Fugas - viagens

  • Pedro Cunha
  • Pedro Cunha
  • Pedro Cunha

Continuação: página 2 de 3

Quando for grande quero ser astronauta

Enquanto os mais pequenos se acomodam lá em cima, pelas cadeiras do auditório os acompanhantes escolhem os seus lugares. A sessão é para a miudagem, mas ninguém perde pitada do que vai acontecendo no palco. E, quase arriscaríamos, perpassa por todos uma enorme vontade de levantar o dedo. Coisa que não falta entre os mini-astronautas: os dedos vão-se erguendo à medida que o anfitrião lança as perguntas: afinal de contas "porque não pode uma bicicleta voar?" "Falta-lhe aerodinâmica", acusa um dos pequenos interlocutores. "Ohhhh! Isso é uma palavra muito complicada...", atira o astrónomo. Até porque o cientista faz a coisa por menos. "A bicicleta não pode voar porque foi feita para andar no chão. Não foi feita para voar!" Tão básico quanto isto. Uma nota dominante, aliás, ao longo de toda a sessão. As explicações são simples e são evitados termos complicados. É assim porque assim é. Porque não poderia ser de outra forma. E se fosse?

Põem-se miúdos e graúdos a pensar e a atenção é conquistada durante mais tempo do que seria de esperar: durante uma horinha, mais coisa menos coisa, os olhos da miudagem não despregam nem do ecrã nem de José Matos, cuja pronúncia cantada parece ajudar à concentração. Pela tela, passam bicicletas com asas, homens-pássaro, passarolas, dirigíveis, balões de ar quente... Até se chegar aos aviões e se perceber como acontece esta coisa de voar. Entram, então, os conceitos mais complicados: peso/sustentação; arrasto/impulsão. E quando Matos está quase a perder os pequenotes - uns remexem-se, outros espreitam para trás, outros ainda coçam o nariz, num crescendo de inquietação -, eis que o astrónomo põe um helicóptero a voar e todos os narizes apontam para cima. E para baixo. E de um lado para o outro.

Desbravados os princípios básicos da aviação e descortinados os mistérios de uma coisa tão pesada como o avião conseguir voar (ou de as galinhas nem por isso: "Habituaram-se à boa vida da capoeira", brinca Matos), seguiu-se rumo ao espaço. E os olhos voltaram a brilhar. "Quem foi o primeiro homem a ir ao espaço?" "Neil Armstrong", respondem quase em uníssono. Mas, afinal, não foi: "Esse foi o primeiro a caminhar na Lua." Esclarecimento feito, acompanharam-se os primeiros seres a ir ao espaço: primeiro, a cadela russa Laika ("que foi enviada para fora da atmosfera terrestre, sabendo-se já que não haveria forma de fazê-la voltar"), depois o russo Yuri Gagarin. E Armstrong? Esse fica para outro dia.

O tempo voa mais depressa que um foguetão à lua e por isso resta deixar este exigente público a sonhar. Com espacioportos gigantes nos Estados Unidos, sistemas capazes de levar uma nave a uma altura suficiente para sair da atmosfera terrestre mas que não se convertam em lixo e que possam ser reutilizados, com fatos colados ao corpo, sensações de gravidade zero ("Zero! No espaço, nada tem peso... Até num elefante seriam capazes de pegar! E só com um dedo...").

Depois a queda. A pique rumo ao mesmo espacioporto de onde se partiu. No ecrã, testemunha-se o projecto da Virgin Galactic que aponta já para este ano, no máximo para o próximo, o início das operações regulares "a preços baratuchos", adianta Matos: uns 150 mil euros em vez dos 35 milhões de dólares (quase 26,4 milhões de euros) pagos pelo último turista espacial, Guy Laliberté, o multimilionário fundador do Cirque du Soleil.

--%>