Chegar cedo à praia e descobrir um extenso areal com a água lá longe, num dos ciclos de maré vazia, pode ser muito gratificante. Naquele horário matinal de benevolência solar sente-se que muita gente tem gosto em caminhar sobre a areia dura e molhada. E caminha-se na direcção da atracção especial das manhãs de Monte Gordo, concelho de Vila Real de Santo António - a faina da pesca, uma verdadeira aula de vida desconhecida para centenas de pessoas.
Observar as movimentações de homens e máquinas, das redes com peixe e do frenesim das gaivotas, da curiosidade das crianças e dos avós, faz-nos pensar que, afinal, aqueles momentos fazem mesmo parte de nós, que serão memória e cultura insubstituíveis. Que somos e sempre seremos (ou quereremos ser) artesanais.
Na ponta a poente da praia, uma dúzia de embarcações de fibra com motor fora de borda está em plena actividade, fazendo surtidas consecutivas para recolher e repor as artes de amalho, em águas não distantes. Tornam rápido, abicam à praia e o tractor puxa-os para a segurança do areal e reboca-os para junto da sua companha e haveres. Fazem isto vezes sem conta ao longo de toda a maré baixa.
E ali prossegue a aula, dada pelas mãos dos pescadores, que recolhem o peixe por entre as malhas da rede. Chocos, bailas, sargos, de tudo um pouco, estrelas-do-mar, a rede é uma armadilha, a fonte de vida de homens que se recusam a fazer outra coisa.
Aquela gente na praia é curiosa, faz perguntas, os homens respondem. E até aproveita alguma coisa que não terá valor comercial na lota. Os avós apontam, as crianças olham sem disfarçar espanto.
Ainda acontecem pequenas magias em locais tão simples. Basta que andemos com os olhos abertos e que sejamos curiosos.