No ano da sua 15.ª edição, o Festival Músicas do Mundo (FMM), na cidade alentejana de Sines, comporta-se de acordo com a prática habitual nos casos de sucesso da comunidade musical: engalana-se com vestes de best of, junta muitos dos seus exemplos de picos de popularidade e acrescenta-lhes alguns inéditos.
Quer isto dizer que o festival, a decorrer entre 18 e 27 de Julho, volta a alguns dos intérpretes que mais fizeram vibrar as multidões no Castelo de Sines, como Hermeto Pascoal, Rokia Traoré, Trilok Gurtu ou Amadou & Mariam, desde que, em 1999, a autarquia pôs nas mãos do programador Carlos Seixas a definição da identidade daquele que é o maior evento da world music em Portugal.
Tanto assim é que, nos últimos quatro anos, o FMM fez parte das escolhas da prestigiada revista inglesa Songlines enquanto um dos melhores festivais internacionais dedicados às músicas de todo o planeta.
A comemoração do 15.º FMM faz-se com a aposta forte na qualidade, mas também nos números, em saudáveis sentidos opostos: à maior concentração de espectáculos na história do festival - um impressionante número de 43 concertos distribuídos por pouco mais de uma semana - corresponde uma redução substancial no preço dos bilhetes. Mantendo a mesma dinâmica de concertos pagos no Castelo de Sines e outros gratuitos ao cair da tarde e ao fim da noite, junto à praia, as entradas para os nomes mais consagrados passam a custar 10 euros por dia (em vez de 15) ou, em alternativa, 50 euros na aquisição do passe para a totalidade do festival (contra 65 no ano passado). A medida, afirma a organização, justifica-se pela situação especialmente difícil no presente contexto económico nacional - que, de resto, se fez já sentir com um decréscimo de público pagante na edição de 2012, não repetindo enchentes de outros anos.
Tendo acompanhado o amadurecimento do circuito internacional das músicas do mundo, o FMM é igualmente responsável pela criação de um público desperto para o contacto com músicas de geografias mais ou menos próximas mas quase sempre arredadas do contacto quotidiano e mediatizado. Daí que Sines tenha assumido desde a primeira edição um papel de festival divulgador, onde se festeja a diferença e a diversidade cultural, e o público se desloca sobretudo pelo confronto com músicas "novas".
Ao mesmo tempo, o convívio com músicos como Rokia Traoré, Staff Benda Bilili, Konono n.º 1 ou Tinariwen, por exemplo, foi crucial para a eclosão de pequenos cultos destes músicos em solo português.
Se em 2012 o festival ficou marcado pelas magníficas estreias da maliana Fatoumata Diawara e do congolês Jupiter & Okwess International, Julho proporcionará primeiros contactos com o hipnótico cantor paquistanês Asif Ali Khan, a refundação da tradição congolesa por Baloji (que actua também em Lisboa na próxima semana), os contos do folclore chinês transformados por uma abordagem rock dos Dawanggang e dois dos mais importantes projectos de fusão neste domínio: os Skip & Die, liderados por uma Cata Pirata que soa a versão sul-africana de MIA; e Lo"Jo, colectivo francês que há três décadas dialoga com a música magrebina e foi decisivo no lançamento do míticoFestival au Désert.