Fugas - Viagens

Calvario, Lorenzo de Ávila e Alonso de Tejerina

Calvario, Lorenzo de Ávila e Alonso de Tejerina DR

Por Castela e Leão, sob o mote da "Paixão"

Por Sérgio C. Andrade

O pretexto para esta viagem pode muito bem ser a visita à monumental exposição de arte religiosa "Paixão", que está distribuída por duas catedrais de Medina de Rioseco e de Medina del Campo. Mas há outras boas razões para uma passagem, com paragem, em Valladolid e nas terras vizinhas. A Fugas deixa-lhe um roteiro possível para esta ida à capital de Castela e Leão recheada de História.

Quantas vezes o leitor que atravessou Espanha a caminho de França, no percurso via Salamanca-Burgos, parou em Valladolid? Era uma cidade que víamos à direita, do outro lado de um afluente do Douro, e na qual raramente reparávamos: era ainda demasiado perto do local de partida, ou então já tão próximo da chegada, que nos abstínhamos de "perder tempo" nesta terra que nos parecia apenas um indiferenciado intervalo urbano numa vasta planície pontuada por pinhais, vinhas, maias e campos de papoilas (no tempo delas, claro). E, no entanto, vale a pena parar em Valladolid. E viver a cidade por dentro.

A capital de Castela e Leão tem uma mão-cheia de boas razões que justificam atenção. Tem muita História, inscrita num vasto património recortado em mais de uma dezena de castelos e outras tantas catedrais, igrejas, conventos e museus, com destaque para o Museu Nacional de Escultura, o mais importante de Espanha. E tem uma mão-cheia de outras atracções mais próximas do nosso tempo, que lhe dão o cosmopolitismo de uma vida cultural intensa, passando pelo seu festival de cinema, lançado há mais de meio século e que é dos mais antigos da Europa, e por outro certame internacional mais recente dedicado ao teatro e às artes da rua. Tem igualmente um Centro Cultural - designado Miguel Delibes (1920-2010) em homenagem ao mais ilustre escritor da terra -, projectado pelo arquitecto catalão Ricardo Boffil. Inaugurada em 2007, esta moderna casa da música possui um grande auditório de mais de mil lugares, que é a sede da Orquestra Sinfónica de Castela e Leão, além de palco para concertos dos principais nomes mundiais da música.

Valladolid fica a escassas duas centenas de quilómetros da fronteira portuguesa (Quintanilha ou Vilar Formoso). Apesar disso - ou talvez por isso - , é de França e da Alemanha que a cidade recebe o maior número de visitantes. A consciência da desatenção que os portugueses votam a este destino terá certamente pesado na decisão do Turismo local de convidar a Fugas a integrar uma delegação de jornalistas de todo o mundo para uma curta visita a Valladolid, a pretexto da realização de mais uma edição da exposição Passio/Edades del Hombre.

Nessa altura, tinha já passado o tempo da Semana Santa, que constitui um dos principais cartazes turísticos de uma região em que o fervor religioso deixou evidentes marcas patrimoniais, nomeadamente em cidades como Medina de Rioseco e Medina del Campo, ambas a escassas dezenas de quilómetros de Valladolid.

São estas duas localidades que acolhem este ano (até ao dia 6 de Novembro) a 16.ª edição da exposição Paixão, que pela primeira vez se divide por dois lugares diferentes, mas celebrando sempre o notável acervo histórico-religioso desta província do oeste de Espanha.

Capital do reino

Mas comecemos por Valladolid. A cidade já viveu tempos gloriosos, principalmente no século XVI e XVII, quando, por decisão de Filipe III, chegou a ser capital de Espanha durante escassos seis anos (1601-06), numa altura em que o reino incluía Portugal.

Quatro figuras de relevância histórica mundial viveram ou passaram por esta terra nesses tempos: a rainha Isabel, a Católica (1451-1504), que com Fernando II de Aragão (1452-1516) formou o par dos designados "Reis Católicos", responsáveis pela unificação do Reino de Espanha; Filipe II, que aí nasceu em 1527, e que em 1580 viria a reinar também sobre Portugal; o navegador Cristóvão Colombo (1415-1506), descobridor da América, que morreu mesmo em Valladolid, o pouso definitivo dos seus restos mortais - que terão passado por Sevilha, Cuba e República Dominicana - mantendo-se ainda hoje envolto em mistério; e Miguel de Cervantes (1547-1616), o celebrado autor de D. Quixote, que habitou na capital entre 1604-06, precisamente os anos que coincidiram com a primeira edição da sua obra-prima (1605).

