O belo, o útil e o abjecto
Medicine Man é o nome da galeria dedicada à mostra da colecção Wellcome, uma das duas exposições permanentes no primeiro piso. É forçosamente uma mostra e não mais do que isso, quando exibe meio milhar do milhão de objectos coleccionados em vida pelo farmacêutico, ou seja, uma ínfima parte. Amuletos fálicos, cintos de castidade e engenhos anti-masturbatórios compartem o espaço com cadeiras de parto, pinças obstétricas e discos de amamentação, na secção dedicada ao nascimento. No espaço ao lado, a morte junta coisas tão diferentes como uma caveira trepanada, um kit de reanimação à base de tabaco, peças de joalharia com recordações dos mortos, uma cadeira de tortura chinesa, uma guilhotina francesa e até uma múmia peruana.
Uma das paredes está decorada com máscaras tribais para afugentar os espíritos, invocar a morte e mesmo cobrir de vergonha mulheres demasiado tagarelas. Outra está repleta de quadros, incluindo um desenho de Van Gogh retratando o seu µ
médico, o Dr. Gachet, um desenho anatómico de Da Vinci e uma mão cheia de obras com assinaturas menos famosas representado o nascimento e a morte, o bem-estar e a doença. Pelo meio há serras de amputação de todos os tamanhos e feitios, extractores de bala mais ou menos artísticos, a mais variada gama de próteses e cadeiras de barbeiros cirurgiões. São aqui e ali acompanhados de peças dememorabilia, tais como a bengala de Charles Darwin, a escova de dentes de Napoleão e a navalha da barba de Lord Nelson.
Não se pode mexer e experimentar, como era prática corrente nos gabinetes de curiosidades do Renascimento em que Wellcome se terá inspirado para criar o seu museu "científico". Mas o espírito de surpresa e descoberta é em tudo semelhante ao dessa época de prodígios, numa exposição que promove o convívio entre objectos capazes de contar histórias médicas e outros que simplesmente são espantosos e alienígenas. É uma dinâmica expositiva que Wellcome não teria previsto, mas que tem a capacidade de lhe reabilitar o legado, revendo-o à luz de duas tendências actuais: o culto da multidisciplinaridade e a nostalgia pela era dos primeiros museus.
Medicina com arte
Medicine Now, a outra exposição permanente no primeiro piso, pode ter um alcance diferente, mas está no mesmo comprimento de onda. Esta galeria é dedicada a temas actuais da medicina. põe em jogo modelos anatómicos clássicos, que parecem saídos de uma casa de bonecas (cabelos e lábios pintados) dos anos 50 com as últimas tecnologias de representação multimédia. Os Genomas exibe um dos robots que permitiram sequenciar o genoma humano, acompanhado de uma estante repleta de volumes de mil páginas cada, que no total contêm as 3.4 biliões de unidades do código DNA. A Malária, uma doença típica do terceiro mundo, é comparada com A Obesidade, uma epidemia que põe em risco a vida nos países mais desenvolvidos.
A lógica é de constante vaivém entre o que consumismo e as doenças que contraímos, entre o nosso corpo e (o pouco) que sabemos do seu funcionamento, entre a nossa identidade e o lugar de onde procedemos. Em todo o lado há documentários audiovisuais sobre os avanços da ciência à mistura com obras de arte e uma porção degadgets. Os destaques vão para I can"t help the way I feel, de John Isaac, representação grotesca da obesidade através de uma escultura de dois metros de altura, em que a gordura é tanta que nem se vê a cabeça, mas também para os modelos gigantes e coloridos de insectos que provocam a malária, que parecem saídos de um filme de terror barato dos anos 50.
Medicine Now tem continuação nas exposições temporárias, exibidas no piso inferior. Até agora afloraram temas como o Coração, os Esqueletos e os Sonhos, explorando as relações da ciência médica com a antropologia, a arte e a cultura, cruzando a história com a actualidade. Há uma vertente didáctica, sem dúvida, mas conjugada com uma componente lúdica, que subtrai estas exposições ao tédio do estendal pedagógico.
A mais recente é sobre a pele e não é para estômagos delicados, quando inclui imagens de escoriações auto-infligidas, um retrato de uma criança na mesa de autópsia e amostras de pele com tatuagens.
A próxima exposição ainda não tem data anunciada, mas promete quando propõe actualizar a colecção Wellcome e quem quiser pode ir juntar os seus objectos pessoais (não maiores que a sua própria cabeça) à pilha, de 12 a 22 de Outubro próximo.