O paraíso é curto – pelo menos em Lisboa.
Bastam poucos minutos para se percorrer a Rua do Paraíso, que liga o Campo de Santa Clara, onde às terças e sábados se instala a Feira da Ladra, à Rua dos Remédios, onde nos últimos anos se multiplicaram os bares, restaurantes e casas onde se canta o fado. Mas o que descobrimos é que se neste passeio soubermos, nos momentos certos, desviar-nos do paraíso, pode valer a pena.
Começamos, então, do lado do Campo de Santa Clara, mais exactamente na Praça Dr. Bernardino António Gomes (situada entre o Jardim Boto Machado e o Hospital da Marinha), no passado um local de execuções públicas, o que lhe mereceu o simpático nome de Campo da Forca.
O primeiro edifício da Rua do Paraíso, que faz esquina com esta praça, é conhecido como o Casão Militar e pertence às Oficinas Gerais de Fardamento e Equipamento (OGFE). Até há pouco tempo funcionava aí um centro comercial destinado aos militares, onde se vendiam fardamentos e outros artigos, mas agora está fechado. Originalmente, contudo, o enorme edifício pintado de vermelho escuro era a casa de uma família da nobreza, os condes de Resende.
Socorremo-nos de um texto do blogue Ruas de Lisboa com Alguma História para perceber as origens deste palácio, que terá sido dos primeiros a construir-se nesta zona da cidade, no século XVII. Conta-se aí que “segundo os registos paroquiais, já em 1606 D. João de Castro, senhor do Morgado de Resende, baptizou uma filha na freguesia de Santa Engrácia, dando como morada as ‘suas casas’ neste Campo.” “ Precisamente na esquina para a Rua do Paraíso ainda se pode ver o brasão dos Condes de Resende, Almirantes do Reino.”
Mais tarde, e antes de passar para as OGFE, parte do edifício foi usada para teatro. Terá sido aí, no Teatro da Sociedade Thalia, que estreou em 1844, com grande êxito, a peça O Tio Simplício, de Almeida Garrett. E, em 1873, por um breve período, o Teatro Popular de Alfama funcionou também no palácio, que mais tarde, em 1916, viria a sofrer um grande incêndio que o destruiu parcialmente.
Ainda não saímos da esquina da Rua do Paraíso e já temos ao nosso lado direito um enorme palácio meio vazio e, à nossa esquerda, outro. Trata-se do Hospital da Marinha, também recentemente desactivado, construído (então como Hospital Real da Marinha) em 1797 no local onde antes existira o Colégio de São Francisco Xavier ou Hospício dos Jesuítas ao Paraíso.
Avancemos, então. Um pequeno beco à direita abre-se para um pátio onde existe uma oficina que arranja móveis, mais à frente existem dois restaurantes, a Parreirinha do Paraíso e a Codorniz do Paraíso, à esquerda uma escola e a seguir o Centro de Medicina Subaquática e Hiperbárica do Ministério da Marinha. E de repente, novamente à direita, há um caminho para sair do paraíso. Será que queremos? Parece uma rua muito calma, roupa pendurada às janelas a secar e um discreto azulejo a noticiar que no final dos anos 1990 esta Travessa do Paraíso participou no concurso da rua mais florida da cidade.
Mas o que de facto nos atrai é que se subirmos estes poucos metros de travessa chegamos ao edifício que se ergue, majestoso, mais acima: o Panteão Nacional. E este merece bem um desvio do paraíso.
Há, claro, a história das “obras de Santa Engrácia”, a suposta maldição que um jovem, Simão Pires Solis, terá lançado em Janeiro de 1630 sobre esta igreja. Identificado como cristão-novo e acusado de ter roubado o relicário de Santa Engrácia por ser visto muitas vezes à noite naquela zona, foi condenado à morte e queimado, ali ao lado, no Campo de Santa Clara. Disse sempre que não era culpado e mesmo antes de morrer terá gritado “É tão certo morrer inocente como estas obras nunca mais acabarem!” Descobriu-se mais tarde que o ladrão era outro, Simão estava inocente e a sua presença à noite no local tinha a ver com a paixão por uma freira que estava no Convento de Santa Clara. O facto é que, com maldição ou sem ela, as obras arrastaram-se durante séculos.