Duas casas-museus testemunham a relação destas figuras com Valladolid, reconstituindo a atmosfera da época e documentando as vidas e feitos dos respectivos habitantes.

Mas os testemunhos mais notórios do desenvolvimento e mesmo do fausto em que a capital de Castela e Leão viveu nessa época de expansão e de comércio com as Américas são as dezenas de palácios e edifícios religiosos que a povoam. Dos primeiros, merece destaque o Palácio Real, um edifício de estilo plateresco (o equivalente, em Espanha, ao manuelino), que foi corte dos reis nos anos em que a cidade foi capital do reino. Dos segundos, a catedral de Nossa Senhora da Assunção é um caso curioso (e atípico) de miscigenação estética, já que foi projectada como um templo gótico, no século XV, e nunca foi verdadeiramente acabado, tendo sofrido sucessivas intervenções até ao século XIX.

Merece ainda visita o edifício da Universidade, que vem do século XIII, sendo uma das mais antigas do mundo (foi marcante no ensino da Teologia e da Cirurgia) e ainda hoje se mantém em actividade como Faculdade de Direito.

A melhor forma de viver as cidades é, contudo, passear pelas suas ruas, e, como em quase toda a Espanha, esse percurso deve organizar-se a partir da Plaza Mayor, autêntico ex-líbris do país. A de Valladolid é considerada uma das mais belas de Espanha, logo a seguir às de Salamanca e de Madrid, e, para além da dimensão, impressiona pelos edifícios de paredes vermelhas, uma cor que se estende a inúmeras outras ruas na cidade. Segundo a explicação de um dos guias da nossa visita, essa cor "vem do tempo em que a cidade foi capital do reino", e quis associar o visual urbano ao vermelho da bandeira nacional.

Para além da Plaza Mayor, passeia-se agradavelmente no centro histórico da cidade, que parece casar bem o seu perfil monumental com o movimento quotidiano de uma metrópole onde actualmente vivem mais de 300 mil pessoas. Refira-se que Valladolid é capital da província mais extensa de Espanha (tem uma superfície próxima da de Portugal), mas onde apenas habitam 2,5 milhões de pessoas!

Idades do Homem

A época da expansão marítima e do comércio ultramarino deixou também marcas notórias em Medina de Rioseco, a cerca de 30 quilómetros a noroeste de Valladolid. Esta pequena localidade, apesar de distar 300 quilómetros do litoral asturiano, ficaria conhecida como a "Cidade dos Almirantes", desde que o almirante Alfonso Enríquez, no final do século XVI, fez dela sede do comando das naus que demandavam as Américas. Tornou-se um importante centro comercial e mercantil, que rapidamente deu origem a fortunas e a famílias milionárias - é também, por essa razão, conhecida como a "Cidade dos Mil Milionários".

Actualmente com apenas cinco mil habitantes, Medina de Rioseco mantém, contudo, o título de cidade que lhe foi outorgado por Filipe IV, em 1632. É uma terra que continua a celebrar a Semana Santa à imagem de outros tempos, com a população a sair à rua em procissão atrás de pesados andores que exigem vinte homens para os carregarem. De resto, não é apenas em Rioseco que esta quadra religiosa se mantém viva. "A celebração de Semana Santa em Castela e Leão está impregnada duma emoção religiosa forjada ao longo dos séculos, que aqui tem uma importância destacada e possui uma solidez que não só não diminuiu como tem mesmo vindo a crescer com o tempo", salienta o catálogo da exposição Passio/ Edades del Hombre, que ocupa este ano uma das quatro catedrais de Medina de Rioseco, a Igreja de Santiago dos Cavaleiros.

Aqui, para além da profusão de cartazes da exposição com uma coroa de espinhos estilizada, uma exortação de Santa Catalina de Siena mostra ao que vamos: "Abri os vossos corações à dor e à compaixão: preparai as lástimas, e lamentos, e tristezas; libertai as lágrimas dos vossos olhos, e dai voz aos suspiros; movei o ânimo e a compaixão".

Três representações da Última Ceia de autores que vêm do século XVII (do florentino Jacopo Chimenti da Empoli, 1611) até à contemporaneidade (Venancio Blanco, 2001, e José Vela Zanetti, 1973) são as primeiras da mais de meia centena de peças que fazem o percurso da Paixão de Cristo até à Ressurreição, num alinhamento dramático encenado na nave central deste templo do século XVI, que associa os estilos gótico e barroco.

