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Na pista de Tintin e companhia por Bruxelas aos quadradinhos
Volta à BD, na cidade que viu nascer Tintin e tantos outros heróis, em quarenta murais e com passagem também por museus e estações de metro. A celebração de uma herança aos "quadradinhos".
É nesses bairros geograficamente centrais, mas socialmente periféricos, que se encontram os frescos mais antigos, datando de uma época em que a filosofia da operação era dar a conhecer autores de banda desenhada belgas de gema, mas pouco conhecidos. Ou seja, tratou-se de empregar os murais como uma operação de charme urbano, mas também de promoção autoral. O primeiro a ser pintado em 1991 serve de exemplo: representa Broussaille na companhia da sua amiga Ragebol na Plattesteen, isto é, no próprio local que o mural foi aplicado, e é da autoria de Frank Pé. Broussaille nunca foi um caso de popularidade e o mural que o representa é capaz de ser mais conhecido que os seus próprios livros. Tem, de resto, outros traços que o tornaram num guião para outros autores de murais: mistura ficção e realidade, uma vez que reproduz os prédios e a própria rua em que se encontra, mas nela faz correr o Senne, o rio da cidade entretanto canalizado e aterrado. Ao "desenterrar" o rio, por outro lado, Frank Pé está a fazer um comentário político, incompreensível para os de fora, mas muito óbvio para quem vive em Bruxelas.
Alguns murais mais conseguidos são, na realidade, estritamente belgas e requerem descodificador. É o caso por excelência do lindíssimo fresco de Monsieur Jean, que transplanta o personagem parisiense para as ruas de Bruxelas (Rue des Bogards), mas também do céu cheio de pecadores de Stuf e Janry (Rue des Minimes), ou de Poje, típico herói copofónico, nada por acaso pintado à entrada de uma loja de bebidas (Rue de L"Écuyer). São, em qualquer dos casos, heróis de uma BD "linha clara", quase sempre optimista e bem-humorada, na maior parte anterior à moda dos graffitis e tagsque vandalizam as empenas em que aqueles são pintados. A banda desenhada franco-belga, agora institucionalizada pelo percurso de murais, é certamente mais velha que a arte de rua, mais suja, inquietante e soturna, que paralelamente se multiplica por iniciativa privada em Bruxelas.
Fantasia a cada esquina
À medida que Percursos BD se popularizou e cresceu foi-se naturalmente expandindo para fora da cintura do Pentágono, vindo a ganhar uma série de empenas e mesmo de fachadas em bairros de Laeken, decoradas com imagens de heróis como O Pequeno Spirou e Titeuf, e de Audeghem, onde as estrelas são os desconhecidos noutros lados Gil Jourdan e Le Scrameustache. Outra consequência da expansão do projecto foi a admissão de figuras da BD nascidas noutros países, mas que por uma razão ou por outra mantém afinidades com a escola belga. O supracitado Titeuf pintado em Laeken é de naturalidade suíça. Mas há também o italiano Corto Maltese à beira do Senne e o francês Asterix numa escola secundária da Rue de la Buanderie.
Já noutro espírito, mais próximo do turismo do que da renovação urbana, as empenas nas proximidades da Grand Place têm vindo a ser ocupadas pelos maiores sucessos da banda desenhada belga. Além do supracitado Tintin na Rue de L"Étuve, há Gaston Lagaffe na Rue de L"Écuyer, Olivier Rameau na Rue du Chêne e as visões das Cidades Obscuras de François Schuitten na Rue du Marche au Charbon. Essas mesmas ruas do centro histórico têm agora também duas placas identificadoras: a azul com o nome verdadeiro e a branca com o nome e o boneco de uma personagem BD.
Um aspecto em que o projecto se mantém inalterado é na metodologia de trabalho: cada mural começa com uma encomenda a um autor, ao qual são propostas uma série de empenas como suporte para essa criação. No caso de autores já desaparecidos, uma prancha já publicada é escolhida para o mesmo efeito, inclusive retocada com a prestação de colaboradores, como a do jovem marinheiro Cori Le Moussaillon, concluída pelo filho de Bob de Moor, desenhador tal como ele (Rue des Fabriques).
A imagem é então projectada na empena escolhida pela companhia Art Mural, que depois se encarrega de a pintar em acrílico. No final aplica-lhe um verniz protector contra as intempéries e os tags, que não impermeabiliza totalmente, mas pelo menos facilita a limpeza dos mesmos.