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Transiberiano I (Moscovo - Irkutsk): Um outro olhar sobre a Terra
Chamam-lhe “a viagem das viagens”. Pela grandeza da distância, pela desmesura do espaço e do tempo, ou por abrir as portas de uma região do planeta que ainda hoje é sinónimo do exílio e do esquecimento, o Transiberiano é muito mais que uma linha de caminho-de-ferro e um comboio que liga dois pontos algures entre a Europa e a Ásia. É um mito, uma experiência de vida que nos obriga ao confronto da nossa pequenez com a grandeza do planeta. É um teste que nos instiga as delícias e os incómodos da solidão, o medo de se estar longe de tudo ou de qualquer coisa e o enorme prazer de se olhar as planícies intermináveis da Sibéria para retirar dos seus horizontes ilimitados um incontido prazer de liberdade. Chamam-lhe “a viagem das viagens” e é verdade que dificilmente qualquer outro percurso nos permite viver de forma tão intensa, quase angustiada, o fluir dos quilómetros, a sucessão dos fusos horários, a evolução das fisionomias, das arquitecturas, das formas de vida ou das paisagens como a marcha dos comboios que há pouco mais de cem anos ligam Moscovo a Vladivostoque ou a Pequim.
Chamam-lhe “a viagem das viagens” pelo menos desde que na Exposição Universal de Paris, em 1900, uma luxuosa carruagem-restaurante decorada com mármores e requintada com um piano de cauda convidava as classes altas da Europa a aventurarem-se pela Sibéria até aos limites da China ou até aos portos de onde facilmente se alcançava o Japão.
Príncipes e aristocratas, memorialistas e aventureiros não resistiram à aventura e deixaram para a posteridade relatos que combinavam o tédio com o espanto, o cansaço com a emoção de resistir a mais uma etapa. Durante os anos de chumbo do regime soviético, os comboios não pararam, a linha foi até modernizada, a electrificação foi avançando etapa a etapa, novas e mais potentes locomotivas fabricadas na ex-Checoslováquia ou na própria União Soviética entraram em funcionamento, luxuosas carruagens de madeira e veludo foram encomendadas para levar o governo e a nomenklatura às cidades que cresciam rapidamente à custa do Transiberiano. Mas os viajantes estrangeiros tiveram de esperar por melhores dias: a viagem de um punhado de privilegiados fazia-se apenas após o cruzamento de intrincados labirintos burocráticos e através de um apertado esquema de vigilância. Cidades importantes como Krasnoyarsk estiveram fechadas aos olhares de fora até 1991.
Luta contra a distância
Hoje, tudo é diferente. Milhares de jovens europeus, americanos ou australianos cruzam todos os anos as diferentes rotas do Transiberiano, levando consigo as mochilas e a ansiedade de cumprir o mito, de enriquecer o currículo de viajante, de experimentar o insólito. Homens e mulheres de outras idades e outro poder de compra cruzam a Sibéria em comboios especiais, sem os cheiros a vodka nem o linguajar dos russos no interior dos compartimentos, mas com o conforto das malas recheadas de roupa limpa, mesas postas, camas feitas e visitas guiadas às cidades emblemáticas da linha. A uns e outros, porém, a viagem exige perseverança, a gestão da nostalgia e abertura dos sentidos para o que a geografia, a orografia e a história dos lugares tem para oferecer. Todos têm tempo e oportunidade para se perder em devaneios íntimos enquanto a interminável narrativa da paisagem se desenrola na janela, mas só alguns poderão perceber com o mínimo de coerência o que significa a Sibéria na história da Rússia ou na cartografia do planeta.