É para este microclima que viajamos quando entramos na loja: um espaço clarinho e luminoso de pouco mais de 20m2, que, sobre o quadrado, oferece uma miríade de chocolates de todas as formas, cores, formatos e sabores. Há negros, brancos, de leite, praliné, com aromas. Em caixinhas, também elas gulosas, espalhadas pelas prateleiras que emolduram parcialmente a divisão ou em tabuleiros que preenchem o balcão envidraçado. Estes últimos, prontos para quem prefira comprar avulso ou provar um de cada. Mas experimentar todos é capaz de ser mais simpático ao palato que à carteira: cada quadradinho de pecado tem um custo fixo de 1 euro (ao quilo, o preço oscila entre os 30 e os 100 euros). Optámos pela solução B, provar tudo o que nos aliciava o olhar quando, em Dezembro, pela altura em que Óbidos se transformava em Vila Natal e o ambiente era de festa, fomos conhecer este novo espaço. A maioria ficava pela oferta que se multiplicava um pouco por todo o recinto da Vila Natal e até pela principal artéria da urbe. Ainda assim, muitos iam sendo desencaminhados, ora por terem sabido da recente inauguração, ora por obra do acaso. Mas todos entravam movidos pela curiosidade - um interesse comprovado pelas perguntas lançadas a quem estava atrás do balcão - e todos saíam de caixinha na mão como se transportassem a mais valiosa das riquezas.
No que nos diz respeito, preferimos lançar-nos logo ali à descoberta dos sabores achocolatados - há nove qualidades diferentes de bombons, ganaches e pralinés, mas dentro de dias passará ainda a haver tabletes de chocolate artesanal e de origem biológica que se juntam a outra novidade recente: o chocolate para diabéticos, usufruindo assim do resto do espaço de cafetaria que ocupa parte de um solar do século XVII, partilhado com o Museu Municipal (e onde antes funcionou o Centro de Formação Alimentar da Pontinha). A partir de uma passagem debruada a pedra, sai-se da zona de loja para um amplo e iluminado lounge. Aqui, tudo continua a ser branco: as paredes, as mesas, as cadeiras. A cor é um exclusivo da ementa: apenas sobressaem os tons dos diversos chocolates, excepção feita ao painel de azulejos do século XVII que abraça toda a sala.
O espaço, arejado, não precisou de muito para se apresentar como uma meca para chocolateiros: apenas uma breve remodelação dos técnicos do município e algum investimento para cumprir os requisitos para abrir ao público. Ainda assim, continua a ser a loja a chamar mais gente. Por isso, poderão surgir novidades decorativas em breve que visam tornar o Chocolate Lounge cada vez mais um lounge, sem esquecer a vertente loja.
Na sala, de mais de 60m2, facilmente se imaginam tertúlias em volta do ouro castanho, e gentes que em comum terão o gosto pelos bombons e pelas conversas de dedos lambuzados. Ou, em dias mais frescotes, até acompanhados de um chocolate quente, para já a única bebida disponível (dentro de dias, com o arranque do festival, haverá outras propostas em forma de chás, obviamente, de chocolate...). No Verão, aproveitando a esplanada do jardim do Museu, os chocolates prometem sair do seu lounge e invadirem a rua.
Vila Chocolate
Em 2003, Óbidos passou a acumular atributowr parte da oferta natural da urbe. Até o pequeno e fino copo de chocolate em que é servida a popular ginjinha, e que parece ter existido desde sempre, foi uma invenção da primeira edição do Festival Internacional de Chocolate, lembra o administrador da Óbidos Patrimonium (OP), empresa municipal responsável pela organização, José Parreira.
Agora, e aproveitando o sucesso do evento, a OP pretende ir mais longe e "transformar Óbidos na Vila Chocolate" para lá do período festivaleiro que arranca quinta-feira, dia 17, e se prolonga até 3 de Abril (este ano, apenas de quintas a domingos).
O caminho começou a ser trilhado com a inauguração do Chocolate Lounge e não se fica por aqui. O objectivo, explicou à Fugas José Parreira, é transformar o chocolate numa atracção duradoura, capaz de "criar emprego" e de "ser motor de crescimento económico local e regional". Daí a ideia de aproveitar a loja gourmet para iniciativas que imprimam dinamismo ao espaço: além de workshops de chocolate, para profissionais e não só, está prevista "a criação de uma fábrica de chocolate artesanal" que será comercializado no Chocolate Lounge e ainda "cursos destinados a pasteleiros "cinco estrelas"".
Mas, apesar dos planos de "descalendarizar o chocolate", as próximas três semanas voltam a colocar Óbidos entre os destinos a cumprir precisamente por causa do chocolate. Este ano volta a haver concurso de esculturas que, aproveitando o aniversário da classificação do Castelo de Óbidos, se cumpre sob o mote Património Histórico de Óbidos, além de se repetirem as iniciativas Gastronomia Criativa ou o Cake Design. No desfile de moda, as linhas arrojadas dos StoryTailors prometem espantar e pelas ruas voltam a ser esperados milhares de devotos. Certo é que depois de ver tanto chocolate sem lhe poder tocar, quase arriscaríamos dizer que o fim da visita à vila só se dará depois de uma passagem pela casinha do chocolate gourmet.