A lógica da exposição em Rioseco é precisamente pôr em diálogo e em confronto diferentes épocas e estéticas da arte religiosa, com a particularidade de a maioria das peças provirem das valiosas colecções de Castela e Leão - não por acaso, considerada a capital da escultura espanhola. É um caminho espinhoso, seja ele representado no maneirismo renascentista do Cristo atado à coluna, de Sebastián Ducete (1611), no "hiper-realismo" de um Cristo jazente, de Gregorio Fernandez (1627), com pormenores como o recurso a dentes de marfim e unhas de touro para conferir mais "verdade" à dimensão humana da Paixão, ou no neo-realismo do Ecce Homo contemporâneo de Ricardo Flecha Barrio (1990), que envolve o corpo de Cristo numa túnica de rede de arame e com grilhetas de ferro.

Meia centena de quilómetros para sul, em Medina del Campo (onde a rainha Isabel, a Católica morreu em 1504), Paixão continua a falar das últimas horas de Cristo, mas desta vez sob uma ordenação diferente. Nesta vila de vinte mil habitantes, é a igreja jesuíta de Santiago el Real (também do século XVI) que acolhe quase uma centena de peças ordenadas em cinco núcleos temáticos recolhidos nos textos bíblicos: Ecce Homo, Agnus Dei, Fons et culmen, Dulce lignum e Via crucis.

A exposição começa com representações de Adão e Eva (anónimo da escola hispano-flamenga do século XV) e da Árvore da Vida (Francisco Campos Lozano, 2001), e percorre igualmente vários séculos de representações da Paixão, do maneirismo e do barroco até ao expressionismo abstracto com que o conhecido pintor contemporâneo António Saura representa a crucificação. Maior, mais diversificada e ecléctica do que a selecção de Rioseco, a de Medina del Campo expõe muitas outras peças da iconografia religiosa: vitrais, máscaras funerárias, custódias, paramentos, matracas, sinos, bíblias e até partituras musicais.

"Capela Sistina"

Ainda que não integre o programa de Passio, a visita ao rico património da escultura religiosa nesta região ficará incompleta sem a entrada na Igreja de Santa Maria (séculos XVI-XVII) em Rioseco, e a contemplação da Capela dos Benavente. É considerada a "Capela Sistina" de Castela e Leão, e foi projectada pelos irmãos Jeronimo e Juan del Corral como capela funerária para um dos afortunados almirantes da terra. Decorada com relevos de gesso policromado em toda a sua superfície, contém uma profusão de cenas da iconografia cristã, desde o Génesis até ao Juízo Final, de Adão e Eva até à vida dos profetas, além de figuras da família do referido almirante. Entre as obras mais notáveis deste conjunto está o retábulo do altar, de autoria de Juan de Juni (1506-1577), um dos nomes maiores da escultura espanhola da época.

Nascido em França (em Joigny, daí o seu nome, lido à espanhola), Juan de Juni teve formação em Itália, mas radicou-se no reino de Leão depois de ter sido convidado a trabalhar para várias igrejas da região, entre Valladolid, Medina de Rioseco e Salamanca.

Este artista, com Alonso Berruguete (1488-1561), considerado como o mais importante escultor espanhol do Renascimento, e o já citado Gregório Fernandez (1576-1636), outro vulto artístico da época, estão em especial destaque no acervo do Museu de S. Gregório, em Valladolid. Em mais de vinte salas do recentemente recuperado mosteiro de vistosa fachada gótica flamejante e isabelina, as suas peças sobressaem num acervo que reúne mais de metade do património de Espanha na área da escultura, e que faz do S. Gregório o único museu nacional de Castela e Leão.

Actualmente, na sala de exposições temporárias, o museu apresenta (até 2 de Outubro) a exposição Um Século Dourado. A Pintura dos Primitivos Portugueses (1450-1550), uma remontagem com meia centena de peças que constituíram a exposição Primitivos Portugueses O Século de Nuno Gonçalves, que até Abril passado esteve no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa.

A Fugas viajou a convite do Turismo de Castela e Leão

Passio - Las Edades del Hombre
Igreja de Santiago de los Caballeros
Medina de Rioseco
Igreja de Santiago el Real
Medina del Campo
Até 6 de Novembro.
Horários: terça a sexta-feira, 10h00-14h00; 16h00-20h00; sábados, domingos e feriados, 10h00-20h00. Bilhetes a 3€ (entrada gratuita às sextas).
Visitas guiadas (para um máximo de 20 pessoas): 50€.
Informação e reservas. Tel: 983683000; fax: 983683025; mail: expo@lasedades.es

À mesa
Paixões gastronómicas

Rueda, uma pequena vila de 1500 habitantes situada no percurso da A6 (Madrid-Corunha), a pouca distância de Valladolid, é um nome que facilmente se associa aos vinhos de Castela e Leão, e em particular aos brancos da casta Verdelho (Verdejo). É uma das nove denominações de origem da província, e acolhe uma das adegas da famosa casa Marqués de Riscal.

