Obrigatória é uma passagem (com tempo) pelo Café das Delícias, para o tal merecido descanso com a esplanada a acompanhar a encosta. Um chá de menta e pinhões, uns bolinhos de maçapão diante de todo o Mediterrâneo que se desejar, é encostar-se nas almofadas dos bancos e esperar pelo pôr-do-sol.
Finalmente, a praia
Passámos dois dias a visitar cidades e ruínas e agora queremos praia e dolce fare niente. Podemos ficar por ali mesmo. Cartago tem praias. La Marsa e Gammarth, os outros subúrbios ricos de Tunes, oferecem muitos restaurantes com peixe e marisco e fantásticas vistas de mar. Mas podemos ser mais ousados e passar umas duas horas na estrada até chegarmos a Sousse, uma das mais bonitas cidades da Tunísia que tem a seu favor o facto de ali mesmo estarem algumas das melhores praias do país.
Port El Kantoui, mesmo ao lado, com a sua marina e barcos de piratas, tem muitos hotéis, tantos que antes quase parecia termos deixado a Tunísia quando ali chegávamos e hoje parece que entrámos numa espécie de cidade fantasma. A mais-valia é que é possível fazer um bom negócio e ficar num hotel de quatro ou cinco estrelas com piscinas de todos os tamanhos e praias privativas com areal a perder de vista por preços inimagináveis até há pouco tempo. Mas quanto mais perto de Sousse se ficar alojado, mais se beneficia do facto de esta ser uma cidade de praia, onde é possível ir-se a pé da medina à beira mar.
A cidade propriamente dita tem muito para visitar: da cisterna Sofra, que já foi a principal forma de abastecimento de água da cidade, à Grande Mesquita e às catacumbas (uns cinco quilómetros de túneis onde mais de 15 mil cristãos foram enterrados nos séculos IV e V), passando pelos mercados e sem deixar de entrar na Ribat, o mais antigo monumento da Medina, um forte que era um entre um conjunto de fortificações e que oferece, claro, o melhor panorama de toda a cidade.
Sousse é tanto cidade como praia - e a praia aqui chama-se Boujaffar e estende-se por quilómetros. Para ali ficar o tempo que se quiser, deitado na areia branca sem fazer nada, mergulhando em águas de temperatura convidativa assim que o sol se sente, ou imitando os tunisinos num piquenique familiar e num passeio nocturno pela marginal que a acompanha.
A cidade das mesquitas
Se tiver forças para deixar a areia e o mar nos seus dias pela região, Kairouan é uma cidade que vale a pena conhecer, apesar da viagem de mais de duas horas com a costa a ficar para trás. Sempre teve turismo mas nunca se deixou transformar muito pelo turismo e dificilmente sofrerá tanto como outras pelo desaparecimento dos visitantes ocidentais.
É que entre outras atracções - como a sua medina bonita e muito menos comercial do que as de outras cidades, protegida por regras que permitem mudar o interior mas não o exterior das casas, as impressionantes cisternas no século IX ou sua pastelaria - Kairouan é o quarto lugar mais sagrado do islão devido à sua Grande Mesquita, a mais antiga do Norte de África. E haverá sempre muçulmanos tunisinos e de outros países sem medo do pós-revolução: tal como Meca, Medina (Arábia Saudita) e Jerusalém, este local de peregrinação deve ser visitado por todos os muçulmanos que o puderem fazer ao longo da vida.
A cidade, que chegou a ser a capital dos árabes para o Norte de África e onde já viveram 200 mil pessoas (hoje os habitantes não chegam a 140 mil), tem 135 mesquitas e 300 mausoléus. A Grande Mesquita é de visita obrigatória, mesmo que os não muçulmanos só possam visitar o imenso pátio e espreitar para as salas de orações, atrás de 17 portas de cedro vindo do Líbano. O pátio de uma mesquita deve ser local de oração e de descanso, de abrigo, onde se possa aproveitar o silêncio - que aqui só é interrompido pelos pássaros. Este pátio é tudo isto e é ainda um museu a céu aberto, com o relógio de sol e as suas 414 colunas (romanas e bizantinas), cada uma diferente.
Antes de sair de Kairouan não deixe de provar os makhroud, os bolinhos regionais de sêmola, canela, mel e recheio de tâmaras que podem ser comprados mais ou menos por todo o lado, em pastelarias ou na rua. No interior da medina deve experimentá-los na Segni, uma loja que oferece outras especialidades tunisinas.
Um coliseu e mais uma surpresa
Também no interior do país, e a uma curta viagem de autocarro ou táxi de Kairouan, encontra-se a cidade de El Djem, a valer uma visita pela possibilidade de um passeio no campo e o impressionante coliseu de 138 metros de comprimento e 114 de largura, o terceiro maior coliseu romano em todo o mundo, com uma capacidade estimada de 300 mil pessoas, muitas, mas mesmo muitas mais do que aquelas que em qualquer altura viveram na cidade.
De regresso a Sousse, e com as férias quase a acabar, decidimos deixar o deserto mais a Sul para nova viagem e recomeçar o regresso a Tunes. Mas não sem parar em Hammamet, a meio caminho entre Sousse e a capital, cidade que antes da revolução concentrava 60 por cento das receitas turistas da Tunísia (5 por cento do PIB em receitas directas, até 15 por cento quando se somam as receitas indirectas).
Nunca aconselharíamos uma visita a Hammamet a não ser agora. Antes sinónimo de hotéis, praias apinhadas e mais hotéis, é um verdadeiro luxo percorrer agora a sua medina murada deserta de estrangeiros e subir à kasbah (antiga residência do governador e depois forte militar) para as melhores vistas da cidade velha e do mar. Já sabíamos que havia poucos turistas por estes dias na Tunísia, mas não deixou de ser uma surpresa ter Hammamet só para nós.
Obrigatório é também um chá e um cachimbo de água no café Bab Sidi Bouhdid, ali mesmo, à saída da medina, de costas para as muralhas e de frente para o mar, com a possibilidade de escolher um lugar na esplanada ou um nos tapetes e almofadas espalhados pelos degraus do pátio interior.
Claro que Hammamet continua a ser sinónimo de praias de areia branca, hoje tão vazias e convidativas como as dos arredores de Tunes ou as de Sousse. Mas se já for quase tempo de voltar para casa, deixe-se ficar mais um bocadinho no Bab Sidi Bouhdid, só o suficiente para um pôr do sol daqueles ridiculamente bonitos, como os dos postais. A seguir já pode deixar a Tunísia de consciência tranquila e vista regalada.
Não, não podemos garantir que não lhe vai acontecer nada desagradável na Tunísia. Nem em qualquer outro lugar do mundo, com ou sem revolução. Mas a Tunísia continua a ter cidades maravilhosas e praias paradisíacas. E os tunisinos, que não dispararam uma única bala para derrubar Ben Ali, têm ainda mais vontade de o receber do que antes. A maioria só quer estabilidade e melhores condições económicas, enquanto aprende finalmente a viver em liberdade.
A Fugas viajou a convite do Turismo da Tunísia
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