Fugas - Viagens

Daniel Rocha

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Reviver o passado em Lisboa

No Museu do Teatro Romano, onde as pedras das construções romanas convivem com outras de épocas mais antigas e mais recentes, pode ver-se a olho nu a estratificação das civilizações que, século após século, foram colonizando esta colina e utilizando os materiais ali deixados pelos seus antecessores. Pode ver-se isso e muito mais: esculturas, achados arqueológicos, manuscritos. Lá fora, os ângulos menos conhecidos da Sé e o Tejo, sempre ele, a encher os espaços por entre as fachadas.

Depois de cinco séculos de ocupação romana, os visigodos instalaram-se por aqui. Onde está a Sé havia uma igreja visigótica. Os árabes, que vieram a seguir, construíram a mesquita por cima da igreja e, depois da reconquista, a mesquita deu lugar à Sé, que começou a ser erigida no tempo de D. Afonso Henriques (século XII) e demorou cinco séculos a ser concluída. Está tudo aqui, bem como o castelo. Lisboa tem esta coisa especial: um castelo medieval bem dentro da sua malha urbana.

À volta das muralhas (existem outras, mais antigas, as da chamada cerca moura, de que restam apenas vestígios) as ruas e vielas transportam-nos para o mundo árabe. Estreitas, labirínticas, inclinadas, permitiam manter a frescura nos dias de calor e confundiam eventuais invasores. De vez em quando, como se estivéssemos no campo, há laranjeiras nos passeios. São, também elas, testemunhas do vaivém de povos e culturas: as laranjeiras são originárias do Oriente. E, já agora, as oliveiras também foram trazidas dos confins do Mediterrâneo.

Há sinos que repicam nesta manhã de domingo enquanto avançamos pelo dédalo de ruelas e escadarias que nos leva até perto do Tejo. Às vezes parece que vamos entrar em casa de alguém, mas aparece sempre uma saída. Joaquim, que mora por aqui, garante que um dos fascínios deste bairro é que até os seus moradores podem fazer um caminho diferente todos os dias. Há praças que parecem saídas de um cenário serrano, granitos no chão e fachadas austeras; noutros locais, cores garridas e linhas insinuantes remetem para os cenários das Mil e Uma Noites.

Os Descobrimentos e a Revolução
Depois da reconquista e das sucessivas cenas de pancadaria com Castela - que produziram, literalmente, uma fronteira desenhada a murro -, os portugueses conseguiram assegurar a sua soberania e voltaram-se para o mar. E disso teremos conta noutra zona da cidade. Há que apanhar o eléctrico para Belém.

O Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém, o Padrão dos Descobrimentos. A era mais gloriosa da nação está aqui representada e há sempre histórias laterais para temperar as "lições" de mestre Joaquim. Como ficarmos a saber que foram os monges da Ordem dos Jerónimos que inventaram os pastéis de Belém... Ou que a Torre de Belém, o grande símbolo de Lisboa, foi também utilizada como prisão para detidos políticos nos tempos da dinastia dos Filipes, quando Portugal perdeu (temporariamente) a sua independência.

No Padrão dos Descobrimentos (erigido já no século XX, a tempo da Exposição do Mundo Português, em 1940, e posteriormente recriado em betão, em 1960) pode ser um exercício engraçado identificar as 33 personagens retratadas, mas a lição mais importante vem do mapa-múndi traçado a mosaicos no chão. Vêem-se a datas de chegada dos portugueses às sete partidas do mundo. Foram eles os primeiros no Japão, onde fundaram a cidade de Nagasáqui e deixaram palavras e hábitos - sabia que a célebre tempura é uma adaptação dos tradicionais "peixinhos da horta" da região lisboeta?

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