Quantas vezes o leitor que atravessou Espanha a caminho de França, no percurso via Salamanca-Burgos, parou em Valladolid? Era uma cidade que víamos à direita, do outro lado de um afluente do Douro, e na qual raramente reparávamos: era ainda demasiado perto do local de partida, ou então já tão próximo da chegada, que nos abstínhamos de "perder tempo" nesta terra que nos parecia apenas um indiferenciado intervalo urbano numa vasta planície pontuada por pinhais, vinhas, maias e campos de papoilas (no tempo delas, claro). E, no entanto, vale a pena parar em Valladolid. E viver a cidade por dentro.
A capital de Castela e Leão tem uma mão-cheia de boas razões que justificam atenção. Tem muita História, inscrita num vasto património recortado em mais de uma dezena de castelos e outras tantas catedrais, igrejas, conventos e museus, com destaque para o Museu Nacional de Escultura, o mais importante de Espanha. E tem uma mão-cheia de outras atracções mais próximas do nosso tempo, que lhe dão o cosmopolitismo de uma vida cultural intensa, passando pelo seu festival de cinema, lançado há mais de meio século e que é dos mais antigos da Europa, e por outro certame internacional mais recente dedicado ao teatro e às artes da rua. Tem igualmente um Centro Cultural - designado Miguel Delibes (1920-2010) em homenagem ao mais ilustre escritor da terra -, projectado pelo arquitecto catalão Ricardo Boffil. Inaugurada em 2007, esta moderna casa da música possui um grande auditório de mais de mil lugares, que é a sede da Orquestra Sinfónica de Castela e Leão, além de palco para concertos dos principais nomes mundiais da música.
Valladolid fica a escassas duas centenas de quilómetros da fronteira portuguesa (Quintanilha ou Vilar Formoso). Apesar disso - ou talvez por isso - , é de França e da Alemanha que a cidade recebe o maior número de visitantes. A consciência da desatenção que os portugueses votam a este destino terá certamente pesado na decisão do Turismo local de convidar a Fugas a integrar uma delegação de jornalistas de todo o mundo para uma curta visita a Valladolid, a pretexto da realização de mais uma edição da exposição Passio/Edades del Hombre.
Nessa altura, tinha já passado o tempo da Semana Santa, que constitui um dos principais cartazes turísticos de uma região em que o fervor religioso deixou evidentes marcas patrimoniais, nomeadamente em cidades como Medina de Rioseco e Medina del Campo, ambas a escassas dezenas de quilómetros de Valladolid.
São estas duas localidades que acolhem este ano (até ao dia 6 de Novembro) a 16.ª edição da exposição Paixão, que pela primeira vez se divide por dois lugares diferentes, mas celebrando sempre o notável acervo histórico-religioso desta província do oeste de Espanha.
Capital do reino
Mas comecemos por Valladolid. A cidade já viveu tempos gloriosos, principalmente no século XVI e XVII, quando, por decisão de Filipe III, chegou a ser capital de Espanha durante escassos seis anos (1601-06), numa altura em que o reino incluía Portugal.