Nada aqui, aliás, desmerece o nosso olhar. Entre a ponte do Arado e o miradouro da Pedra Bela, um bosque de vidoeiros acolhe as mesas de pedra em que partilhamos, apressadamente, o farnel. Estamos com um olho na comida e outro na luz enternecedora que, nestes dias, se vai embora mais cedo, e que aqui junto à Fonte de Chelo parece brincar com a folhagem, dourando-a sem esforço num beijo de vários quilates. Há água, mas esta corre silenciosa. Como se não quisesse interromper tal romance, ou como quem se aproveita dele, pelas frestas, descendo a encosta com uma carapaça mais brilhante.
Mas há que prosseguir. Alarcão está a apostar no que nos possa oferecer um spot junto à Portela de Leonte, na estrada para a Portela do Homem. Coração do parque, a Mata da Albergaria não o desilude. As faias, de um lado, e de novo os vidoeiros, do outro, acotovelamse junto a um ribeiro, Leonte, lançando sobre um pacato plano de água os reflexos límpidos desta luta pela nossa atenção. Não é difícil distrairmo-nos entre tantos estímulos, e o nosso guia explicanos a vantagem de, entre toda esta luz e sombra, recorrermos a opções como o foco selectivo e à medição pontual da luz que, bem aproveitadas, podem melhorar as nossas fotografias.
Com este objectivo em mente, corremos Albergaria adentro, a espreitar o luxo multicolor que, de uma encosta íngreme, se atira até ao rio que quase não se vê. São 15h30 e o lugar quase parece tomado pela noite, tal a densidade de folhosas centenárias de porte altivo. E tal como os olhos demoram a descobrir contornos na penumbra, a luz assim filtrada pede tripés, mãos firmes que a deixem entrar na máquina, em tempos longos que gravem nos sensores digitais o seu esforço para iluminar um tronco, ou um ramo de faia ainda verdejante a desafiar a morte. É um exercício de paciência, de um quase conter da respiração para não tremer. E alguns, a conselho de Pedro Alarcão, recorrem ao flash, repondo assim também a cor que este crepúsculo, como qualquer crepúsculo, teima em roubar.
Não nos sobra muito tempo, neste lugar feito de tempo. Quase puro agora, imagina-se quão intocado seria, quando no século I os romanos o atravessaram com a via XIX, cujas marcas perduram a poucos metros de nós. Duas pontes seguram os nossos últimos olhares. Ambos concentrados num ribeiro, primeiro, e no rio Homem, depois. De novo uma cascata, para acabar como quase começamos. Mas, mesmo a céu aberto, quase sem luz. Poucos se atrevem a congelar este momento. Boa parte do grupo já guardou as máquinas recheadas de milhares de imagens. Melhores, espera-se, que as do repórter que os acompanhou, e a quem não resta mais do que tentar resgatá-las, com estas mil palavras. Apertadas pela saudade contra um ponto final.
Como ir
Os pontos visitados neste workshop no Gerês cascata do Arado, Pedra Bela, Portela de Leonte, Mata de Albergaria concentram-se nas imediações da vila homónima (concelho de Terras de Bouro), onde se chega seguindo pela A3 até Braga. Depois é tomar a direcção de Chaves (EN 103) e, já no concelho de Vieira do Minho, virar à esquerda, até ao destino, bem assinalado por placas.