A visita que a Fugas realizou iniciou-se com uma paragem nesta terra para uma visita, com almoço, às caves Yllera. Trata-se também de uma casa histórica, que conta já vários séculos, e das poucas que se mantêm como propriedade familiar, desde há seis gerações. Está ainda em trabalhos de restauro, depois do grave incêndio que sofreu em 1998.

A paragem na Yllera vale a pena pelos vinhos, naturalmente, e pela possibilidade de degustar in loco o Verdelho ("a uva prodigiosa que fez de Rueda a capital do vinho branco", pode ler-se num mosaico à entrada da adega), mas também o tinto e o cava (espumante Cartosan). E ainda pela inesperada "via-sacra" que o visitante é convidado a fazer, através de uma intrincada rede de caves e túneis, ao longo de dez "estações", à recriação do mito clássico de Ariadne (com o Minotauro, Teseu e Dionisos na história) e a sua associação à cultura do vinho.

Para além da prova dos vinhos, a visita pode ser completada com um almoço de degustação com um menu composto pelas especialidades da terra: pão + presunto + enchidos + tortilha + costeletas de anho assadas no momento, mesmo ao lado do improvisado comedor numa das caves a duas dezenas de metros de profundidade.

Esta ementa, com a qualidade dos produtos genuínos e despojada de qualquer tentação nouvelle cuisine, é um bom cartão-de-visita da gastronomia de Valladolid.

O pão é um dos produtos mais celebrados da terra - como se (com)provou, também, no prato "Creme de pão de Valladolid com ovo escalfado e gelado de pimenta" experimentado no restaurante-mezanino do Centro Cultural Miguel Delibes. Torna-se, por isso, um acompanhamento irrecusável para os queijos, presuntos, enchidos, patés e outras iguarias, em refeições que normalmente terminam com cochinillo assado (mais ou menos equivalente ao nosso leitão), ou com o famoso anho (lechal), também assado ou em costeletas na brasa, que se devem comer à mão...

Tudo acompanhado com o citado Verdelho e/ou os tintos de Ribera del Duero, a denominação de origem mais conhecida da região e mesmo de Espanha.

Aqui ficam os endereços de alguns restaurantes, bares e vinotecas, onde se podem experimentar estas e outras especialidades da terra:

Adega Yllera
Rueda A6 (km 173,5)
Tel.: 0034 983868097
www.grupoyllera.com

Visita com prova de vinhos: 7€; almoço de degustação: 40€.

Cata-me
Restaurante-vinoteca
Valladolid
C/ Torrecilla, 8
Tel.: 0034 983115573
www.vatame.es

Señorita Malauva
Vinoteca
Valladolid
Esquina Catedral-Cascajares
Tel.: 0034 983394955
www.vinotecamalauva.es
Almoço de degustação: 40€.

Como ir

De Portugal, chega-se a Valladolid saindo pela fronteira de Quintanilha, seguindo pela N122, via Zamora, e, a partir daqui, com alternativa pela A11; ou pela fronteira de Vilar Formoso, seguindo pela A62/N620, via Cidade Rodrigo-Salamanca-Tordesilhas.
A partir de Madrid (que fica a 170 quilómetros de Valladolid), para quem aí chegar de avião, há a alternativa entre o comboio de alta velocidade (AVE) e a auto-estrada A6, em direcção à Corunha, até Tordesilhas, tomando-se depois a A62. Antes de chegar a esta localidade - que ficou na História por via do Tratado pelo qual Espanha e Portugal dividiram o Mundo, em 1496 -, o viajante passa por Medina del Campo e por Rueda. E mesmo antes de chegar à capital, fica Simancas, na confluência do rios Pisuerga (que banha Valladolid) e Douro - é a cidade que, desde o tempo de Filipe II, é sede dos Arquivos do Reino de Espanha (equivalentes à portuguesa Torre do Tombo).

Onde ficar

Hotel Gareus
Valladolid
Colmenares, 2
Tel.: 983214333
www.hotelgareus.com

Hotel Los Almirantes
Medina de Rioseco
C/ San Juan, 36
Tel.: 983720521
www.losalmirantes.com
Este hotel design tem 17 quartos todos diferentes (200€ quarto duplo). E um restaurante que merece também ser experimentado.

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