Fugas - viagens

Luís Maio

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Brasília - Capital renovada e revisitada

Na mesma linha de leitura futurista da história, os espaços interiores do palácio foram decorados por Ana Maria, filha de Niemeyer, como uma espécie de Versalhes do século XX. A maior parte das salas propõe uma combinação de móveis do século XVIII com peças de design moderno, de quadros flamencos e arte barroca de factura tropical com obras de artistas da geração de Niemeyer, incluindo tapeçarias de Di Calvanti e óleos de Candido Portinari. Na prática, funciona como uma espécie de colecção permanente de um museu de arte e design, que Brasília não tem.

A visita inflecte depois para o jardim interior, onde toda a gente deixa escapar comentários invejosos/maldosos à faustosa piscina de 50X18 metros, com bar e churrasqueira adstritos. Segue-se o nicho oriental do jardim, concebido pelo jardineiro do Palácio Imperial do Japão, o ponto em que todos os visitantes brasileiros (e não só) sonham chegar a presidentes do Brasil, de preferência sem as responsabilidades. É, infelizmente, também o ponto em que aqueles senhores de óculos escuros e pilhas de cabedal encaminham o pessoal de volta para o autocarro.

Biblioteca e Museu  

A Biblioteca Nacional e o Museu da República foram inaugurados a 15 de Dezembro de 2006, data em que Oscar Niemeyer comemorou 99 anos. São as mais recentes obras do arquitecto edificadas em Brasília, mas tiveram de esperar quase meio século para ver a luz do dia. Já estavam contempladas no Plano Piloto como parte de um Complexo Cultural integrado no Eixo Monumental, projecto que desde então sofreu avanços e recuos. Na forma actual, prevê-se que aos dois equipamentos já construídos no chamado Setor Cultural Sul se venham a acrescentar um auditório de música e um cinema do lado oposto do Eixo, bem como uma passagem subterrânea ligando os dois com lojas e estacionamento.

Este Complexo Cultural surge como uma sinopse da obra do arquitecto, sobretudo desde o seu regresso ao Brasil, nos anos 80, na sequência da queda da ditadura militar que o afastou do país. Esse traço sintético é evidente no Museu, a sua obra recente mais relevante, uma grande cúpula com quase 90 metros de diâmetro, que invoca directamente a Oca, no parque Ibirapuera de São Paulo, mas também o Museu de Niterói, em particular no sinuoso desenho das suas rampas. O enorme volume pintado de branco constitui também uma ocasião irresistível para, sem sair da mesma cidade, comparar o arco da carreira de Niemeyer.

Se os traços de continuidade são evidentes, não passará despercebida a mudança de registo. Onde a tónica era antes colocada na leveza e na prestidigitação - como sucedia no Alvorada -, há agora uma simplificação, uma recondução da arquitectura às formas mais puras, que não é menos genial. A proverbial carência de sentido prático do arquitecto, no entanto, também não melhorou com a idade, e a Biblioteca, que conta com um acervo de 300 mil volumes, teve de encerrar logo após a inauguração, em virtude de deficiências na climatização. Outro aspecto problemático, que não passará despercebido nem ao mais distraído, é que o Museu faz sombra à vizinha Catedral, outra reconhecida obra-prima, que agora surge como um edifício de escala modesta ao lado da colossal cúpula de 28 metros de altura.

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