se um participante português, Nuno Virgílio.

Quando se juntam três dezenas dos melhores atletas mundiais numa especialidade e só dois conseguem completar a prova, facilmente se percebe que estamos perante um evento muito especial. O Red Bull X-Alps não é para frouxos nem para diletantes. Nesta aventura, que se realiza a cada dois anos, o desafio físico e mental é extremo. E, pela primeira vez, há um português que o assume. Desde domingo, 32 atletas vivem a aventura de atravessarem os Alpes em parapente e a pé.

Durante anos, Nuno Virgílio acompanhou a mais radical competição mundial de parapente à distância. "Desde a primeira edição", confirma. "Só pensava que um dia também queria ser assim e, à medida que a minha carreira como piloto de parapente se foi consolidando, comecei a pensar: 'Por que não cumprir o sonho?'" Com o mar do Meco ao fundo, numa tarde ensolarada mas de nortada incessante, o piloto português fala aos jornalistas a poucos dias de alinhar à partida da competição que se habituou a admirar à distância.

Sonhar foi importante, mas houve muito trabalho para chegar aqui. A organização não se limita a aceitar inscrições: selecciona os participantes com base no seu currículo e habilitações. Não basta ser bom no parapente; há que provar que se dominam técnicas de progressão em montanha, uma vez que aos participantes estão permitidas apenas duas formas de cumprir o percurso: a pé ou a voar de parapente. A capacidade para equilibrar estes dois estilos tão distintos de progressão pode ser a chave do sucesso.

Mas há mais, muito mais. O Red Bull X-Alps é, acima de tudo, uma maratona, uma odisseia alpina que pode durar semana e meia para os mais rápidos. E quando o primeiro corta a meta fica estabelecido um prazo de 48 horas até ser decretado o final da competição. Os que não chegaram entretanto à meta são classificados conforme a sua posição ao longo do percurso - e não há qualquer desonra nisso: em 2009, na última edição da prova, só mesmo os dois primeiros cumpriram a totalidade do trajecto.

Este ano serão 864 quilómetros entre Salzburgo, na Áustria, e o Mónaco. Mas isto é em linha recta, num percurso que levará, forçosamente, os concorrentes a passar por oito pontos de controlo, por terra ou pelo ar. E que segue a linha dos picos mais altos da cordilheira no sentido Leste/Oeste. Até ao Monte Branco, o sétimo ponto de controlo, o último a passar em cada uma destas balizas será desclassificado. E ninguém pode progredir entre as 23h00 e as 4h00 da manhã seguinte. Esta última regra surge em 2011 por causa da experiência acumulada em edições anteriores.

A pressão competitiva levava muitos atletas a obliterarem períodos de descanso, o que lhes retirava discernimento e concentração - duas das virtudes fundamentais para reduzir riscos em montanha. Por isso, a organização decidiu impor um "cessar-fogo" diário. Como todos os concorrentes levam consigo aparelhos de geolocalização, será fácil detectar ilegalidades.

(E também torna possível aos adeptos seguirem a prova em tempo real. Aliás, os concorrentes estão obrigados a fazer um diário, dar entrevistas e fornecer material vídeo ao longo de toda a prova.)

O segundo elemento

Cada equipa tem dois elementos, o participante e o assistente, responsável pelo apoio logístico ao longo de toda a prova. No caso português, Nuno Virgílio, 31 anos, terá em Samuel Lopes, 44, o seu "anjo da guarda". Carregar material não essencial, cozinhar refeições, conduzir a autocaravana onde (esperam eles!) deverão passar a maior parte das noites, fornecer informações sobre a meteorologia e aconselhar sobre a táctica de voo são apenas algumas das tarefas do número dois da equipa. Para estarem à altura do desafio, tiveram de treinar no duro. "E eu mais do que ele...", queixa-se Samuel.

Com um impressionante currículo no parapente, em que se destaca o recorde nacional de distância, conseguido em Junho de 2010 com um "passeio" de 248 quilómetros entre a serra da Estrela e a Vidigueira, no Alentejo, Nuno está à vontade entre a elite mundial da especialidade. Mas o Red Bull X-Alps é muito mais do que uma prova de voo. Apesar de o trajecto ser medido em linha recta, ninguém consegue cumpri-lo assim. O mínimo já conseguido (e numa edição mais curta do que a deste ano) por um vencedor foi à volta dos 1300 quilómetros... Parte deles a pé. E é por isso que há muitos ultramaratonistas inscritos. Conseguir voar em 60 por cento do percurso já será uma marca notável. O resto implica progressão por trilhos exigentes, no melhor dos cenários.

Escarpas, glaciares, pendentes radicais aparecerão no caminho dos participantes. Para Nuno foi fundamental aprender com Samuel algumas técnicas de montanha e o seu plano de treinos teve ainda o bónus de encontrarem o alpinista João Garcia nos Pirenéus. Nuno, que em prova carregará uma mochila com 10 a 12 quilos (onde transporta a sua asa, capacete e outros artigos essenciais), treinou-se intensamente. Uma hora e meia de ginásio por dia, sessões semanais de seis ou mais horas de voo e caminhada na serra da Arrábida, uma data semanal para técnicas de montanha, expedições em altitude. E tudo sob o olhar atento de Fernando Pereira, especialista em fisiologia do esforço e investigador da Faculdade de Motricidade Humana.

Desde domingo, nos Alpes, Nuno enfrenta o desafio de voar entre três e sete horas por dia, mais umas quantas a progredir de pés no chão. Estar nos sítios certos para levantar voo às horas certas, ser capaz de domar a meteorologia caprichosa dos vales alpinos para prolongar os voos, manter a capacidade física para seguir em frente e enfrentar as adversidades sem fraquejar psicologicamente são, por si só, desafios tremendos. Por isso, entrar em competição com os grandes craques (os pilotos dos países alpinos têm dominado a prova, graças ao seu conhecimento profundo do terreno) acaba por vir em plano secundário.

Seja como for, Nuno Virgílio conta com a força anímica de quem está a cumprir um sonho e com o apoio incondicional do seu ajudante, Samuel Lopes, piloto e instrutor de parapente, montanhista, estratega e conselheiro. E ainda motorista, carregador, cozinheiro. Pelo sim pelo não, muita da comida irá enlatada de Portugal. "Feijão, grão...", começa a enumerar Samuel. "Mousse de chocolate... não te esqueças da mousse!", lança-lhe Nuno.

Para quem queimou entre seis e sete mil calorias por dia nos treinos mais intensos, é capaz de ser um mimo bem merecido.

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