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Fernando Veludo/NFACTOS

Nova vida da «Flor do Gás» resgata memórias da travessia do Douro

Por Mariana Correia Pinto

Empresa Menino do Douro quer fazer de lancha histórica do Douro, única travessia fluvial entre Porto e Gaia, o ex-líbris de outros tempos. Em 2014, o Cais do Ouro deve ser um ponto comercial

O dia mostra-se timidamente, ainda não bateram as seis da manhã, e Manuel Ferreira já espera no cais. É cliente da primeira viagem que todos os dias deixa Gaia e Porto a cinco minutos de distância, a única travessia fluvial entre as duas cidades, feita há quase 70 anos.

Orgulhosamente renovada, a lancha Flor do Gás passeia-se no Douro, de 15 em 15 minutos, das 6h às 22h, não importa quantos clientes tenha. É essa a política anunciada pela nova proprietária da histórica embarcação, Maria Isabel Cardoso, que há alguns meses explora a travessia.

Quando decidiu virar-se para este pedaço do Douro, não fazia ainda ideia da história em que estava a entrar: "Queríamos investir no Douro e cruzámo-nos com esta possibilidade. Usávamos o barco de vez em quando. Mas no início nem sabíamos que tinha tanta história", admite o marido da proprietária, José Cardoso.

Ao leme da embarcação, Jeremias Catarino, homem de poucas palavras, recorda aventuras de outros tempos: de quando atravessava o rio com "70 ou 80" pessoas num barco com capacidade para 27. Sem coletes e sem bóias. À pinha. "Lembro-me de uma vez que a polícia veio ter comigo e disse-me: "Você sabe em que é que está metido? Se há qualquer coisa, você é o primeiro a ir preso"", conta, agora sorridente. "Naquela altura safei-me, eles fechavam os olhos."

Aos 73 anos, Jeremias regressou ao barco que conduziu noutros tempos "porque o dinheiro [da reforma] não chegava para as contas" Mas não é por isso que se queixa: "A gente desde que tenha saúde...".

- Boa tarde.

- Boa tarde não, menina, bom dia. Hoje atrasou-se...

A conversa entre Jeremias e Carina Gomes, a cliente de 23 anos que acaba de entrar no barco na Afurada, é elucidativa. O mestre conhece quase todos os passageiros habituais: "Sei a que horas vêm mais ou menos, já estou à espera". Carina não se atrasou, mas hoje entra mais tarde ao serviço, no lado do Porto. Faz a travessia quase todos os dias há três anos, os avós também a fizeram noutros tempos. "Sinto-me privilegiada", sorri. A ideia de começar e findar o dia num barco tem um lado romântico que não ignora, mas tem também um lado prático que é de salientar. "É muito perto de minha casa, é mais rápido do que ir à volta pela ponte [da Arrábida] e é barato."

O protagonismo da viagem das 11h vai para Laura Silva, que entra na Flor do Gás pela segunda vez na vida. A primeira foi há 19 anos: "Estava grávida e pensava que ia morrer. Isto abanava, abanava, pensava que ia virar." O medo da água mantém-se, mas a irmã, emigrada na Alemanha e de visita ao Porto, justifica os cinco minutos de coragem. "Vou levá-la a andar nos transportes típicos do Porto", conta, sempre atenta à ondulação.

Mais emprego à vista
Se tudo correr como a proprietária Maria Isabel Cardoso prevê, até ao fim do ano a empresa Menino do Douro vai estar a empregar 16 pessoas em vez das cinco com que conta actualmente.

A lancha Flor do Douro, que faz parte da concessão adquirida, deve também estar no rio até ao fim do ano, quando a sua recuperação estiver concluída. Nessa altura, a Flor do Gás deve manter-se como ligação entre os cais da Afurada e do Ouro e a Flor do Douro poderá garantir outras ligações no rio.

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