Foi em 1568 que a infanta D. Maria, filha de D. Manuel I, mandou construir aqui uma igreja para receber as relíquias da mártir Engrácia de Saragoça. Um século depois começou a saga da construção da actual igreja mas as complicações foram tantas que nem o Marquês de Pombal conseguiu que as obras terminassem (o espaço, sempre meio construído, chegou a ser usado como fábrica de sapatos pelo Exército). Por causa de Simão, ou por outra razão qualquer, passaram-se 284 anos até ser possível inaugurar o Panteão, o que acabou por acontecer em 1966.
O interior fresco do Panteão é um alívio para o calor que está no exterior. Aqui estão os cenotáfios (monumentos fúnebres sem o corpo do homenageado) de D. Nuno Álvares Pereira, Infante D. Henrique, Pedro Álvares Cabral, Vasco da Gama, Luís de Camões e Afonso de Albuquerque. E ainda os túmulos de Almeida Garrett, Amália Rodrigues, Aquilino Ribeiro, Guerra Junqueiro, Humberto Delgado, João de Deus, Manuel de Arriaga, Óscar Carmona, Sidónio Pais, Sophia de Mello Breyner Andresen e Teófilo Braga.
Mas depois da visita aos túmulos é fundamental subir os degraus, passar pelo coro alto e continuar a subir até ao terraço, junto da cúpula. Aí, sim, mergulhados na luz branca da cidade, estamos mais próximos de um qualquer paraíso, em que Lisboa parece feita apenas de pedra branca, mar e céu.
Descemos e regressamos, por uma das ruelas estreitas, à Rua do Paraíso. Passamos pelo restaurante Gruta do Paraíso, uma verdadeira gruta com paredes de rocha que, segundo se diz, fariam parte da muralha fernandina. Logo a seguir há outro restaurante que serve comida portuguesa e filipina e daí a poucos metros já chegámos ao final da rua. Novo desvio, desta vez para a esquerda, e descemos em direcção à estação de Santa Apolónia. Aí fica o Museu Militar, que mais do que justifica deixarmos novamente, por momentos, o paraíso.
Neste local funcionou desde o final do século XV o Arsenal Real do Exército com as fundições de artilharia – aqui ficava a chamada Fundição de Baixo. Foi precisamente para preservar “os modelos de machinas, aparelhos e objectos raros e curiosos” que o Barão de Monte Pedral decidiu fundar o museu em 1842.
É um espaço único na cidade, vindo de outras épocas. São 32 salas, com paredes e tectos profusamente decorados, onde nos confrontamos com vários momentos históricos, uns épicos, outros dramáticos – as Salas da I Guerra com as pinturas de Adriano Sousa Lopes mostrando os soldados portugueses nesse conflito são das mais emblemáticas.
Mas também os quadros de Columbano, Malhoa, Carlos Reis ou Veloso Salgado. Ou a comovente última carta escrita à família pelo capitão Alberto Santiago de Carvalho, morto em combate em 1961 em Damão, Índia (“Ao lerdes esta minha carta, não pertencerei já ao mundo dos vivos.”) Ou uma espada atribuída a Nuno Álvares Pereira. Ou ainda o esmagador (pelo tamanho) carro que serviu para transportar as colunas do Arco da Rua Augusta. E tantas outras histórias.
Ficaríamos aqui um dia inteiro, mas o paraíso chama-nos de novo e desta vez com uma razão de peso: são horas de comer e nessa área a Rua do Paraíso oferece um restaurante à altura. Dirigimo-nos ao Faz Figura, instituição na cidade que se prepara para comemorar este ano o seu 41º aniversário. Atravessamos a sala e sentamo-nos na varanda com vista para o Tejo a saborear um caril de camarão e um delicioso pudim abade de Priscos. Afinal, há paraísos escondidos nesta rua.