O dia mostra-se timidamente, ainda não bateram as seis da manhã, e Manuel Ferreira já espera no cais. É cliente da primeira viagem que todos os dias deixa Gaia e Porto a cinco minutos de distância, a única travessia fluvial entre as duas cidades, feita há quase 70 anos.
Orgulhosamente renovada, a lancha Flor do Gás passeia-se no Douro, de 15 em 15 minutos, das 6h às 22h, não importa quantos clientes tenha. É essa a política anunciada pela nova proprietária da histórica embarcação, Maria Isabel Cardoso, que há alguns meses explora a travessia.
Quando decidiu virar-se para este pedaço do Douro, não fazia ainda ideia da história em que estava a entrar: "Queríamos investir no Douro e cruzámo-nos com esta possibilidade. Usávamos o barco de vez em quando. Mas no início nem sabíamos que tinha tanta história", admite o marido da proprietária, José Cardoso.
Ao leme da embarcação, Jeremias Catarino, homem de poucas palavras, recorda aventuras de outros tempos: de quando atravessava o rio com "70 ou 80" pessoas num barco com capacidade para 27. Sem coletes e sem bóias. À pinha. "Lembro-me de uma vez que a polícia veio ter comigo e disse-me: "Você sabe em que é que está metido? Se há qualquer coisa, você é o primeiro a ir preso"", conta, agora sorridente. "Naquela altura safei-me, eles fechavam os olhos."
Aos 73 anos, Jeremias regressou ao barco que conduziu noutros tempos "porque o dinheiro [da reforma] não chegava para as contas" Mas não é por isso que se queixa: "A gente desde que tenha saúde...".
- Boa tarde.
- Boa tarde não, menina, bom dia. Hoje atrasou-se...
A conversa entre Jeremias e Carina Gomes, a cliente de 23 anos que acaba de entrar no barco na Afurada, é elucidativa. O mestre conhece quase todos os passageiros habituais: "Sei a que horas vêm mais ou menos, já estou à espera". Carina não se atrasou, mas hoje entra mais tarde ao serviço, no lado do Porto. Faz a travessia quase todos os dias há três anos, os avós também a fizeram noutros tempos. "Sinto-me privilegiada", sorri. A ideia de começar e findar o dia num barco tem um lado romântico que não ignora, mas tem também um lado prático que é de salientar. "É muito perto de minha casa, é mais rápido do que ir à volta pela ponte [da Arrábida] e é barato."
O protagonismo da viagem das 11h vai para Laura Silva, que entra na Flor do Gás pela segunda vez na vida. A primeira foi há 19 anos: "Estava grávida e pensava que ia morrer. Isto abanava, abanava, pensava que ia virar." O medo da água mantém-se, mas a irmã, emigrada na Alemanha e de visita ao Porto, justifica os cinco minutos de coragem. "Vou levá-la a andar nos transportes típicos do Porto", conta, sempre atenta à ondulação.
Mais emprego à vista
Se tudo correr como a proprietária Maria Isabel Cardoso prevê, até ao fim do ano a empresa Menino do Douro vai estar a empregar 16 pessoas em vez das cinco com que conta actualmente.
A lancha Flor do Douro, que faz parte da concessão adquirida, deve também estar no rio até ao fim do ano, quando a sua recuperação estiver concluída. Nessa altura, a Flor do Gás deve manter-se como ligação entre os cais da Afurada e do Ouro e a Flor do Douro poderá garantir outras ligações no rio.