Fugas - Viagens

Daniel Rocha

Reviver o passado em Lisboa

Por Luís Francisco

Não são só as pedras. Há, um pouco por toda a Lisboa, muitos sinais do milenar passado da cidade, vestígios de povos e histórias de outros tempos. Descobri-los é apenas o pretexto para um longo passeio por ruas, vielas e praças que resistem ao passar dos anos.

A placa é extensa. "Chafariz d"el Rey. Edificado no séc. XIII. Foi reformado pelo Rei D. Dinis. Reconstruído no ano de 1747. Reparado depois de 1755. E melhorado nos meados do século XIX." Estamos entre o rio Tejo e a colina do Castelo, em Lisboa, e só este arrazoado já nos dá uma boa noção das vicissitudes e antiguidade de uma cidade que chegou a ser capital de um império. Mas há mais, muito mais. E é disso que vamos conversando enquanto nos juntamos ao grupo da Natuga, a empresa que organiza passeios onde a história se desvenda.

Joaquim é biólogo, tal como Maria João, que o acompanha no papel de guia do grupo. Mas a história é uma paixão antiga e, juntando o útil ao agradável, todo o conhecimento que foi acumulando permite-lhe agora guiar grupos numa viagem por espaços de Lisboa que parecem ter cristalizado o tempo. A introdução, feita com o Tejo ao fundo e um céu de nuvens a ameaçar chuva, dá o tom para o resto do dia: "Vamos contar a história de Lisboa de forma algo diferente."

Estamos no miradouro de Santa Luzia, que oferece uma ampla visão sobre o casario e o imenso plano de água do estuário do Tejo. Este abrigo natural das águas do Atlântico, o maior da Europa Ocidental, cedo foi aproveitado pelos povos que velejavam ao longo das costas do Velho Continente. E, por isso, não espanta que os primeiros colonizadores "registados" do que depois viria a ser Lisboa tenham sido os fenícios, grandes navegadores.

Bom, antes deles havia gente por aqui, na colina do Castelo. Atraídos pela abundância de água (muitas nascentes antigas estão hoje emparedadas ou desaparecidas, restando apenas um ou outro chafariz, eventualmente desactivado), pela proximidade dos férteis terrenos agrícolas do Ribatejo e, lá está, pela facilidade de acesso aos recursos marinhos fornecidos pelo estuário, cedo houve gente que por aqui se instalou. O povoamento de Lisboa vem, pelo menos, de 1000 a.C., mas desde a pré-história que o local estava ocupado.

Não há vestígios dessas épocas. Nem podia haver. A sucessão de civilizações que aqui assentaram praça cobriu os sinais do passado. Mesmo o império romano tem dificuldades em dar sinal de si: restam apenas duas ruínas visitáveis: as catacumbas da Baixa (que só estão abertas ao público três dias por ano) e o anfiteatro na colina do Castelo, enquadradas por um museu que quase não vê gente, apesar de as entradas serem gratuitas.

Romanos, visigodos, árabes...
Para os romanos, pouco dados à aventura do mar, Lisboa não era uma cidade importante. O império era terrestre e a capital da Lusitânia (a província mais ocidental da Ibéria) era Mérida, agora em território espanhol. Mesmo assim, os romanos construíram um aqueduto, que passava mais ou menos onde está o actual (que data do século XVIII) e também começava em Belas, na ribeira de Carenque. Nada restou dele e da presença romana talvez só tenha subsistido a contabilidade das sete colinas da cidade (são, na verdade, mais) que remetia para Roma. Aliás, em Lisboa, nem o nome consegue ser unânime: diz-se que Olisipo será um termo grego, que remete para Ulisses, o seu fundador... Não há certezas.

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