Longas viagens
Vamos ouvir, então! Se conseguirmos ultrapassar o predomínio do coro de rãs que nos acompanha no percurso em torno da lagoa principal, junto ao Centro de Interpretação Ambiental, nem precisaremos de binóculos para perceber quanto os patos-reais, no seu frenesim migratório, gostam deste sítio cheio de juncos entre os quais facilmente se escondem e escondem os seus ninhos dos predadores. Excluído o homem da cadeia alimentar, por aqui há espaço para todos. Corços, javalis, cobras e lagartos, lontras e fuinhas, a águia de asa redonda e outros pássaros, como a já referida garça-real, mais ou menos dependentes do ecossistema aquático. No qual se podem encontrar - não pescar - várias espécies típicas dos rios do Norte de Portugal e até a lampreia-marinha.
Muitos animais fazem do silêncio uma estratégia de vida, mas alguns, como as aves, não têm vergonha de se expor a quem passa, tentando, em vão, sobrepor-se às rãs - que parecem querer justificar, desta forma, o terem sido escolhidas para mascote do parque. Nisto de fazer barulho, elas só têm um rival à altura: um grupo de crianças da Escola Básica de São Pedro de Arcos, que acompanhamos durante uma manhã de actividades em torno da importância da água. Mesmo divididos em grupos pequenos, todos juntos, num dos postos de observação de aves instalados na lagoa parecem-se com um bando de patos a avistar, grasnando, o destino. Mas aqui, com tanto ruído, "ainda assustam tudo", avisa um monitor das lagoas, a pedir silêncio para algumas explicações sobre a importância da defesa destes habitats genericamente designados por zonas húmidas.
Pelo que se vê, aqui, onde um eucalipto gigante imita a morfologia sinuosa de um carvalho, como que a querer disfarçar o seu exotismo, não fosse alguém abatê-lo, dezenas de espécies de vertebrados têm a sua casa todo o ano. E os que migram, como os patos, têm o seu "posto de abastecimento" para as longas viagens, explica o monitor, agora atentamente escutado pela jovem audiência. O mosaico, completo com a presença do homem, é de um equilíbrio raro, capaz de atrair a atenção mesmo dos mais distraídos. Mas como se formou? No Centro de Interpretação Ambiental, os vários grupos vão tendo algumas pistas: percebem quanto somos, nós e o planeta, feitos de água; aprendem o seu ciclo; ouvem falar de algumas das suas propriedades. E observam ao pormenor alguns dos seus habitantes, como o lagostim americano que, pouco dado a ser espiado, foge, em vão, do foco do microscópio por onde os olhares infantis lhe prescrutam os segredos. Que estão à mão de quem, curioso, os queira descobrir.
Como ir
Tomando, a partir do Porto, a A3 ou a A28, é fácil chegar às lagoas. Pela A28, segue-se, em Viana do Castelo, pela A27, saindo em Estorãos / Arcos / Lagoas. A quinta de Pentieiros está a centenas de metros. Pela A3, o melhor é sair em Ponte de Lima e daí tomar a panorâmica EN 202. Desta há indicações que nos levam em direcção ao Centro de Interpretação das Lagoas.
Onde ficar
Ponte de Lima é terra de solares -e sede por direito próprio da Associação Portuguesa de Turismo de Habitação, visitável em www.turihab.pt -pelo que não faltam no concelho propostas interessantes para ficar num fim-de-semana com programa nas lagoas. Mas a própria reserva natural tem várias propostas de alojamento, que vão desde o campismo e os bungalows da Quinta de Pentieiros, a casas de abrigo e antigas escolas nas margens do rio Estorãos. Ver mais em www.lagoas.cm-pontedelima.pt.